God of War Ragnarok está disponível desde o dia nove de novembro, e nossa análise God of War Ragnarok sem spoilers foi publicada uma semana antes. Agora que já demos um tempo desde o lançamento, tenho muito mais a dizer. Mas para isso quero entrar em spoilers, tanto de gameplay quanto de história. Então se já jogou ou não se importa com isso, coloque seu filho a tiracolo e me acompanhe nesta aventura.

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SPOILERS DE GOD OF WAR RAGNAROK A SEGUIR

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Odin avisa: esta é sua última chance de fugir dos estragões!

Ainda aqui? Ótimo! Porque vou dizer que algumas coisas deixaram meu trabalho de crítico bem limitado. Coisas que para mim pareciam banais, como o fato de jogarmos boa parte da campanha com Atreus, preferi deixar de fora da análise. Até mesmo coisas como o fato de que Freya e Thor são acompanhantes durante parte da campanha, tive que evitar – inclusive assim cortando todas as imagens em que eles apareciam. Aqui, não terei essas limitações e vou publicar algumas das imagens mais legais que capturei, sem me preocupar com o que elas mostram, ok?

Então vamos lá. Eu gostei MUITO da história de God of War Ragnarok. Amei o fato que eles brincaram com o que conhecemos dos mitos e com as profecias, de certa forma nos contando o que ia acontecer, mas ao mesmo tempo fazendo acontecer de forma surpreendente. Isso não é fácil de fazer, e uma habilidade exclusiva dos melhores roteiristas.

Isso se estende a absolutamente tudo em God of War Ragnarok. É muito difícil qualquer obra cultural ter este nível de investimento financeiro e laborial. Esta é a típica obra “prestígio”. Não é especialmente artístico, no sentido de que é algo feito por uma empresa e pessoas contratadas por ela. Mas justamente isso permite que toda a equipe criativa, dos roteiristas aos atores, passando por desenhistas e músicos, estejam entre os melhores de suas áreas. Isso é o que torna um videogame deste tamanho especial, e ao mesmo tempo o que faz que jogos assim sejam tão raros hoje em dia. Eles simplesmente exigem muita gente, muito talento e muito dinheiro. Inclusive, tenho medo de que God of War Ragnarok seja o último – ou um dos últimos – games “prestígio” que vemos no mundo mainstream dos joguinhos eletrônicos.

ROTEIRO GENIAL, MAS SEMENTES SEM FRUTOS

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O que o Atreus está fazendo em Death Stranding?

Ao mesmo tempo que o roteiro é incrível, ele deixa algumas pontas soltas que não parecem existir para continuações. Afinal, God of War Ragnarok é para ser o final da história nórdica da série. Tudo que foi elaborado nesses jogos deveria ser resolvido aqui. E não é o caso. Começando pelo grande elefante branco: a morte de Kratos.

Este era um dos cliffhangers do game de 2018 e uma das coisas que todo mundo acreditava que aconteceria aqui. No meu texto especulatório, eu disse que provavelmente veríamos uma cena parecida com a da profecia, em que víamos Kratos deitado no colo de Atreus enquanto este vomitava Jörmungandr, mas com outro contexto. Ora pois, só que isso não acontece.

A MORTE DE KRATOS EM GOD OF WAR RAGNAROK

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Kratos deitado enquanto Loki dá à luz a Serpente do Mundo.

A possível morte de Kratos é citada com frequência ao longo de God of War Ragnarok. Mas ela nunca dá resultados. Ele não morre, a cena da profecia não acontece e nada na história deixa claro que as ações dos personagens evitaram isso. Pelo contrário, aliás. Assim como Quantum Break, todo o roteiro é construído em cima da ideia de que qualquer coisa que você tente fazer para evitar a profecia, fará a profecia acontecer. Então por que diabos isso não acontece? E por que o jogo termina sem nenhum personagem comentar ou colocar um ponto final nessa história?

God of War Ragnarok até mostra o “nascimento” da Serpente do Mundo, quando Loki/Atreus faz um feitiço para colocar a alma de um gigante em uma cobra morta. Mas Kratos não está presente nessa cena. Depois disso, Angrboda conta que a cobra estava crescendo muito e muito rápido, o que dá a entender que seria o nosso amigo Jörmungandr. Na fase final, o momento do Ragnarok, Jörmungandr aparece na batalha, e Kratos comenta que está diferente, o que deixa claro que era uma versão mais jovem do personagem, antes de lutar contra Thor e ser enviado de volta no tempo. Mas a coisa acaba aí. A batalha de Ragnarok é resolvida e Thor morre sem a serpente lutar contra ele. Assim, não há viagem no tempo. O que aconteceu então? Há duas serpentes gigantes habitando Midgard ao mesmo tempo? E já que falamos na cobrona…

QUEM CHAMOU JÖRMUNGANDR QUANDO ATREUS ESTAVA DOENTE?

