Watchmen – O Filme

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Watchmen – O Gibi: A resenha completa da HQ que inspirou o filme.
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Escrever a resenha do maior filme do ano é sempre complicado. Muita gente espera por ele e, desses, a maioria sempre se recusa a aceitar que uma obra tem defeitos, mesmo que ela seja boa apesar deles. Além disso, mesmo que eu só fale bem, é quase inevitável que algum fórum internet afora vai começar a me xingar. Cacilda, antes mesmo de escrever essa resenha, ou mesmo antes de ver o filme, um fanboy já apareceu por aqui me xingando pelo que eu poderia dizer neste texto. Como já diria o Tweek, “Ah! Too much pressure!”.

Fanboys à parte, resolvi dividir este texto em dois pedaços. Um, 100% spoiler free, para os delfonautas hereges que ainda não leram o gibi. O outro, mais aprofundado, vai fazer comparações entre as duas versões e não deve ser lida por quem não conhece a história. Se você já leu o gibi ou viu o filme, pode ler sem medo, pois tem apenas alguns spoilers leves sobre a outra parte.

A RESENHA PARA QUEM NÃO LEU O GIBI

É difícil explicar para quem não leu porque Watchmen, o gibi, é tão aplaudido. Claro, você já deve saber que é uma desconstrução do gênero de super-heróis, mas isso só ganha algum significado real após a leitura. Uma sinopse de sua história, por exemplo, não revela nada assim tão interessante. Saca só:

O super-herói Comediante é assassinado. O único que leva este incidente a sério é Rorschach, outro super-herói, que acredita estar diante de um assassino de vigilantes. Assim, ele passa a investigar o que diabos aconteceu com o carinha do bigode.

Watchmen, o gibi (ou Graphic Novel para os mais pedantes), rola em um mundo onde ninguém tem superpoderes, com a exceção do Dr. Manhattan. Este tem todos os poderes possíveis e imagináveis. Ainda assim, a presença deles (ou melhor, dele) afetou consideravelmente o mundo, fazendo com que a história se passe em uma década de 80 bem diferente da que conhecemos.

O filme tem todas essa características, mas não chega a ficar claro se os outros personagens realmente são desprovidos de poderes. Afinal de contas, nas cenas de porrada, é comum um soco fazer o alvo sair voando por muitos metros. Pode ser pura estética, ou pode ser uma mudança na proposta, você decide. Eu achei as cenas de ação muito boas. =)

Apesar de rolar ação, não vá assistir a Watchmen esperando ver um Batman. Este filme – e a HQ que o originou – está bem mais para uma história de suspense e espionagem do que para uma sequência adrenalística de pancadaria.

Parte da força do gibi está nos seus personagens realistas e bem construídos. Aqui não temos aqueles heróis altruístas com os quais estamos acostumados. O Comediante, por exemplo, é um psicopata sádico que, sabendo dessas características na sua personalidade, resolveu usá-las para o bem. Ou nem tanto. Já o preferido de todos, o Rorschach, é outro psicopata, mas ao contrário do Comediante, não tem tempo para frescuras como vácuos morais. Maniqueísta é pouco para esse cara. Não é à toa que a sua máscara ostenta apenas duas cores, o branco e o preto. Finalmente, temos o meu preferido, o Dr. Manhattan. Praticamente um deus, são dele as melhores frases, em especial pela sua forma peculiar de ver o tempo e o espaço, o que leva a altos papos místico-filosóficos – quase 100% ausentes do longa.

Com tantos personagens, a HQ poderia sofrer, mas cada um de seus doze capítulos é dedicado a um herói ou a um pequeno grupo deles. Uma boa analogia para quem não leu é pensar na forma com que Lost lida com sua extensa turminha de perdidos.

O filme mantém essa estrutura e, para quem leu, é fácil de relacionar cada minuto da projeção ao capítulo correspondente. Porém, esse método tem uma fraqueza quando transportado para o cinema: é comum que determinados personagens fiquem sem qualquer menção por algumas dezenas de minutos. Assim, quem não leu o gibi pode ficar confuso ou até se esquecer de alguns deles. Aliás, isso me fez pensar em quão legal ficaria um Watchmen – A Série de TV, feita em 12 capítulos de uma hora cada, não acha?

Voltando ao filme, lembro que fiquei impressionado com seu visual quando assisti àquelas três cenas especiais antes de todo mundo. Pois vendo a obra completa agora, percebo que Zack Snyder tinha selecionado justamente as três cenas com a estética mais tremendona. Watchmen é, por completo, visualmente lindo, mas, ao contrário do esperado, ele não leva a cara de gibi do Sin City a um novo nível. Para falar a verdade, nas cenas normais, de diálogos e sem uniformes coloridos, ele tem mais cara de filme até do que o trabalho anterior do diretor.

