Call of Duty: Infinite Warfare

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Houve uma época em que Call of Duty primava pelo realismo. A série começou reproduzindo batalhas da segunda guerra mundial, passou para batalhas modernas, quando chegou ao ápice de sua seriedade e – muitos diriam – da sua qualidade, e depois passou a representar uma guerra futurista, mas num futuro próximo.

Em todas suas iterações, Call of Duty sempre se levou muito a sério. Infinite Warfare quebra essa tradição. Aqui temos um shooter sci-fi, com batalhas de naves no espaço, fases em gravidade zero e armas que não trazem nenhum paralelo com a realidade. Você não estaria errado se, ao jogar Infinite Warfare, lembrasse do climão de um Halo.

Isso pode fazer alguns fãs torcerem o nariz, mas vou dizer, eu achei ótimo. Pela primeira vez, talvez em toda a série, Call of Duty: Infinite Warfare traz uma diversão descompromissada, sem se levar a sério ou sem querer chocar. De fato, a época de No Russian ficou no passado. Mas não diria que isso faz falta.

JON SNOW DO FUTURO

De fato, se Call of Duty sempre tentou ser um tanto chocante na sua história, aqui ela é uma bobagem. Você faz parte de um grupo de soldados da Terra, enquanto tem uma galerinha de Marte que é malvada. Eles são liderados pelo ator Kit Harrington, de Game of Thrones, agora mostrado em sua versão futurista. Ah, e ele tem uma cicatriz no olho, porque aparentemente isso é o que as meninas que jogam videogame acham sexy hoje em dia. Aliás, está cada vez mais difícil achar um personagem de videogame que não tenha uma. Geralt of Rivia e Kratos que o digam.

Apesar de a história ser totalmente esquecível, os personagens são muito legais. A batalha que eles se envolvem é bobinha, mas a relação entre eles é bacana. Gostei especialmente do robô Ethan, que protagoniza os melhores e mais marcantes momentos da história.

Claro, há algumas falhas de roteiro bem feias. Por exemplo, tem um personagem que se indispõe com Ethan desde o início do jogo. De uma fase para a outra, no entanto, ele vira um grande amigo do robô e começa a dar o maior apoio. Este é o Chewbacca e isso não faz sentido, mas tudo bem. O que importa, o gameplay, é uma delícia. E é bem variado.

Recentemente, eu peguei o Battlefield 1 porque estava a fim de um shooter cinematográfico. No entanto, fiquei bem decepcionado com o fato de que, embora as armas sejam realistas e super legais, eu nunca tinha a chance de usá-las, pois 70% da campanha é stealth e os outros 30% colocam você em um tanque ou em um avião.

AÇÃO

Call of Duty: Infinite Warfare tem um visual bastante inferior ao seu concorrente fotorrealista, mas o gameplay dele desceu bem redondo, coçando de forma bem satisfatória a minha coceira que procurava por um bom shooter cinematográfico.

Há momentos de stealth também, mas eles são muito bem intercalados por missões focadas no tiroteio. E tem também fases únicas que envolvem tiroteio em gravidade zero, nos quais seu personagem ganha um gancho na tradição do Scorpion, que puxa os desafetos e completa com algum movimento fatal, tipo enfiar uma faca no pescoço ou grudar uma granada no desgraçado.

Para completar a ação, há as batalhas de naves, que talvez sejam a melhor novidade. Elas são bem agradáveis e divertidas, sem falar que rolam algumas explosões enormes que são deveras hell, yeah. O que as tornam tão legais é que você pode travar sua mira na nave que deseja destruir, o que deixa o movimento quase automático, permitindo que você possa apenas mirar e atirar.

Menos divertido são os destroyers, naves grandes bem semelhantes aos Star Destroyers de Star Wars, que exigem que você destrua alguns pedaços diferentes dela até finalmente rolar um cabum atômico. O problema é que isso demora muito, o que tira um pouco da empolgação rápida das batalhas.

Se você é um early adopter do Playstation VR, tem também um joguinho gratuito chamado Jackal Assault (ele não precisa de Infinite Warfare para rodar) que é basicamente uma versão dessas batalhas espaciais em VR. Não tem muita sustância, mas é bacana. Acaba servindo como um demo aprimorado do jogo principal.

SIDEMISSIONS

Eu fiquei com a mosca atrás da orelha quando fiquei sabendo que havia sidemissions. Já imaginei que seriam a parte chata do jogo, mas acabou que até que são bem implementadas. As sidemissions são basicamente fases opcionais que dão upgrades quase imperceptíveis. O legal é que elas são fases de verdade, com diálogos únicos e suas próprias histórias e objetivos.

Os cenários não são tão variados, sendo basicamente no espaço ou dentro de naves bem parecidas entre si. Assim, as primeiras que eu fiz foram bem divertidas, mas quando estava fazendo a quarta ou a quinta, a mesmice bateu, e eu comecei a achar que o jogo em si era muito repetitivo. Rola até uma lá pelo final com um maldito limite de tempo, coisa que deveria ter sido abolida quando a Nintendo lançou o primeiro Super Mario.

