O Balconista 2

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Essa foi uma cabine um tanto bisonha. Normalmente, nossas resenhas de lançamentos de cinema são feitas após termos assistido ao longa em questão apenas uma vez. Isso faz com que algumas resenhas não reflitam necessariamente a nossa opinião depois de repetidas assistidas, pois enquanto alguns filmes se tornam melhores a cada vez que os vemos, outros, como O Sexto Sentido, por exemplo, trazem poucos incentivos para serem vistos mais de uma ou duas vezes.

Esse definitivamente não é um problema nesta resenha. Eu não só já tinha assistido ao dito cujo na Mostra do ano passado, como inclusive já tenho o DVD (e você também pode comprá-lo clicando aqui). Poxa, eu até o elegi para o cobiçadíssimo troféu de “Melhor de 2006 segundo o Corrales”, já que não existia nenhuma previsão de estréia em terras tupiniquins. Ou seja, eu estava mais do que capacitado a escrever essa resenha antes mesmo de o convite da cabine chegar, pois já o conheço praticamente de cor.

Em O Balconista 2 temos o prazer de reencontrar os personagens Randal e Dante depois de 10 anos do longa original. E logo constatamos que pouca coisa mudou. Após um incêndio no Quick Stop, onde trabalhavam, ambos conseguem um emprego na lanchonete Mooby’s. Só que agora eles já têm mais de 30 anos e a pressão da sociedade para que virem adultos responsáveis está beirando o insuportável. Enquanto Randal é um nerd da vertente revoltada, um eterno rebelde que não só conhece, como também aceita as limitações que a vida lhe impôs, Dante é um nerd mais domesticado e bonzinho, mas também mais infeliz com a sua situação atual. Portanto se submete mais fácil a essa pressão e está prestes a se casar com uma mina que ele nem ama tanto assim, o que fará com que ele tenha que abandonar todas as coisas que ele realmente gosta na sua vida, como os papos com Randal e a sua chefe, Becky. Temos também outro novo personagem, Elias, também nerd, mas dessa vez da vertente insegura, daquele tipo que foi muito torturado pelos bullies da escola – e que aqui continua sendo torturado por Randal.

A principal força desse longa está justamente nos personagens. Se você for nerd, provavelmente terá uma identificação muito grande com pelo menos um dos protagonistas. Eu, por exemplo, acho que passei minha adolescência sendo bem parecido com o Dante e hoje, com a vida adulta e as pressões da sociedade, acabei ficando mais semelhante ao Randal – embora seja completamente contra aquelas atitudes bullies dele.

O longa começa bem semelhante à sua primeira parte, com cenas aparentemente desconexas, quase uma seqüência de esquetes cômicas sobre a vida de um balconista. Porém, ao contrário do anterior, esse eventualmente acaba se tornando uma história e com uma mensagem bem legal. Ok, a do anterior (“Está cheio de gostosas no mundo, mas poucas delas fazem lasanha para você” – isso faz mais sentido no contexto do filme, acredite) também é legal, mas aqui rola uma identificação bem maior, talvez justamente pelo momento que eu estou vivendo agora.

Dentro dos esquetes, já são bem famosas as cenas em que Dante, Randal e Becky discutem se é certo ou não “ir da bunda para a boca” (o que, aliás, deixa Dante extremamente chocado) e, principalmente, o “choque de gerações de nerds”, que coloca Elias e um cliente da lanchonete contra Randal em uma discussão sobre qual é a melhor trilogia do cinema, Star Wars ou O Senhor dos Anéis. Isso sem falar de muitas outras discussões e conversas que você provavelmente já teve com os seus amigos, falando de coisas como sexo, masturbação e, é claro, o iminente longa dos Transformers.

Infelizmente, embora os diálogos sejam muitíssimo bem construídos, as legendas estão uma porcaria, com erros toscos de tradução e adaptação que tiram o sentido de muitas piadas e mesmo de algumas partes da história. Para piorar, existem várias cenas onde a música literalmente se torna a protagonista, com as letras passando exatamente os sentimentos necessários, mas as legendas também não as traduzem. Ou seja, se você sabe inglês, vai curtir muito mais do que alguém que vai depender das letrinhas.