Já a trilha sonora é um espetáculo à parte. Acredito que nunca vi uma seleção de canções tão apropriadas para o clima das cenas. De Bob Dylan a Jimi Hendrix, passando por aquela que melhor representa toda a grandiosidade alemã (99 Luftballoons), tem horas que você vai sorrir ou sacar a mensagem simplesmente pela música que estiver tocando. E isso mostra o cuidado que tiveram na escolha.

Outra coisa digna de nota é que este é um longa violento. MUITO violento. Temos tripas, fraturas expostas e demais fofuras que normalmente só fazem parte de algo na linha do Jogos Mortais. Aliás, para ser sincero, acredito que o filme está até mais violento do que o gibi. Curioso, pois normalmente é o contrário.

Elogios finais vão para o elenco. Todos foram muito bem escolhidos e fazem seus respectivos papéis com perfeição, além de serem muito fiéis às suas contrapartes literárias. O mesmo vale para o figurino, que traz um ar realista com super-heróis que usam tecido, não materiais irreconhecíveis, como é praxe no gênero.

Por fim, falemos de um personagem específico. O Dr. Manhattan. Na minha interpretação do gibi, ele aparentava passar uma arrogância e falta de sentimentos no seu jeito de falar. Por isso achei legal quando falaram que o Keanu Reeves estava cotado. Afinal, ele é o único ator que eu conheço que nunca demonstrou nenhum sentimento em nenhum papel. Porém, o Dr. Manhattan do filme, a cargo de Billy Crudup, de Quase Famosos, é completamente diferente. Ele não é arrogante, é gentil. E ele não é desprovido de sentimentos, ele só os demonstra de forma mais sutil, o que passa despercebido pela maioria das pessoas. Mas se você prestar atenção na interpretação, os sentimentos estão lá. Taí, ficou diferente do que eu imaginei, mas talvez essa seja uma representação bem melhor de um deus na Terra do que a que eu tinha antes. Palmas para ele e para quem o escalou.

Basicamente, para desfrutar de Watchmen, o que você precisa saber é que esta não é uma história de seres humanos superpoderosos lutando pelo American Way of Life. É uma história sobre pessoas comuns, que escolheram seguir caminhos incomuns na esperança de que suas existências fizessem alguma diferença positiva para o mundo. Porém, como todos sabemos, a raça humana não sabe valorizar os pequenos milagres que recebemos.

Agora passe direto para as curiosidades se você não leu o gibi.

A RESENHA PARA QUEM LEU O GIBI E QUER MAIS DETALHES

Se você ainda está aqui, saiba que abaixo vão rolar spoilers. Leia por sua conta e risco.

Ao sair da sala, a sensação que eu tive foi de que tudo foi muito rápido. É até estranho dizer isso de um filme de quase três horas de duração. É fato que algumas coisas foram acrescentadas ou melhor desenvolvidas em relação ao gibi, mas é claro que outras foram cortadas. E algumas fizeram falta. Falemos delas:

A primeira coisa cortada, obviamente, é Os Contos Do Cargueiro Negro, aquela história dentro da história, que é lida por um moleque em uma banca de jornal. O moleque está no filme, a banca e o jornaleiro também, mas a gente não fica sabendo o que ele lê. Foi lançado um DVD que contém esse gibi em formato de animação (além de um documentário baseado na autobiografia do primeiro Coruja, Sob o Capuz), mas eu ainda não tive oportunidade de ver isso.

Minha opinião? Tinha mais que ser cortada mesmo. Sim, eu sei, é genial o fato de que ela espelha a trama principal e precisa de muita manha para fazer isso. Porém, ela não é necessária para o entendimento geral e, cá entre nós, o vocabulário enfeitado usado para contar essa segunda história torna a leitura dela bem chatinha.

No geral, o filme é bem fiel e repete literalmente vários dos diálogos da HQ. O engraçado é que algumas frases (sim, frases mesmo, não diálogos) ou momentos não estão lá – e fizeram muita falta, pelo menos para mim. Um deles é quando o Rorschach fala sobre o Comediante, dizendo que ele se tornou uma paródia da crueldade do mundo. Só que ninguém entendeu a piada. No filme, ele não fala que ninguém entendeu a piada. Lembro que quando li isso no gibi, até parei um pouco para pensar nas implicações dessa frase. A meu ver, ela define o Comediante como nenhuma outra cena poderia definir e, por isso, faz falta.

Uma cuja mudança eu não entendi é que, ao suspeitar do assassino de máscaras, Rorschach avisa o Coruja, a Espectral e o Dr. Manhattan. Quem avisa o Ozymandias é o próprio Coruja, ao contrário do que acontece no gibi. Por quê? Isso não diminui a duração nem acrescenta nada novo na história. Pelo contrário, faz estranhar porque Rorschach avisou todos os outros menos o Ozymandias. Se você tem alguma ideia do motivo, deixe nos comentários.

Vamos a outra. No final do gibi, Laurie e Dan vão visitar Sally e, quando eles saem, ela pega a foto dos Minutemen e dá um beijinho no pedaço da imagem onde está o Comediante. Isso também não está no filme e é outro daqueles momentos que, embora não sejam importantes para a trama geral, contribui muito para a formação dos personagens e mostra que, embora estivessem bem longe dos padrões românticos, aqueles dois (Sally e o Comediante) se amavam. É um momento cheio de ternura, ainda que de forma distorcida, que fez falta.

