Embora seja um dos sete grandes da DC Comics, todo mundo considera o Aquaman uma piada. Era o cara que montava um cavalo-marinho gigante no desenho dos Superamigos e o astro de uma série de vinhetas hilárias do Cartoon Network que tiravam sarro da suposta inutilidade de suas habilidades especiais.

Nos quadrinhos, nunca teve a devida atenção (demorou décadas para ter um título próprio, por exemplo) e, tirando uma ou outra fase (como a de Peter David, nos anos 1990), só foi parar de vez nos holofotes da editora com a passagem de Geoff Johns e Ivan Reis na sua revista durante os chamados Novos 52.

AQUAMAN

Eu particularmente devo dizer que adoro o personagem, e escrevo isso sem um pingo de sarcasmo. Comecei a lê-lo justamente nos anos 90, quando ele tem a mão devorada por piranhas e não parei mais. Sim, muitas histórias dele são bem ruins e mesmo alguns medalhões como Grant Morrison e Kevin Smith não souberam explorar seu potencial ou simplesmente não quiseram se dar ao trabalho.

Delfos, Aquaman, CartazOutros tantos conseguiram criar histórias bacanas, mas que nunca foram campeãs de venda, até a já citada passagem da dupla Johns/Reis. Enfim, resumindo: sou fã do Aquaman e ele é meu personagem favorito da DC depois do Batman. E repito, estou falando sério.

E se essa fase de sucesso nas HQs não é suficiente para chamar atenção do grande público para o herói aquático, Aquaman, o filme, certamente cumprirá esta função. Não só é o melhor filme da DC até aqui, como mostra como todo seu universo cinematográfico deveria e poderia ter sido caso o alto escalão da Warner não tivesse escolhido o cavalo (marinho?) errado (cof… Zack Snyder… cof) para dar a partida na coisa toda.

BEM-VINDO A ATLÂNTIDA

Tirando uma fala do filme que mostra que ele continua interligado ao Universo cinematográfico DC, ele toma a sábia decisão de se afastar ao máximo da bagunça, sendo uma aventura independente e quase sem qualquer relação com o que veio antes.

Aquaman é o chamado filme standalone. Você não precisa ter visto nenhum dos anteriores para apreciá-lo por inteiro. Então, ao lado de Mulher-Maravilha, serve como uma porta de entrada mais satisfatória para o melhor do universo DC do que o mundo escuro, lavado e depressivo de Zack Snyder.

Aqui, Orm (Patrick Wilson), meio-irmão de Arthur (nome civil do protagonista) e atual rei da Atlântida, está muito a fim de declarar guerra ao mundo da superfície. Se conseguir unir algumas outras tribos submarinas em sua causa, a guerra entre os dois mundos pode ser catastrófica.

Delfos, Aquaman
Irmão contra irmão.

Para evitar isso, Mera vai até o mundo da superfície buscar Arthur que, mesmo sendo um mestiço, ainda possui sangue real e o direito a disputar o trono da Atlântida, substituindo Orm e assim evitando o confronto.

O TRONO DA ATLÂNTIDA

Este é claramente o filme mais grandioso e ambicioso da DC até aqui. Seu primeiro blockbuster em termos de escala. Mulher-Maravilha tinha um escopo muito menor do que este aqui. O próprio Liga da Justiça, que deveria ter sido o grande evento deste universo, é uma aventura em grandeza muito menor do que este.

Somos apresentados a todo um novo mundo. A Atlântida é mostrada em toda sua glória. Os povos que a compõem, os animais, detalhes da cultura, as armas e veículos, é todo um mundo completamente novo e alienígena. E muito colorido.

Delfos, Aquaman
Quem não gostaria de cavalgar um tubarão?

Toda a exploração desse universo subaquático deixa a produção com ares épicos de fantasia. E isso é bom. Lembra aquela típica comparação entre Marvel e DC onde se diz que a Marvel era mais centrada no lado humano enquanto a DC era mais grandiosa, com personagens quase divinos? Pela primeira vez isso transparece na tela do cinema.

