Batman vs Superman: A Origem da Justiça

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Desde que se encontraram nas HQs pela primeira vez, Batman e Superman tiveram inúmeros desentendimentos. A maioria ideológicos, é claro. Afinal, o Homem de Aço é um símbolo da luz enquanto o Homem-Morcego é o Cavaleiro das Trevas. No entanto, quando não resolviam suas diferenças na conversa, ocasionalmente deixavam seus punhos apresentarem os argumentos.

Sempre houve algo de épico em ver Batman, um mero humano (com corpo e mente treinados ao limite da perfeição), sair na porrada com um deus, um dos seres mais poderosos do universo. E o mais incrível é que esses confrontos não duravam meio segundo, com o Superman transformando o Batimão em mingau. Por mais desequilibrado que esse duelo possa parecer, o Cavaleiro das Trevas sempre encontrou recursos para fazê-lo dar liga.

Chegou a hora de conferirmos essa treta na tela grande. Batman vs Superman: A Origem da Justiça finalmente mostra um quebra-pau em live action dos dois maiores ícones da DC Comics, como ainda nos apresenta a outra ponta da trindade, a Mulher-Maravilha, e coloca as primeiras peças para a formação de uma certa Liga e a criação de um tão sonhado (e há muito atrasado) universo cinematográfico da DC.

Bom, o filme é ok, bastante razoável, para ser bem sincero. Acontece que eu, como fã da DC de décadas, tenho muitas ressalvas com o universo que começa a ser arquitetado a partir deste longa. Falarei disso logo mais, mas antes, passemos à sinopse:

Através de um retcon ficamos sabendo que Bruce Wayne estava em Metrópolis durante a batalha do Superman com o General Zod que arrasou a cidade em O Homem de Aço. Bruce não fica nada feliz com a destruição e as vidas perdidas causadas num ato aparentemente inconsequente do Supinho e decide lhe ensinar um pouco de responsabilidade fazendo-o engolir seus perfeitos dentes kryptonianos.

Enquanto isso, Lex Luthor também enxerga o Homem de Aço como uma ameaça e arquiteta seus próprios planos para eliminá-lo. Basicamente, é isso. Há mais coisas na história, mas não convém contar aqui. Agora podemos passar aos principais pontos para análise, começando com a pergunta que não quer calar.

E AÍ, O BATFLECK ESTRAGOU O FILME?

Não, Ben Affleck não fez feio e entrega uma interpretação correta do personagem. Conforme especulei na matéria que escrevi quando ele foi escalado para o papel, esta é uma versão menos exigente dramaticamente do herói, e ele não faz feio. Uma performance segura.

Fisicamente, ele impressiona mais. Ele certamente tem o queixo proeminente do personagem e ganhou também o físico necessário. Quando veste a roupa do morcegão, chega a ficar quadrado de tão bombado. Também protagoniza uma excelente cena de luta, onde acaba com um destacamento de capangas usando toda perícia e brutalidade adquiridas em vinte anos de combate ao crime. É um dos melhores momentos do filme.

O batmóvel, por outro lado, talvez seja o mais feio a dar as caras em celulóide, uma mistura do Tumbler da trilogia do Christopher Nolan com uma Lamborghini, ainda que ele tenha a mesma funcionalidade de tanque de guerra do veículo usado pelo Batman de Christian Bale.

E O LEX LUTHOR DO JESSE EISENBERG?

Essa era uma das coisas que mais me preocupavam, pois não gostei do Luthor afetado de Eisenberg nos trailers, mas surpreendentemente essa versão hipster sem noção funcionou bem no contexto do longa. Ponto para o filme. Esse Luthor é mais irresponsável, mais cientista louco (como era na Era de Prata) e menos homem de negócios frio e calculista (como costuma ser retratado em versões mais modernas).

Acaba sendo um dos pouquíssimos alívios cômicos de um filme sério demais, ainda que por vezes ele pareça não ter exatamente um plano, um objetivo definido. Faltou um desenvolvimento melhor para suas motivações e comportamento, mas ainda assim o vilão acaba sendo uma das coisas positivas do filme.

A MULHER-MARAVILHA É MESMO MARAVILHOSA?

Olha, quando ela apareceu em toda sua glória, armadura e espada em punho, boa parte da galera presente na cabine bateu palmas. Eu não me empolguei tanto assim. Sua participação é pequena, embora importante, mas basicamente todas as suas aparições são o que foi mostrado nos trailers.

É legal vê-la em ação, Gal Gadot convence como a personagem tanto em sua identidade civil quanto nas cenas de ação, mas o filme apenas apresenta a personagem sem explicar quem ela é, de onde veio e qual é a dela. Sua presença é um ótimo bônus, mas claramente guardaram tudo para seu filme solo. Ao menos, baseado em sua participação aqui, dá para ter esperanças de que pode sair um bom trabalho protagonizado pela Princesa Amazona.

TEMOS MESMO A ORIGEM DA JUSTIÇA?

Temos. Há pequenas referências e indícios de uma grande ameaça que vai exigir a colaboração de mais do que apenas a trindade. Será preciso reunir um grupo maior de meta-humanos. O filme pincela isso em alguns momentos, mas nunca é o foco principal.

