Mais do que qualquer outro diretor, acredito que Matheus Souza mais me marcou por um único filme. O filme em questão, Apenas O Fim, realmente me agradou muito. A ponto de que sempre que vem um novo lançamento do sujeito, eu acabo assistindo. Isso mesmo sem ter realmente me envolvido fortemente com nada do que ele fez depois. Pois este é Tá Escrito que, como você certamente já sabe a esta altura, é o novo filme dirigido por Matheus Souza.

Tá Escrito, Matheus Souza, Larissa Manoela, DelfosCRÍTICA TÁ ESCRITO: COPIA ALADDIN, MAS NÃO FAZ IGUAL

Depois de assistir a Tá Escrito, eu consigo até imaginar o briefing. Isso porque o que temos aqui não é comunicação ou arte, mas apenas um produto comercial. A ideia é fazer um Aladdin com uma temática igual aos desejos mágicos, mas diferente.

Alice (Larissa Manoela) é uma moça que curte uns horóscopos e recebe misteriosamente um livro em casa. O livro diz que tudo que é escrito lá se tornará real para todas as pessoas que dividam o signo. Obviamente, nossa amiga, leonina como todo protagonista, começa a escrever coisas que deseja para si no livro.

2D COMO UM JOGO DE NINTENDINHO

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Ao ver tudo se realizando, Alice passa também a ajudar a vida das pessoas queridas. Basicamente, o filme pega o clichê de cada signo (tipo Áries gostar de conflito) e imagina como seria melhor se as pessoas fossem diferentes (no caso do Áries, sendo mais fofo). Tô pra ver um filme com um tratamento mais 2D de seus personagens.

Ele vai até para o enorme clichê de vilanizar o signo de Escorpião, como absolutamente toda história semelhante. Será que quem escreve essas porcarias percebe que está praticamente cometendo um crime de ódio, dizendo que todas as pessoas que nasceram entre 23 de outubro e 21 de novembro são do mal?

ISSO VAI DAR M

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É bem claro desde o início o que vai dar errado nessa história. Afinal, ao querer ajudar os amigos, ela está ajudando todo mundo que compartilha do signo. E você sabe, se todo mundo é especial, ninguém é especial. Como alguém que passou os últimos 20 e tantos anos descobrindo que faz parte do grupo “não especial”, posso dizer que aceitar isso dói. Mas é melhor tirar o curativo rápido.

Ela chega ao ponto de escrever no livro que o signo de Sagitário deve se apaixonar por alguém chamada Alice. Sério, meu? Eu tenho dificuldade de imaginar que alguém na situação dela, de plena posse de suas faculdades mentais, escreveria algo tão específico para afetar 1/12 da população mundial.

TÁ ESCRITO, MAS ERA MELHOR NÃO ESTAR

A sinopse da realização dos desejos pode lembrar Aladdin, mas o produto final lembra mesmo é O Amor é Cego, aquele filme extremamente do mal estrelado pelo Jack Black. Assim como o filme dos Irmãos FarrellyTá Escrito finge ser do bem, uma história edificante, quando na verdade reduz seres humanos a clichês ambulantes, perpetuando estereótipos malignos. No antigo, determinados pela sua aparência física. Aqui, pelo signo. Leão = protagonista. Escorpião = vilão.

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A lição de moral no final do filme é justamente que as pessoas são tridimensionais, e não são totalmente representadas pelo seu signo. O problema é que o filme quer fazer você sair do cinema com essa ideia depois de ter passado 90 minutos martelando o contrário: todas as pessoas que dividem o signo são exatamente iguais.

Não acho que assisti a todos os filmes do Matheus Souza, mas dentre os que assisti, Tá Escrito é DE LONGE o pior de todos. Para seguir a própria linguagem do filme, Tá Escrito é o Escorpião de sua filmografia. Faz um bom tempo que o diretor trabalha com a Rede Globo, mas os filmes que fazia para o cinema ainda tinham algo de autoral e pessoal. Tá Escrito é apenas um produto para as pessoas verem nas férias, não melhor do que um episódio de Malhação. E normalmente não tenho problemas com isso, mas mesmo um filme-produto precisa ter qualidade e criatividade. O que Tá Escrito não tem. É um emaranhado de clichês que tenta ser edificante mas acaba apenas perpetuando estereótipos malvados.