Aquaman é para ser visto na maior tela que você conseguir encontrar para encher os olhos com os detalhes dessa construção de mundo, além, claro dos efeitos especiais caprichados.

VOCÊ PRECISA DE UM COPO D’ÁGUA?

Enquanto assistia ao filme só conseguia pensar no que poderia ter sido do universo da editora no cinema se James Wan e não Zack Snyder tivesse sido escolhido como seu arquiteto.

O longa é colorido, épico, frenético. Tem seus momentos mais leves com piadinhas, e até outros mais sombrios, quase resvalando no terror que fez o nome do diretor. Ou seja, leva a história pelos caminhos que ela pede ao invés de tentar enfiá-la numa estética pré-definida. Bom, mas agora já era, não dá para ficar chorando pelo leite derramado.

Delfos, Aquaman
O uniforme clássico, finalmente!

Enfim, mais uma vez ele mostra um talento incrível para a ação, criando algumas sequências bem vertiginosas, com um uso bastante criativo de enquadramentos. Os efeitos especiais são bem exagerados, mas funcionam perfeitamente. Isso vindo de um cara que nunca curtiu excesso de CGI é um elogio e tanto.

Ah, sim, nada de bolhas de ar para conversas por aqui. Quando os personagens falam embaixo d’água, há apenas um efeito de eco em suas vozes e pronto. Também não há bolhinhas de ar quando eles respiram, mas isso pode ser encaixado naquela categoria da suspensão da descrença junto de “o som não se propaga no vácuo do espaço”.

Assim, todas as cenas de ação, tanto debaixo quanto acima da água ficaram muito boas, bem como as caracterizações dos dois grandes vilões. Tanto o visual do Mestre dos Oceanos quanto do Arraia Negra estão idênticos aos dos quadrinhos. Ficou excelente.

E sim, assim como nas HQs dos Novos 52, o filme assume com orgulho o lado considerado mais piada do personagem. Ele fala com a vida marinha, com direito àqueles clássicos círculos de energia e o barulhinho de “vuu vuu vuu vuu”. E em determinado momento ele cavalga algo que parece um cavalo-marinho gigante como um badass!

VOCÊ NÃO PODE COMER FRUTOS DO MAR!

Delfos, Aquaman
O Arraia Negra admirando seu tradicional capacete.

A trama é toda baseada na passagem de Geoff Johns pelos Novos 52, embora a personalidade mais marrenta e rebelde que Jason Momoa confere ao herói pareça vinda da passagem de Peter David nos anos 1990.

E talvez aí esteja o problema do filme. Johns construiu uma mitologia tão rica para o herói em seu run que parece que os roteiristas, ainda que simplificando muitos elementos, quiseram enfiar na película tudo que ele criou de uma vez só.

Como consequência, muitos desses elementos são espremidos de maneira meio gratuita e mostrados de forma um tanto corrida, isso num filme que tem mais de duas horas e vinte de duração. Tanto o Mestre dos Oceanos quanto o próprio Arthur Curry não precisavam de tantos quests assim, por exemplo.

Tivesse dado uma limada nesse afã de querer mostrar tudo do mundo da Atlântida de uma vez só, teria ficado ainda mais legal. Mas isso é algo que dá para perdoar. Afinal, em se tratando da DC nos cinemas, vai saber se algum dia teremos a oportunidade de ver um Aquaman 2

Delfos, Aquaman
Para encerrar, uma ruiva molhada!

HAIL TO THE KING

Baseando-se apenas na qualidade do longa, a chance é grande. Aquaman é muito divertido, empolgante, e mostra que a DC pode sim fazer um grande evento cinematográfico com leveza e cores claras. É um excelente filme solo de herói e mostra que ainda há esperança para corrigir o curso de seu universo cinematográfico.

E faz o que os quadrinhos já fizeram. Colocam o personagem em seu lugar de direito. Não como a eterna piada, mas sim como um dos grandes heróis da editora. É só assistir ao filme e comprovar.

CURIOSIDADE:

– Há uma cena no meio dos créditos finais. É algo clichê de quadrinhos, mas até que é legalzinha.

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