Meu amigo, como eu tenho saudades da geração passada, quando jogos como Call of Duty: Modern Warfare eram o status quo. Naquela época tínhamos tantos jogos de ação altamente roteirizados que eu conseguia me dar ao luxo de literalmente pular alguns Call of Dutys. Hoje, se eu quero dar uns tirinhos em campanhas cheias de adrenalina, eu simplesmente não tenho opção. É COD ou nada! Caramba, tem ano que até o próprio Call of Duty abre mão disso.

Felizmente, Call of Duty: Modern Warfare traz de volta o que eu gosto na série. Sim, temos multiplayer e tal, mas o foco deste texto é em algo que, em 2019, absolutamente ninguém mais faz tão bem: campanhas de ação.

ANÁLISE CALL OF DUTY MODERN WARFARE 2019

Dado o fato de que este jogo divide o nome com o clássico de 2007, eu não sabia muito o que esperar. Eu sinceramente achava que seria um remake, basicamente uma recriação das mesmas fases. Não é o caso. Call of Duty Modern Warfare 2019 conta uma história totalmente nova, que se encaixa perfeitamente na cronologia dos três Modern Warfares lançados entre 2007 e 2011. Como – e onde – ela se encaixa provavelmente pode ser considerado spoiler, então não é algo que vou elaborar aqui. Porém, eles aproveitaram este soft reboot para mudar algumas coisas, como a raça e a aparência de alguns personagens clássicos.

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A campanha foca num time de quatro soldados. O famoso Capitão Price está de volta, mas você não joga com ele. Os controláveis são, na maior parte do tempo, Kyle e Alex. Em dois curtos flashbacks, você pode jogar com Farah, e esta, meu amigo, é a melhor personagem que já habitou uma campanha de Call of Duty.

Farah lidera a resistência de Urzikstan, país fictício, porém claramente árabe, onde acontece a maior parte da história. Ela protege seu povo dos terroristas que popam em toda esquina e dos invasores russos, ao mesmo tempo que ajuda os soldados aliados britânicos e estadunidenses que sempre protagonizam a série.

BANGUE-BANGUE MODERNO

Eu costumo dizer que Destiny tem o melhor gameplay da categoria. E mantenho esta opinião. Nenhum outro FPS é tão gostoso de jogar. Mas convenhamos que Call of Duty também é uma delicinha. E como aqui você não precisa perder tempo comparando estatísticas de roupas e equipamentos, a coisa rola de forma bem mais dinâmica e cheia de adrenalina.

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Os heróis de Call of Duty: Modern Warfare de 2019.

Esta é justamente a melhor forma de definir a campanha de Call of Duty: Modern Warfare. Adrenalina. Poucos jogos são tão rápidos e demonstram tamanho respeito pelo seu tempo quanto as campanhas de Call of Duty. Cada segundo do modo história é meticulosamente planejado.

Até trechos em que você simplesmente anda do ponto A ao ponto B têm coisas acontecendo, que vão de algo simples como um diálogo entre os personagens até helicópteros explodindo. Em uma fase que acontece em Londres, eu tinha um objetivo claro, mas decidi sair para explorar. Fui recompensado com um tremendo e elaborado acidente de carros, algo que deve ter custado alguns milhares de dólares para ser feito, e que acredito que a maioria dos jogadores vai perder. Penso quantas outras coisas como esta eu mesmo posso ter perdido quando ia direto ao objetivo.

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Na mesma toada, não há absolutamente nada que tire o foco do que o jogo traz de bom. Não temos nem mesmo colecionáveis. Call of Duty: Modern Warfare segue um caminho que, baseado no final da geração passada, eu acreditava ser o futuro dos games. Jogos intensos e sem perda de tempo. Nada de ficar coletando peninhas ou outras distrações do tipo. Eu sei, esta foi a geração das microtransações e dos RPGs de mundo aberto, ou seja, exatamente o oposto do que eu acreditava que seria. Mas é bom ver que ainda é possível jogar videogame sem sentir que estou jogando meu escasso tempo livre fora, ainda que isso só seja possível uma vez por ano (ou, neste caso, após um intervalo de dois anos).

Além disso, a campanha tem uma variação absurda. Tem trechos de tiroteio aberto, cheios de explosões, stealth e até coisas bem mais criativas e únicas. Por exemplo, há uma fase em que você assume um papel semelhante ao do Morpheus no primeiro Matrix, e deve guiar uma moça através de várias salas patrulhadas pelos vilões. É muito legal!

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Provavelmente um dos trechos mais marcantes da campanha.

VAMOS FALAR DE POLÍTICA ENTÃO?

Call of Duty: Modern Warfare se orgulha de ser um jogo que mostra a realidade sem concessões. Inclusive, sempre que você escolhe a campanha no menu principal, é obrigado a clicar que “entendo que a campanha tem cenas maduras” (o que, convenhamos, é bem chato).

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Você precisa clicar nisso toda vez que for rodar o jogo.

Curiosamente, ele tenta evitar a polêmica de vilanizar os árabes inventando uma nação fictícia, mas ainda tem um grande vilão russo e heróis estadunidenses e britânicos. E a coisa é bem unilateral, como o esperado.

