O Destino de Júpiter

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O Destino de Júpiter é o novo longa dos irmãos Wachowski. Houve um tempo em que só essa frase era o bastante para criar frisson dentre a comunidade nerd. Só que, ao menos na minha opinião, esse tempo já ficou há muito para trás e hoje cada novo filme da dupla é uma tristeza de dar dó.

Após duas desnecessárias continuações de Matrix, o festival epilético chamado Speed Racer e o pretensioso festival de bobagens que foi A Viagem, eles fazem uma nova tentativa numa seara que lhes é tão cara: a mistura de ação com ficção científica, numa tentativa clara de voltar aos tempos de glória onde Keanu Reeves chutava bundas com golpes de kung fu.

Resumindo bem o enredo sem pé nem cabeça, Mila Kunis é uma faxineira (e isso é tão crível quanto o Tom Cruise operário de Guerra dos Mundos) que descobre ser a escolhida. Uns alienígenas tentam matá-la, mas ela é defendida pelo ator favorito do Corrales, Channing Tatum, de orelhas pontudas e cabelo descolorido, que vai levá-la numa incrível jornada, onde ela descobrirá suas verdadeiras origens.

O estilo da história e a estética geral do longa aparentam beber bastante de mangás e animês, mas parece ser tudo uma grande colcha de retalhos, com a dupla costurando os elementos que eles acham mais legais de diversas fontes diferentes e tentando dar algum sentido para a bagunça. Não conseguem e a coisa toda fica bastante ridícula ao se levar a sério durante grande parte do tempo, embora haja também diversas passagens onde o humor é de fato intencional.

Sendo bem direto, essa película toda me lembrou duas coisas. A primeira é uma grande cutscene de videogame genérico sem a diversão das partes jogáveis. A segunda comparação que me veio à mente durante a sessão foi que ele é uma versão anabolizada, estilo blockbuster, do bem mais modesto e igualmente ruim Ultravioleta. O mesmo estilão, o mesmo resultado desastroso.

Outro ponto bem baixo é o visual do filme. Novamente parecem ter contado com um orçamento gordo, os efeitos especiais são de ponta e a película é bastante colorida, mas o design geral é completamente ridículo, especialmente as maquiagens alienígenas, totalmente risíveis, que me lembraram muito criaturas saídas da série original de Jornada nas Estrelas, que até para a época já não era exatamente algo caprichado. Bizarro que tenham torrado tanta grana em CGI quando podiam usar um pouco para pagar um designer de criaturas e um maquiador de efeitos especiais mais competentes.

As cenas de ação também não são nada de mais e a maioria é daquelas onde nem dá para entender direito o que está acontecendo. Não há nem sombra dos Wachowski que orquestraram algumas das sequências de pancadaria e tiroteios mais inesquecíveis da sétima arte.

O CHANNING TATUM É UMA LU PATINADORA ESPACIAL

O longa também é alardeado como a primeira incursão em 3D dos diretores, e, sinceramente, também não vi nada de mais nesse quesito, parecendo com o 3D típico da maioria dos filmes que chegam aos cinemas. Confere uma certa profundidade aqui e ali, mas no fim das contas é completamente desnecessário.

E para completar minha longa lista de reclamações, passemos às atuações. Alguns, como os protagonistas Mila Kunis e Channing Tatum (apesar de seu visual ridículo, superado apenas por seus patins antigravitacionais!) se salvam entregando performances corriqueiras de filmes de ação, mas a maioria dos coadjuvantes, especialmente os três membros da família alienígena, estão mal demais, completamente canastrões e caricatos ao extremo.

Menção especial para Eddie Redmayne como o principal vilão do filme. Nem dá para acreditar que esse é o mesmo cara que foi indicado a um Oscar de melhor ator por A Teoria de Tudo (onde ele está realmente excelente como o físico Stephen Hawking). Aqui ele está no outro extremo do espectro da atuação. E ele é, sozinho, um dos grandes responsáveis por arrastar a qualidade desse longa para baixo. Ele está tão exagerado que em vários momentos fiquei esperando ele esfregar uma mão na outra, torcer a ponta do bigode que ele não tem e soltar um sonoro Bwa-ha-ha!

Enquanto assistia a este filme me dei conta de que a carreira dos Wachowski, a meu ver, está muito parecida com a de M. Night Shyamalan. Eles tiveram um grande sucesso logo no início de suas carreiras, depois a qualidade geral de seus filmes foi caindo a cada novo trabalho e hoje tentam recuperar as glórias passadas, tentando reciclar as mesmas fórmulas que outrora os colocaram no topo do mundo.

A diferença é que os Wachowski parecem ainda ser capazes de conseguir muito mais orçamento para seus projetos, e se escoram muito mais em efeitos visuais. Ainda parecem ter alguma credibilidade em Hollywood. Na verdade, parece ser um caso de “ame ou odeie”, sem meio termo. Sei que tem muita gente que ainda curte bastante seus filmes, da mesma forma como eles não me descem, mas não me parece haver um público moderado para eles. Mas isso é apenas uma impressão minha.

Seja como for, não será O Destino de Júpiter que mudará sua situação. Quem não gosta deles só terá mais munição para suas críticas, mas pode ser que agrade a seus fãs mais dedicados. Sinceramente, como já deixei bem claro que não me encaixo nessa categoria, não sei dizer. Mas eu é que não me arriscaria. Melhor rever o primeiro Matrix ou o filme das lésbicas com catupiry (Ligadas Pelo Desejo), esses sim frutos de uma época positiva que parece cada vez mais distante.