Ele faz questão de nos lembrar que ainda se chama Batman vs Superman e não Liga da Justiça Begins, o que pode ser deveras decepcionante para aqueles que estão esperando que o supergrupo já seja formado aqui. Há bons momentos de fan service, mas o foco é mesmo no embate entre suas duas maiores estrelas.

QUEM GANHA O CONFRONTO?

Calma, eu não vou dar spoiler, isso só indo ao cinema para saber. Contudo, outra coisa inesperada é que o filme não fica em cima do muro, tipo um Freddy vs Jason da vida, e há sim um claro vencedor da peleja. Felicidade absoluta para os fãs de um, indignação e pedidos de revanche para os admiradores do outro.

Entretanto, a treta não é tão épica quanto o material de divulgação deu a entender que seria. Achei a luta bem curta, na verdade, e muito mais fácil de resolver do que imaginava. Digamos apenas que o vencedor nem teve de suar tanto assim e deixemos por isso mesmo.

Todo o longa, como já era de se esperar, foi construído para finalmente descambar nesse momento. E quando ele finalmente chega, é um tanto apressado e muito menos emocionante do que sua construção parecia apontar.

ENTÃO QUAIS SÃO OS DEFEITOS DO NEGÓCIO?

Muitos, e este é o grande problema. A meu ver, deixar a gênese do universo DC nos cinemas nas mãos de Zack Snyder e David S. Goyer não é uma boa. Não me entenda mal, eu gosto do Zack Snyder, acho ele bom, tem um estilo bacana, mas é inegável que ele está acomodado como um dos diretores mais nerds dos últimos tempos. Toda a filmografia do cara é composta de filmes altamente nerds. Passou da hora de ele ir respirar novos ares para recarregar as baterias.

Ele está se escorando demais em efeitos especiais, destruições descomunais em CGI daquelas confusas demais para se entender direito o que está acontecendo e barulhentas em excesso. Ele até acerta em alguns pontos, como mostrar novamente a destruição de Metrópolis por ângulos diferentes, do ponto de vista de Bruce Wayne, e a já mencionada sequência do Bátima contra os capangas, essa sim de fazer relembrar do que ele é capaz. Mas a grande maioria do filme não tem muita personalidade nas cenas de ação. Especialmente a batalha final do terceiro ato, bastante genérica.

E já deu no saco essa fotografia lavada, quase preta e branca. Caramba, isso é um filme de super-heróis, não há vergonha em ser colorido. Quer se distanciar do padrão Marvel? Ok. Mas precisa ir para o outro extremo? A série de TV do Flash é um ótimo exemplo de que dá para fazer algo muito bom com os heróis DC fora desse padrão emo que está sendo estabelecido desde O Homem de Aço.

Aí entram os problemas de roteiro, cortesia de David S. Goyer. Tem vários clichês, como o acordar de um sonho dentro de um sonho. Repete pela milionésima vez a cena da morte dos pais de Bruce. Ela é até estilosa, mas totalmente desnecessária, parece mais uma obrigação contratual: se você vai fazer um filme com o Batman, a cena do Beco do Crime tem de estar presente por lei.

E, talvez o maior problema de todos, é tudo sisudo demais, para combinar com a fotografia aguada. O primeiro ato inteiro se arrasta martelando a ideia de que o Superman é um messias, como se isso já não tivesse ficado claro o bastante no filme anterior. A história tenta ser grandiosa demais, importante demais, resultando em algo apenas vazio.

O pior é que ambos, Snyder e Goyer parecem sequer entender o Universo DC. Sim, ele sempre teve um clima mais épico do que a concorrência, de heróis mais próximos de deuses que de pessoas comuns, envolvidos em situações maiores que a vida. Contudo, isso não é sinônimo de falta de leveza. Tudo é pesado, sem graça. Volto a bater nessa tecla: sem cor.

Também não entendem os personagens. E aqui pode haver informações consideradas spoiler. Se você não quer saber, pule para o parágrafo seguinte. Se O Homem de Aço já terminava de forma polêmica, aqui isso é ainda mais escancarado. Caramba, o Batman despacha uma dúzia de meliantes e não é para a prisão, mas sim para o cemitério mesmo. Se o Superman do longa anterior não era ainda o personagem pronto, o símbolo de esperança que todos conhecem, este aqui também não é o Batman que eu conheço. Adaptar algo para outra mídia é uma coisa, mudar a essência de um personagem, por outro lado, é desvirtuá-lo.

CONCLUSÃO

Disse isso na matéria do Ben Affleck e volto a falar. Não gosto desse caminho. Pode até fazer sentido para esta narrativa em particular, mas do ponto de vista da construção de franquia não me parece muito esperto ter um Batman muito mais velho que todos os outros personagens. É um papel físico demais para algo que deveria ser de longo prazo. A DC ainda me parece perdida, sem definir direito seus principais personagens como os ícones que são, e com um começo pouco empolgante para sua mitologia cinematográfica, embora nada impeça que correções sejam feitas ao longo do caminho.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça tem suas qualidades, contudo, os defeitos me incomodaram mais. Bem como sua estética, a qual não me agrada tanto. Pesando tudo na balança, o longa ainda diverte, tem seus momentos emocionantes e ao menos propõe um caminho para o futuro. Contudo, está longe de ser o evento arrasa-quarteirão prometido. Talvez isso não seja um grande problema para aqueles que não são versados na mitologia das HQs da DC, mas para os fãs de longa data, fica algo de decepcionante pairando no ar.

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