Ponte dos Espiões

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Antes de mais nada, é preciso dizer: Ponte dos Espiões não é uma ponte onde os espiões se reúnem para confraternizar e espionar, tipo aquele lugar afastado e escurinho onde os casais sempre vão para dar uns amassos. Mas fica a dica para algum roteirista disposto a desenvolver esta ideia, pois eu diria que ela tem potencial. Ou vai falar que você não veria um filme sobre uma ponte coalhada de espiões?

Ao invés disso, temos mais uma película do Steven Spielberg, e não o Spielberg moleque e divertidão dos grandes blockbusters, mas sim o Estevão Spielbergo mais sério, na linha “mamãe, eu quero um Oscar”. Contudo, comparado a coisas mais recentes que ele fez neste departamento, tipo Cavalo de Guerra e Lincoln, este já é um avanço considerável, ainda que nem chegue aos pés dos melhores momentos do diretor.

Tom Hanks, em sua quarta colaboração com o cara, é o advogado James Donovan. Primeiro ele é incumbido de defender um suposto espião soviético (e sério candidato a sujeito mais cuca-fresca do mundo) capturado em solo estadunidense, para mostrar aos comunas comedores de criancinhas que na América (aquela que fica entre o Canadá e o México) todo mundo recebe os mesmos direitos e tratamento adequado (neste momento, uma águia careca verteu lágrimas).

Posteriormente ele terá de ir até Berlim Oriental para negociar a troca deste mesmo carinha por um espião estadunidense capturado por lá. Tudo debaixo dos panos, tudo extraoficial e tudo bastante complicado. E piora ainda mais quando um estudante estadunidense também é preso atrás da cortina de ferro, entrando de gaiato nessa negociata toda.

Pode parecer um thriller emocionante, cheio de tensão e James Bonds da vida real, mas está mais para um drama e, o mais importante, praticamente não há qualquer tipo de ação física nele. Toda sua condução é levada na lábia do advogado de Tom Hanks, que precisa se virar e conseguir o acordo entre as nações inimigas dependendo única e exclusivamente de seus dons de oratória.

O andamento do filme é bom, ele é até mais leve e engraçado do que o tema e a sinopse possam sugerir e Tom Hanks faz mais um bom papel, deixando seu personagem bastante simpático. Contudo, embora sua duração não tenha me incomodado, também não são necessários 142 minutos para contar essa história e uma edição mais rígida deixaria a película mais redonda.

E claro, Spielberg às vezes exagera no pieguismo e na cafonice, especialmente mais para o final, deixando o negócio duro de engolir para quem não é estadunidense, embora este seja um problema comum a praticamente todos os longas que envolvem os EUA metendo seu gigantesco bico onde não devia. Se você não se incomoda com isso, sem problema, mas se sim, prepare-se para ficar contrariado.

Este não é exatamente o tipo de história ou mesmo de filme que eu gosto de ver no cinema. Isso, aliado ao fato de que Steven Spielberg está bem longe de seus melhores dias, me fizeram com que eu não esperasse absolutamente nada de Ponte de Espiões. Não tendo nenhuma expectativa, até que gostei razoavelmente do que assisti, ainda que não seja minha primeira opção para um programa na tela grande. Se você gosta dos filmes mais sérios e adultos do diretor, contudo, talvez valha a pena encarar uma sessão.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Está no DELFOS desde 2005.