Tem duas características que tornam relativamente fácil para qualquer game me agradar. Ser de plataforma (3D de preferência) e ser fofinho. Portanto, começo esta análise Kukoos Lost Pets dizendo que o game é tudo isso. E, ao mesmo tempo, ele me deixou com raiva, irrritado como nenhum outro plataforma deixou antes. Eu sinceramente não sabia que era possível me sentir tão mal enquanto jogava um plataforma 3D. Mas Kukoos Lost Pets provou que estava errado. E devo lembrar: eu sou o cara que gostou de Balan Wonderworld.

ANÁLISE KUKOOS LOST PETS

Kukoos Lost Pets é um fofo e colorido plataforma 3D que, à primeira vista, parece ser bem parecido – e tão agradável quanto – Sackboy’s Big Adventure. Na verdade, a primeira impressão que ele causa é fantástica. Seu visual é uma gracinha e a introdução do jogo é uma cutscene animada e falada (apenas em inglês, mas há legendas em português), algo que nem a Nintendo costuma fazer.

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Não parece o jogo do Sackboy?

Daí você entra nas primeiras fases e a impressão continua boa. Os gráficos são simplesmente fantásticos, especialmente se consideramos que até o momento ele está disponível apenas em versão de PS4. As coisas começam a piorar quando ele mostra seu gimmick.

O GIMMICK E OS PETS PERDIDOS

A pegada de Kukoos Lost Pets é que você vai encontrando bichinhos perdidos na sua aventura. E cada bichinho traz novas habilidades ao personagem controlável. É mais ou menos como os power ups do Super Mario, mas ao invés de deixarem o jogo melhor, deixam pior.

O primeiro bichinho é um vagalume, usado para iluminar os arredores. E isso já me fez torcer o nariz. Embora os efeitos de iluminação sejam muito bonitos, faz com que Kukoos Lost Pets já use logo no começo aquilo que vivo criticando aqui, de não aproveitar todo o espaço da tela.

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É assim que você vai enxergar todo o primeiro mundo.

Forma estranha de começar. Imaginei que os devs queriam mostrar pintudice técnica na iluminação, mesmo deixando o gameplay chatinho logo de cara. E vá lá, a qualidade visual era tamanha que eu ainda botava fé. Fiquei chateado quando percebi que todas as fases do primeiro mundo usariam esse gimmick do vagalume, mas certamente as coisas melhorariam no segundo mundo.

ANÁLISE KUKOOS LOST PETS: SQN

O problema é que não melhorou. Muito pelo contrário, aliás. O segundo pet é uma plataforma que você carrega e aciona para alcançar áreas mais altas. Até aí beleza, mas quando está com ela “ligada”, você fica preso a ela por uma cordinha, que limita consideravelmente sua movimentação. E, quando desligada, os pulos ficam tão baixinhos e inúteis que é como se a habilidade não existisse. Meu amigo, se tem algo pior do que deixar boa parte da tela preta é limitar o pulo de um jogo de plataforma.

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A corrente que prende você ao pet exige que você a ligue sempre que quiser pular, e desligue sempre que quiser andar.

Aí comecei a pensar que tinha algo de muito errado aqui. Se a pegada é colocar um pet diferente por mundo, limitando a jogabilidade, e os dois primeiros puxam o jogo para baixo (literalmente, por uma cordinha), o futuro dele não era muito promissor. Este segundo mundo é tão absurdamente ruim que eu cheguei a sentir saudade do primeiro, em que não conseguia enxergar direito. Absurdo, né?

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Essa fase, meu amigo, foi uma das coisas mais irritantes que passei em um videogame.

A coisa atingiu um precipício na fase acima, que tenta ser 2D, mas não limita o movimento em esquerda e direita. Isso faz com que você constantemente caia pela frente ou por trás das plataformas. Além disso, entrar em cada porta te manda para um lugar inesperado. Pode avançar, ou pode voltar para o comecinho. E você só sabe qual faz o quê entrando em todas. Não, meu camarada, assim não dá.

ANÁLISE KUKOOS LOST PETS É MAIS DIFÍCIL QUE CRASH 4

O código de review de Kukoos Lost Pets veio com um texto falando que era um game para todas as idades, fácil para qualquer pessoa jogar. Pensei “pô, legal, algo pra relaxar um pouco”. Qual não foi minha surpresa ao ver que o bagulho era ainda mais difícil do que o ridículo Crash 4? Porém, ao contrário do nosso amigo marsupial, fiquei em dúvida se a dificuldade era intencional. Parecia ser level design ruim mesmo. Coisa como cair por trás das plataformas em uma fase teoricamente 2D, como citei acima, não parece feito de propósito.