E já que falamos da música, vale destacar também a trilha sonora. Embora aparentemente só tenha uma música composta especificamente para o filme (que não é grande coisa, para falar a verdade), é na escolha das canções que O Balconista literalmente se destaca e deve agradar a todo tipo de nerd. Temos desde o Metal pesadão do King Diamond até o Rock Alternativo do Smashing Pumpkins e do Soul Asylum passando, é claro, pelo Pop sentimental da Alanis Morrissete. E cada uma delas toca no momento certinho, com as letras redundando perfeitamente com os sentimentos de cada cena.

O Balconista 2 é uma história de amor e de amizade, mas nada tem a ver com aqueles filmes pentelhos que normalmente são divulgados como “histórias de amor e de amizade”, pois aqui existe um sentimento real. Absolutamente todo nerd vai se identificar com o que os personagens do longa sentem. Eu mesmo já até perdi a conta de quantas vezes já tive aquele diálogo de que “o mundo nos deixou para trás há muito tempo” com meus amigos. E isso antes do filme estrear, o que mostra que nerds brasileiros não são tão diferentes dos estadunidenses.

Um outro ponto muito importante na história é justamente a ambição profissional. Para nós, nerds, passar a vida trancado em um escritório trabalhando para um babaca qualquer é a mais literal definição de inferno. Só que a sociedade acaba exigindo que a gente faça isso e, diante dessa obrigação, a maior parte de nós vive completamente infeliz. Alguns poucos conseguem encontrar caminhos alternativos, nem sempre compreendidos pelas outras pessoas, mas necessário para que aturemos as nossas vidas. Para mim, o DELFOS foi essencial para que eu entrasse em contato com o “Corrales adulto”, mas sei que muitos de nós nunca chegam a esse ponto e acabam em um estado eterno de frustração. O Balconista 2 passa justamente essa mensagem de que crescer é preciso, mas que não existe nenhuma necessidade de você se tornar uma pessoa diferente ou abrir mão da sua felicidade por causa disso. Basta encontrar uma vida que faça sentido para você, ao invés de seguir o que os outros querem que você seja. Saia da manada e descubra quem você é.

Por outro lado, passa uma mensagem de tolerância em relação a opções de vida incomuns. Afinal, somos todos pessoas diferentes. Sem querer estragar com spoilers dando descrições demais, quando o adepto da zoofilia diz sentir saudades de seu parceiro animal, isso pode ser entendido simplesmente como uma piadinha, mas também podemos interpretar que existia um afeto real entre eles e, embora as pessoas “normais” não sejam capazes de entender isso, não cabe a nós julgar o que é certo ou errado para os envolvidos naquilo. Por fim, Smith também manifesta a dificuldade masculina em expressar seus sentimentos, sobretudo para outros amigos homens. E eu também me identifico bastante com isso. Sem falar, é claro, no final, que é simplesmente um dos mais fofinhos que eu já vi.

O Balconista 2 é um filme que realmente não vai agradar a todo tipo de público. Se você não é ou não tem nenhuma identificação com os nerds, realmente não gaste seu dinheiro assistindo. Isso ficou bem claro na cabine, onde praticamente ninguém riu, com exceção de algumas poucas risadas isoladas em algumas cenas específicas. Em comparação, na exibição da Mostra, a galera ria em massa.

Muita gente pode simplesmente se sentir incomodada com as piadas sexuais, os diálogos cheios de palavrões ou até mesmo com a cena de zoofilia. Contudo, isso reflete simplesmente a forma natural das pessoas falarem e fazerem piadas e não tira, de forma alguma, o conteúdo do longa. A melhor definição para este filme está na capa do DVD e é de autoria do New York Times: “O Balconista 2 tem uma mente suja, mas seu coração é puro”. Aliás, isso define muito bem não apenas o filme, mas os nerds como um todo. Afinal, a gente pode até ir “from ass to mouth”, mas só com quem a gente realmente ama. =)

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