Em 2003 o mundo presenciou o nascimento de The Room, um filme independente escrito, dirigido, produzido e estrelado por uma figura, digamos, peculiar, chamada Tommy Wiseau. Era para ser um drama sério, mas a película era tão ruim que acabou virando cult devido à sua má qualidade e humor não intencional. Até hoje faz sucesso lotando sessões da meia-noite em cinemas mundo afora e é figurinha fácil em listas de “filmes tão ruins que são bons”.

Serei sincero: eu evitei ao máximo assisti-lo, pois estou numa fase da vida onde prefiro não usar meu tempo livre para ver um filme que eu já sei de antemão que vai ser porcaria. Contudo, para poder melhor escrever sobre o tema da resenha de hoje, fiz a lição de casa e assisti ao dito cujo.

E vou te contar, já vi desastres de trens mais agradáveis. Até entendo o fascínio podreira que ele causa, mas apenas o achei um longa ruim, muito ruim, quase um exemplo perfeito de tudo que não se deve fazer narrativa ou tecnicamente em cinema. E não, para mim não foi do caso “tão ruim que me diverti”, apenas fiquei entediado e constrangido a maior parte do tempo. Mas enfim…

Delfos, Artista do Desastre, CartazArtista do Desastre conta a história de como The Room foi produzido, além da amizade entre Tommy Wiseau e Greg Sestero, um jovem ator que interpreta Mark, o melhor amigo do protagonista em The Room.

Obviamente, para melhor apreciar o longa comandado e estrelado por James Franco, é imprescindível assistir antes à produção de 2003. Não deixa de ser paradoxal que você precise assistir um filme ruim para poder ver depois um ótimo. Mas às vezes a vida é tão estranha quanto a figura de Tommy Wiseau.

E já que falei dele, grande parte do filme é centrado em sua já mencionada figura. Ele é o que se pode chamar de um cara estranho, para dizer o mínimo. Não revela sua idade, é rico, mas ninguém sabe exatamente o que fazia para ganhar dinheiro antes de entrar para o mundo do cinema, e dono de um sotaque tétrico (ele também não revela de onde veio).

Tudo isso combinado com a forma de se vestir de um vampiro saído de um romance de Anne Rice, aliado a trejeitos durões. E sua atuação é um espetáculo a parte. James Franco recria o visual, o sotaque e os trejeitos de Wiseau à perfeição. Dá para ver que ele está se divertindo horrores com um personagem tão extravagante.

YOU’RE TEARING ME APART, LISA!

Este é daqueles filmes que homenageiam a arte de se fazer cinema, ainda que os envolvidos não sejam exatamente o que se possa chamar de talentosos. Nesse sentido, ele tem uma pegada de Ed Wood, de ir contra tudo e todos para realizar uma visão em celuloide.

Só que o filme de Tim Burton explorava a paixão verdadeira daquele que é considerado o pior diretor de todos os tempos pela sétima arte. Artista do Desastre passa mais a impressão de que Tommy e Greg estão fazendo seu filme menos pela paixão pelo cinema, e mais para massagear os próprios egos, o que rapidamente sai pela janela logo que todos os envolvidos, menos Tommy, começam a perceber que dali não vai sair coisa boa.

Delfos, Artista do Desastre
Greg e Tommy fazem juras de cometer uma atrocidade cinematográfica.

O longa funciona muito bem tanto como a história da estranha amizade entre Greg e Tommy quanto como os bastidores da criação de um desastre cinematográfico. Claro, por conta disso, os melhores e mais engraçados momentos são justamente os da produção de The Room, com os métodos pouco ortodoxos de direção de Wiseau e seu comportamento errático no set de filmagem.

E também as recriações praticamente idênticas das cenas mais “memoráveis” da “obra-prima” original, daí mais uma vez eu reforçar que é preciso assistir a The Room antes para melhor apreciar estes momentos.

Artista do Desastre é um ótimo filme, bastante divertido e respeitoso com seus biografados, mostrando que é possível ir atrás de seus sonhos e realizá-los. Eles podem até não acontecer do jeito que se espera, mas isso não necessariamente é ruim. Para todos que já viram The Room e apreciaram sua qualidade trash, e mesmo para quem não curtiu, este aqui é um excelente complemento.