Por exemplo, há uma fase em que você invade uma residência onde acredita ter terroristas.  Alguns quartos têm pessoas que imediatamente atiram em você. Ou seja, inimigos padrão de videogames. Mas outras trazem famílias. Mulheres que imploram para você não matar seus filhos. Algumas param por aí. Outras, após implorar, pegam armas e atiram no jogador, obrigando você a atirar de volta.

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Talvez a galera da Infinity Ward tenha tido a intenção de dizer algo como “se ela tinha uma arma e atirou no soldado, era terrorista”. Minha interpretação, no entanto, é que estas famílias estavam dormindo, quando tiveram sua casa invadida por soldados estrangeiros. Ora, pela própria lógica estadunidense – e do nosso atual presidente – se alguém invade a sua casa, você tem direito de se defender com armas de fogo.

Em outra cena, os “heróis” gringos capturam um terrorista e sua família, e ameaçam matar a esposa e filho inocentes do cara para conseguir informação. Ainda em outro momento, uma fase inteira acontece na chamada Highway of Death, que o jogo apresenta como resultado de um crime de guerra russo. Highway of Death existe na vida real e sua origem remete a um crime de guerra perpetrado pelos EUA e pelos seus aliados. Tudo bem usar um fato como inspiração, mas eles nem mudaram o nome, na clara tentativa de fazer um revisionismo histórico.

Há um vácuo moral muito grande em uma nação que consegue justificar cenas como estas como “necessárias em nome do bem maior” e ao mesmo tempo chamar – como eles fazem constantemente em Modern Warfare – os árabes e russos de “bad guys”. E é por aí que para a profundidade da história. Sim, o jogo mostra os “heróis” fazendo coisas altamente questionáveis, mas são apresentadas como necessidades da guerra, pelo bem da humanidade. Enquanto isso, os vilões fazem o que fazem apenas por poder e dinheiro. E isso é o que diferencia os heróis dos vilões. Afinal, se tem algo com o qual grandes editoras de games não se importam é com poder e dinheiro.

EU DEFENDO O MEU POVO NO MEU PAÍS

Este é um dos motivos que me fez gostar tanto de Farah. De todos os protagonistas deste jogo, ela é a única que minha mente anti-imperialista consegue classificar como heroína. Em determinado momento, ela fala para um dos soldados estadunidenses que não invade outros países, ela protege o seu povo no seu próprio país.

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É um sentimento com o qual concordo e que coloca os EUA como os vilões em vários conflitos modernos para mim. Na desculpa de levar a democracia, eles invadem outros países e querem impôr seu modo de vida a eles. Ora, a gente pode discordar, por exemplo, do tratamento que os árabes dão às mulheres, mas não cabe a nós invadir outro país e mudar isso à força. Especialmente porque elas mesmas podem não desejar isso. Povos diferentes têm culturas diferentes, e estas diferenças devem ser respeitadas, não combatidas.

COOP

Além da campanha e do multiplayer competitivo, há também uma pequena campanha cooperativa, cuja história acontece imediatamente depois da campanha. Eu cheguei a experimentá-la, mas esta eu achei o completo oposto da campanha: a mais pura perda de tempo.

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Funciona assim: você pula de paraquedas num mapa bem aberto, e segue objetivos como destruir algo aqui ou hackear outra coisa acolá. A questão é que, apesar de ser, teoricamente, um modo cooperativo, os jogadores com quem joguei saem apostando corrida para ver quem consegue cumprir os objetivos primeiro. Assim, ninguém se ajuda.

Inclusive, quando você morre, é muito raro seus colegas te salvarem. Na prática, você joga por 30 segundos, é derrotado (a dificuldade aqui é bem mais alta que a da campanha, e não é customizável), e fica olhando para um timer de 30 segundos esperando ser revivido. Quando este timer acaba, você morre propriamente, e daí precisa esperar outro timer de 60 segundos para poder voltar ao jogo. Ou seja, é necessário ficar sem fazer nada por 90 segundos cada vez que você morre.

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E caso todos morram ao mesmo tempo – o que é batata, já que ninguém se ajuda – seu time sai da fase e entra em um outro timer de 60 segundos até que finalmente a fase comece a ser carregada de novo – o que também leva um bom tempo. Eu não sei você, mas eu não jogo videogame para ficar esperando reloginhos chegarem a zero, então abandonei o cooperativo depois de algumas tentativas.

CAMPANHA

O meu foco nesta resenha, no entanto, é na campanha, que é o que realmente me faria comprar um Call of Duty. E ela é tão boa quanto os melhores episódios da série, talvez até melhor. Sim, há opiniões políticas um tanto nojentas nela, mas isso é inevitável vindo de uma história de guerra contada pelas potências dominantes.

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Particularmente, eu adoraria ver um Call of Duty contado totalmente do ponto de vista dos que normalmente são chamados de terroristas. Todo conflito tem dois lados, afinal de contas, e por mais que eu não concorde também com os métodos e ações destes grupos, consigo simpatizar com sua luta contra um exército invasor que visa mudar sua cultura à força e em nome do petróleo. Claro, o mundo não estaria pronto para um Call of Duty como este, mas seria lindo. Enquanto isso, temos o Modern Warfare de 2019, que traz uma boa campanha, excelentes cenas de ação e um gameplay delicioso.

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