Felizmente, essa impressão de mesmice sumiu quando voltei a jogar as missões principais e me lembrei quão legal era o jogo. Poderia haver menos sidemissions considerando que elas são bem parecidas, mas não chegaram a afetar consideravelmente minha diversão, dando aquela sensação comum de mundo aberto de “deixa eu terminar logo estas sidemissions para poder fazer a história e me divertir de verdade”.

ZUMBIS

Infinite Warfare traz três jogos (se pá até quatro, continue lendo para saber o motivo). O segundo deles é um survival cooperativo contra zumbis e tematizado nos anos 80.

Se a campanha em si já é menos séria e sisuda do que os jogos anteriores, este modo lança mão da comédia abertamente, e até o cenário fica mais colorido e os gráficos mais cartunescos.

Eu até arranjei parceiros para experimentar o modo rapidamente, mas o jogo começa de forma muito lenta. Os poucos zumbis que apareciam eram imediatamente exterminados pelo meu time, o que fez com que eu passasse os primeiros cinco minutos simplesmente andando pelo cenário sem ver inimigo nenhum.

Quando a ação começa, a coisa melhora um pouco. Aos poucos você vai abrindo caminhos no cenário e podendo pegar novas armas e itens. Quando você morre, se ninguém te salvar, você é transportado para um arcade com vários jogos antigos da Activision, como Pitfall 2. Jogue o suficiente e você pode reviver. É só torcer para seus colegas não morrerem enquanto você está ali. Basicamente, o objetivo é sobreviver pelo maior tempo possível.

Eu diria que parece outro jogo por causa do visual e da pegada mais humorística, mas na real, o modo zumbis é basicamente o modo horda de Gears of War. Sei que tem muita gente que gosta do gênero, então é legal que ele tenha sido incluído.

MULTIPLAYER

Talvez este seja o modo principal para um Call of Duty e ele é bastante completo. Tem mais de uma dúzia de modalidades de jogos diferentes, a maioria delas já conhecida. Talvez a mais diferente seja uma em que você deve conseguir uma kill com dez armas diferentes. O primeiro a matar dez guris ganha.

Há classes, cada uma com um super específico que se enche ao longo das partidas naquele jeitão Destiny. Além disso, as batalhas são bem rápidas e ágeis, graças às habilidades dos personagens de usar um jetpack no meio do pulo e fazer wallruns.

O multiplayer exige que você faça bom uso da movimentação. Pare por um segundo para tentar mirar um headshot e provavelmente quem vai levar um tiro na cabeça é você. Me pareceu bacana para quem consegue jogar, o que não é o meu caso, uma vez que eu apanho miseravelmente em multiplayers competitivos.

MODERN WARFARE

Dependendo da versão de Infinite Warfare que você comprar, ele virá também com um remaster de Modern Warfare, talvez o mais clássico jogo da série. Modern Warfare continua tão bom quanto sempre foi, e é incluído aqui em sua totalidade, permitindo que aqueles que não o jogaram na geração passada possam ver o lado mais sério e realista de Call of Duty.

CONTRACULTURA

Na geração passada, Call of Duty era o típico videogame mainstream. Era aquela série que você podia pegar uma screenshot e colocar ao lado de vários outros jogos sem conseguir distinguir entre eles.

Atualmente, Call of Duty parece uma relíquia do passado. Um jogo que lembra como eram legais as experiências cinematográficas cuidadosamente roteirizadas da geração passada. Temos aqui uma campanha como simplesmente não se faz mais. Um jogo linear e com mecânicas aprimoradas. Minha experiência com Infinite Warfare vai ser bem parecida com a sua, mas talvez justamente por isso, ambas serão intensas e inesquecíveis.

Eu parei de acompanhar os lançamentos anuais da série quando eles começaram a focar no multiplayer. Eu ainda gostava das campanhas, que sempre foram boas, mas tinha muitos outros jogos semelhantes que focavam nas campanhas e que valiam mais a pena. Não é o caso hoje em dia, quando o mainstream são os RPGs de mundo aberto. Hoje, quem diria, Call of Duty é a contracultura. E Infinite Warfare, ao se desprender do realismo que a tornava semelhante ao rival Battlefield acaba se destacando como um jogo simplesmente divertido, como todos deveriam ser.

Em alguns anos, eu diria que não valia a pena comprar um COD apenas pela campanha. Em Infinite Warfare eu mudo o discurso. A campanha é legal o suficiente para justificar a compra, mesmo que você seja, como eu, um jogador com foco no PVE. E se você gosta tanto do PVE quanto do PVP, ainda tem um modo multiplayer bem completo por aqui, que pode render muito mais horas de diversão.

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).