Transformers: Devastation

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Eu já reclamei muitas vezes por aqui da tendência dos jogos da geração atual em serem de mundo aberto e terem forte influência de RPG. Claro, jogos assim devem existir, muita gente gosta disso. Eu mesmo gosto disso, embora minha preferência seja por jogos que vão mais direto ao ponto.

Infelizmente, em toda essa geração de consoles até o momento, existem apenas três jogos AAA que são mais diretos. São eles The Order: 1886, Knack e Ryse: Son of Rome (este, para mim, o melhor título da geração até o momento).

É tão pouco que pessoas com gostos parecidos com os meus acabaram se divertindo mais até agora com os remasters de geração passada, como DMC, Gears of War e The Last of Us. E ninguém compra um console novo para jogar games antigos.

Pois Transformers: Devastation parecia ser uma gota de alívio em um mar de RPGs de mundo aberto. Divulgado como um beat’em up focado na ação, com gráficos de desenho animado e trazendo o pedigree da desenvolvedora Platinum Games (que já nos empolgou deveras com os divertidões Vanquish e Bayonetta). Tudo indicava que seria um jogaço, a empolgar todos com gostos corralianos do Oiapoque ao Chuí.

SÓ QUE NÃO

Alguns minutos depois de iniciar um jogo, eu alcancei um hub, onde ganhei dezenas de novas armas. Cada arma tinha várias estatísticas, um nível e até um grau de raridade. Aí o desespero bateu. Tal qual Borderlands e outros RPGs de ação, Transformers: Devastation exigiria que eu passasse boa parte do meu tempo com ele comparando estatísticas de armas e dando equipamentos para o meu personagem.

Aliás, não apenas um personagem. Você pode alternar entre cinco Transformers (quatro autobots e um dinobot) e cada um deles deve ser montado com equipamentos, upgrades e armas diferentes. É um nível de complexidade não apenas desnecessário para um jogo que se propõe a ser um beat’em up, mas algo que, ao invés de destacá-lo dos outros lançamentos deste ano, o coloca em um mar de mediocridade. Afinal, quem quer RPG vai jogar The Witcher 3, não Transformers: Devastation.

Borderlands é uma boa comparação, já que cada um dos personagens pode usar qualquer tipo de arma, mas eles são diferenciados por coisas como “supers” e pelos upgrades que você faz. A diferença é que em Borderlands você escolhe uma classe e fica com ela durante todo o jogo, enquanto aqui você pode alternar entre os robôs cada vez que encontra um ícone no cenário.

Isso cria problemas. Experimentando um tipo de arma nova ou um novo robô, é natural que você não goste tanto de alguns quanto de outros. Mas pode demorar muito para ter uma nova oportunidade de trocar, e até lá você fica preso com o loadout que escolheu. E isso é agravado por outro fator chamado…

DIFICULDADE

Transformers: Devastation tem três níveis de dificuldade. A descrição do mais baixo é algo tipo “para quem gosta de jogos de ação, mas não é um expert”. A do nível médio é “para quem quer uma experiência bastante desafiadora”. Isso me deixou em dúvida se o tradicional “normal” seria a do meio ou a mais baixa (os nomes delas são coisas como “warrior” e “scout”). Escolhi a do meio e de fato foi deveras desafiador.

Em determinado momento, troquei do Optimus Prime para o Bumblebee e logo me arrependi, mas estava preso em um chefe e não conseguia trocar de personagem ou de dificuldade a não ser que reiniciasse o capítulo. Por causa disso, morria dezenas de vezes em cada checkpoint, e passei uma tarde inteira para vencer apenas os dois primeiros capítulos.

Na terceira missão, resolvi arregar e mudar para a dificuldade mais baixa. E aí ele ficou fácil demais. Passei por todo o resto do jogo (mais cinco capítulos) sem morrer nenhuma vez e em apenas três horas. Realmente deveria ter um nível intermediário entre essas duas dificuldades, que fosse desafiador sem obrigar o jogador a repetir os checkpoints tantas vezes.

Uma outra característica, no entanto, também me decepcionou.

MUNDO ABERTO?