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Aqui está um ótimo exemplo.

Na fase da imagem acima, você vai pulando de nuvem em nuvem. Elas se movimentam e somem quando chegam ao final do seu caminho. Então não dá para voltar. Porém, cada sequência de nuvens termina em uma pequena ilha como a da imagem, repleta de minas, que explodem quando você chega perto.

Até onde pude perceber, não há defesa. A plataforma é pequena demais para você ficar fora do raio da explosão. Não dá para passar correndo e o pet não te protege da explosão. E quando uma delas explode, te joga pra longe, naquele estilo Ninja Gaiden de Nintendinho.

Depois de mais de 30 minutos tentando passar por este checkpoint, usei uma tática kamikaze. Corria até o meio da plataforma, para que a bomba do meio me empurrasse, e rezava para ela não me derrubar no buraco. Quando sobrevivia, precisava passar por uma nova sequência de nuvens, que terminava em outra pequena plataforma com minas. Tem três hitpoints aqui, então você precisava ser perfeito para passar.

É OU NÃO É? DECIDA-SE!

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O terceiro pet deveria te proteger de tiros.

Também há muitos problemas técnicos. O senso de profundidade, um problema comum em plataformas 3D, aqui é bem grave. É super comum você achar que “pulou certo” apenas para atravessar a plataforma.

Outro pet, da imagem acima, pode ser usado como um escudo que te protege de tiros. Porém, várias vezes eu estava com o escudo ligado e mesmo assim era atingido. Se há tiros que atravessam o escudo, o game faz um péssimo trabalho em diferenciá-lo dos outros. Mais provável, pelo que consegui entender, é que se você “absorver” uma certa quantidade de tiros, o escudo quebra. Mas eu não consegui tirar a prova disso, pois em algumas vezes eu ficava absorvendo tiros por um tempão e tudo bem.

Kukoos Lost Pets é absurdamente inconstante. Você nunca pode ter certeza que algo que funcionou antes vai funcionar sempre. E isso é a morte de qualquer videogame.

TÉCNICA CRUA

Também há outros problemas técnicos, que vão do pequeno, como telas de carregamento longas demais, a coisas mais graves, como a tendência de você simplesmente atravessar uma plataforma e cair para a morte enquanto simplesmente esperava ela chegar do outro lado.

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Tem também os sempre presentes chefes longos demais, falta de tutoriais importantes (eu quase travei na primeira missão porque o jogo não ensinou que apertando o R2 o vagalume movia plataformas). Além disso, ao morrer – e você vai morrer muito – perde as moedinhas que você pegou desde o checkpoint.

Chegou ao ponto em que eu desistia de coletar as coisas e ia direto até o final da fase, porque sabia que, se morresse, precisaria passar dez minutos coletando tudo de novo. Ah, e nem pegar as moedinhas, algo tão básico em um jogo de plataforma, é gostoso. Elas ficam sempre pulando, e têm tendência a passar por cima ou por baixo de você. O problema forte de profundidade também afeta isso. Muitas vezes, você atravessa a moeda e não consegue entender porque não a pegou.

É POSSÍVEL UM PLATAFORMA 3D FOFINHO NÃO SER DELICINHA?

Infelizmente, Kukoos Lost Pets demonstra que sim. A sensação que fiquei ao parar de jogar foi que tinha vivenciado o pior plataforma 3D da minha história. E, como sempre repito aqui, plataforma 3D é meu gênero preferido. Ou seja, já joguei muitos!

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E é realmente uma pena. Kukoos Lost Pets entrou no meu radar alguns anos atrás, quando uma assessoria gringa me mandou uma lista de games promissores feitos no Brasil. E nosso país já produziu alguns excelentes games de plataforma, tanto 2D quanto 3D. O visual de Kukoos Lost Pets certamente prometia algo tão legal quanto os que acabei de linkar.

Infelizmente, os amazonenses da Petit Frabrik parecem ser ótimos para criar visuais bonitos, coloridos e fofinhos. Mas precisam melhorar consideravelmente suas habilidades em level design e gameplay. Ou então focar em animações não interativas, o que eles fazem também – e imagino que bem melhor.