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Esta era outra pergunta que deixou todo mundo curioso. Uma informação que estava no game de 2018 e que todos esperavam que seria respondida agora. Eu até especulei o que achava que tinha acontecido. Mas esta informação parece ter sido simplesmente esquecida pelos roteiristas de Ragnarok. A não ser que a resposta esteja escondida em algum lugar que não encontrei, o assunto sequer é citado em nenhum momento. É um verdadeiro ponto sem nó, uma enorme falha de roteiro.

Em roteiro, é absolutamente proibido dar pontos sem nó. Ou seja, colocar uma informação que nunca será desenvolvida e que não afeta a trama de forma alguma. Não tem porque aquilo ter acontecido em God of War 2018. A corneta toca, Mimir comenta que alguém chamou Jörmungandr, e é isso. Este fato nunca mais é citado, nem em 2018 nem em 2022. Então por que diabos aconteceu? Deveria ter sido simplesmente cortado do jogo final.

A PATROA FINALMENTE APARECE EM GOD OF WAR RAGNAROK

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A esposa de Kratos, no momento que dá início a tudo.

A presença de Faye, esposa de Kratos e mãe de Atreus, era algo que queria comentar na análise mas evitei. Depois de passarmos o jogo anterior inteiro ouvindo falar dela, ela finalmente aparece em cenas de flashback, desenvolvendo um pouco a relação que tinha com o maridão, e até mesmo mostrando o fatídico pedido: espalhe minhas cinzas do topo da montanha mais alta em todos os reinos.

Eu gostei da presença dela, especialmente da cena da imagem acima, em que Kratos a acompanha enquanto ela marca as árvores com a mão. No jogo anterior, era revelado que ela sabia todo o caminho que os heróis seguiriam em sua aventura, inclusive marcando com tinta cada degrau e escalada que fariam.

Isso é algo que senti falta aqui. Todos os caminhos em God of War Ragnarok continuam marcados. Isso é algo de game design, para guiar o jogador, afinal de contas. Mas achei muito legal que deram uma justificativa narrativa, de que a Faye fez todo o caminho antes para guiar os heróis. Aqui, no entanto, essa justificativa não existe. Será que a moça também marcou todo o caminho do segundo jogo? E por que ela fez isso? Ela vai marcar tudo que os personagens farão no resto da vida? Acaba sendo mais um ponto sem nó.

Nesse caso, é uma armadilha de roteiro. Algo que foi justificado de forma legal no primeiro jogo, mas que deixou os roteiristas presos agora. Poderia ter sido resolvido usando marcações mais naturais em Ragnarok, como em Uncharted, mas todo o caminho é marcado com os mesmos desenhos do game anterior.

E O RAGNAROK, MEU?

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Nada tema, Ragnarok chegou!

Uma das missões de história coloca Kratos e Atreus em busca de Surtr, o gigante que, ao se unir com sua amada, viraria o monstro gigante chamado Ragnarok. Surtr não aceita, pois isso significaria a morte de sua amada. Mas ele sugere uma alternativa, que acaba dando certo. Só que o personagem Ragnarok não tem a menor importância na batalha final. Ele primeiro é só um detalhe do cenário. Depois, ataca os protagonistas, que simplesmente fogem, sem nunca lutar contra ele. Que houve?

Será que Ragnarok ficou em Asgard, destruindo tudo? Ele se desfez? Morreu de alguma forma? O jogo não elabora isso. Depois da campanha, você pode ir para Niflheim e vai ouvir choros femininos. Os personagens comentam que os choros são da amada de Surtr, mas fica por isso mesmo. Eu não consegui encontrá-la ou conversar com ela. Apenas ouvia seus lamentos como a trilha sonora de Niflheim.

No pouco que aparece, Surtr é um personagem muito legal, que eu gostaria de ver mais desenvolvido. Ou, pelo menos, de ter um desfecho bacana para sua história, o que nunca acontece. Na verdade, se ele não existisse no game, a única diferença seria uma missão que não serve para nada a menos e um detalhe visual no cenário da última fase.

RAW DOG

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Os heróis vão à batalha.

Isso é tudo que gostaria de ter colocado na análise God of War Ragnarok, mas optei por deixar para depois. Até isso ser publicado (este texto foi escrito em três de novembro de 2022), o jogo já estará disponível por algumas semanas. Então é provável, e até possível que algumas dessas minhas dúvidas e críticas tenham sido respondidas pelos próprios fãs. Mas são pontos que ficaram em aberto na história da minha campanha, que foi relativamente completista (fiz todas as missões que encontrei). Se eu não encontrei essas respostas, acredito que muitas outras pessoas também não encontrarão. E esta é a única mácula que encontrei na história excelente de God of War Ragnarok.