Boa parte das fases de Devastation acontecem na “cidade”. Ele sempre mostra no mapa para que ponto da cidade você deve ir, mas você pode mandar o GPS ouvir pagode e explorar outros caminhos. Além disso, você passa novamente pelos mesmos pontos numerosas vezes, o que enche um pouco e deixa o jogo repetitivo.

Não é um mundo aberto tradicional, mas é algo que fica longe do que se espera de um jogo focado na ação, especialmente pelo backtracking necessário. E também rolam várias side-missions, que são desafios específicos a serem feitos em determinadas partes do mapa.

Tudo isso que eu falei até agora fez com que Transformers: Devastation fosse uma grande decepção. Mas isso não significa que ele não tenha coisas boas.

TRANSFORMERS LOVE

Se você é fã dos desenhos antigos dos robôs transformistas, o que temos aqui é um prato cheio. Quase todas as lutas são contra chefes, decepticons com nomes e personalidades, e apenas umas poucas são contra capangas genéricos. Ou seja, muitos dos vilões do desenho têm papel de destaque no jogo. E vários deles têm os mesmos dubladores da animação.

Particularmente, eu gostava dos brinquedos, mas nas minhas histórias eles sempre foram robôs construídos por seres humanos. Quando descobri que na mitologia da série eles eram alienígenas que por acaso se transformam em carros de luxo terrestres dos anos 80, foi algo realmente difícil de engolir.

Então eu não tenho uma relação especialmente afetiva com a mitologia da série, mas é palpável o carinho investido no jogo e em sua ambientação. Fico imaginando um jogo como esse de um desenho que eu realmente gostava, como Tartarugas Ninja, e provavelmente seria algo para Selo Delfiano Supremo. Então não tenho dúvidas nenhumas quanto a indicar Devastation para fãs dos personagens.

O visual, aliás, tem a maior cara de desenho. Embora os cenários não sejam tão trabalhados, os robôs são simplesmente perfeitos. A história também tem o maior clima de desenho dos anos 80 e assistir às cutscenes é sem tirar nem por a sensação de assistir a um episódio da série.

As animações são um aspecto que poderia ter sido melhor trabalhado, especialmente as transformações de carro para robô e vice-versa. Em Vanquish, por exemplo, a Platinum brincou bastante com transformações de armas e inimigos de forma que fazia sentido. Aqui simplesmente não dá para entender como determinado robô virou um veículo, pois a animação está mais para um morph do que para uma transformação propriamente dita.

PORRADA!

O sistema de combate lembra um pouco Bayonetta. Todos os inimigos quebram seus combos com facilidade, então é necessário bater um pouco e desviar. Se você acertar o timing, ativa o modo focus, uma espécie de câmera lenta.

Esta é a rotina do combate. Bate, desvia, bate mais um pouco. Não é tão empolgante quanto Bayonetta. A sensação de jogar me lembrou um outro jogo da Platinum, Metal Gear Rising, com a diferença de que aqui quase todos os combates são contra chefes.

Por mais que eu goste de ação descerebrada, devo admitir que o jogo não me empolgou em nenhum momento. Chegou ao ponto de eu upar apenas o meu Optimus Prime e ficar torcendo para o jogo acabar logo, o que é algo digno de nota considerando que eu o terminei em duas tardes.

Talvez se você investir mais no seu lado RPG, acabe tirando mais tempo e mais diversão do jogo, mas ficar comparando estatísticas e raridade de armas é algo que eu definitivamente não esperava ter por aqui.

DEVASTAÇÃO

A Platinum Games começou a carreira com os dois pés na porta, lançando jogos muito legais. Porém, conforme o tempo foi passando, ela acabou se especializando em fazer títulos baseado em mundos de outras empresas (vide Metal Gear Rising, The Legend of Korra e este Transformers: Devastation).

Como eu gostei muito dos jogos originais que ela lançou e bem menos destes licenciados, começo a pensar que a Platinum é uma empresa que se dá melhor criando seus próprios mundos. Pena que eles têm investido tão pouco nisso.

Vamos ver como eles se saem com Scalebound, próximo grande lançamento original da companhia. Só que este se trata de MAIS UM RPG, então acredito que minha sede por algo simples e divertido na linha do Vanquish vai ter que ser saciada por outra desenvolvedora.

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