É engraçado como, tendo a história fresca na cabeça, a gente acaba preenchendo buracos inexistentes no filme. Por exemplo, no gibi, quando Laurie e Dan tiram o Rorschach da cadeia, a polícia vai caçá-los na casa de Dan. Assim, quando eles visitam Sally, alguns capítulos depois, estão com identidades falsas. Aqui, a polícia não vai atrás deles, então as identidades falsas não são necessárias. Ainda assim, como na minha cabeça, eles estavam sendo perseguidos pela polícia, estranhei a ausência de disfarces na última cena. Nesse caso, isso não fez falta para o filme, pois é algo até um tanto irrelevante, mas estou listando aqui apenas para ilustrar outra pequena diferença. Outra que não fez tanta diferença foi a ausência da morte do Hollis Mason, que no gibi é bem chocante, mas não afeta tanto a trama principal.

Quer mais diferenças? Na reunião para formar um novo grupo de mascarados, apenas os principais estão lá, ou seja, Ozymandias (que preside a reunião, ao contrário do gibi), Coruja, Rorschach, Dr. Manhattan (e sua namorada, Janey Slater), Comediante e Espectral. Faz sentido, por que colocar outros heróis lá só para fazer volume, se eles não poderão ser devidamente desenvolvidos?

Por fim, talvez as partes que mais tenham sofrido são os dois capítulos do Dr. Manhattan em Marte. A primeira, a origem dele, ainda está bem legal, perde apenas pelos vários detalhes cortados, que aumentam a linearidade e, portanto, deixa menos clara a forma não-linear com a qual ele percebe o tempo.

Porém, a segunda, o diálogo com Laurie, talvez seja o melhor momento da literatura quadrinhística e foi excessivamente simplificada para passar a menor quantidade de informações possível. Assim, todos aqueles argumentos místico-filosóficos do azulão ficaram de fora. Até no momento em que Laurie finalmente o convence do milagre da vida, ele não fala aquele “a vida é tão comum que nós esquecemos de quão milagrosa ela é”. Outra pequena diferença – novamente, uma única frase – mas nesse caso considero uma das melhores frases da literatura e um momento inesquecível da HQ. Considerando que várias outras frases desse diálogo estão intactas, é estranho que tenham deixado de fora justamente essa.

Essas são as principais diferenças que eu percebi. Existem outras – a forma como o Rorschach recupera seu uniforme depois de sair da prisão ou o local onde o Dr. Manhattan aparece para falar com Laurie – mas essas considerei menores ou necessárias para a adaptação.

Então já que falamos dessas todas, falemos do final, mais especificamente da presença ou não do monstro. Sim, essa parte está diferente. Não existe monstro. Mas sabe de uma coisa? Ficou bem melhor assim. Na verdade, faz tão mais sentido com todo o universo da história que é até estranho que o próprio Alan Moore não tenha optado por esse caminho.

Todos nós, que lemos o gibi, provavelmente vamos sentir faltas de algumas cenas ou frases das quais gostávamos. Porém, algumas mudanças são necessárias e, se já com essas ausências, o filme beira as três horas, imagine quanto duraria se fosse adaptado literalmente. Watchmen – O Filme é uma excelente adaptação da melhor HQ da história. Talvez não seja o melhor filme já feito, mas isso é até bom. Afinal, é legal termos histórias diferentes para curtir nas mais variadas mídias, não acha?

Curiosidades:

– Por que diabos brasileiro precisa colocar “o filme” no título de toda adaptação? Será que eles têm medo de que alguém compre ingresso para Watchmen na bilheteria do cinema esperando receber Watchmen – O Papel Higiênico?

– O uniforme do Ozymandias tem mamilos. Como os bat-fãs se sentem quanto a isso?

– Essa é uma dúvida minha em relação a todo filme estadunidense envolvendo mascarados. Por que diabos todo ator que coloca uma máscara, em algum momento, sente a necessidade de entortar sua cabeça alguns graus para a direita (alguns mascarados muito criativos entortam para a esquerda)? Mike Myers faz isso em todos os Halloween, o Jason também e até mascarados mais genéricos apelam para isso. Cacilda, nem o Heath Ledger escapou desse clichê quando deram uma máscara de palhaço para ele. É como se fosse a única maneira de atuar quando se usa máscara. Aqui, Rorschach também comete esse pecado, e faz o famigerado movimento na cena em que cai na armadilha, no momento em que a porta é aberta. O motivo para esse movimento é um dos grandes mistérios do universo para mim. Isso não passa nenhum tipo de sentimento e nem faz sentido que o caboclo consiga enxergar melhor através da máscara entortando a cabeça. Ok, não faz diferença nenhuma na qualidade do filme, mas é tão absurdamente comum que deve ter algum motivo. Alguém sabe explicar?

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).