O Lar das Crianças Peculiares

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É inegável que nos últimos anos os filmes do Tim Burton já não tinham a mesma criatividade e o mesmo impacto que suas obras dos anos 1990 e início dos 2000. O diretor parecia estar apenas repetindo suas velhas fórmulas, sem muita empolgação. Em seu longa anterior, Grandes Olhos (2014), ele até saiu de sua zona de conforto, fazendo seu trabalho mais diferente em anos.

No entanto, o que parecia ser o início de uma diversificada em seu estilo e também de gênero, rapidamente se revelou apenas um ponto fora da curva. Com seu novo trabalho, O Lar das Crianças Peculiares, Burton mais uma vez retorna à sua zona de conforto visual e temática.

Temos a história do jovem Jake (Asa Butterfield). Após a morte de seu avô em circunstâncias misteriosas, ele parte para a ilha na qual se localiza o orfanato onde o velho cresceu e do qual ele vivia contando histórias mirabolantes para o netinho.

E não é que ele se surpreende ao constatar que todas as crianças das histórias do vovô não só ainda estão vivas e não envelheceram nada, como ainda estão sob os cuidados da mesma Srta. Peregrine (Eva Green) dos causos? E que todos eles realmente possuem mesmo habilidades especiais?

Ao mesmo tempo em que ambientação, direção de arte e fotografia são tipicamente burtonianos, a trama em si parece muito uma versão mais infantil dos X-Men. Menos super-heróica e mais fantasiosa. Mas ainda assim, bem que o Lar para Crianças Peculiares da Srta. Peregrine poderia se chamar Escola Xavier para Jovens Superdotados e não faria grande diferença.

Portanto, se você sempre imaginou como seria um filme dos X-Men dirigido pelo Tim Burton, este talvez seja o mais próximo que você chegará da resposta. Claro, ele não é só isso, pois além das crianças peculiares (e não mutantes), o filme também lida com viagens no tempo e um grande perigo que circunda o orfanato, garantindo a parte aventuresca da película.

A história é bonitinha, as habilidades das crianças são bacanas e casam bem com o gosto do diretor pelo estranho e há até algumas partes um pouco mais assustadoras, considerando que o público-alvo deste filme é prioritariamente infantil. O que também condiz com as predileções de Tim Burton.

Contudo, ele volta a passar aquela velha sensação de mais do mesmo. De que você já viu isso antes. Tudo bem, não temos aqui o Johnny Depp, a Helena Bonham Carter e a trilha sonora não é do Danny Elfman, mas todo o resto lembra muito os filmes mais recentes dele, sendo que nenhum deles é memorável.

E, por falar em trilha sonora, que diabos é aquela trilha eletrônica que toca na cena do parque de diversões? Não só não combina em absolutamente nada com a cena em questão como ainda parece que simplesmente colocaram a música errada, ficou horroroso.

O Lar das Crianças Peculiares talvez seja um de seus melhores filmes dos últimos anos, mas não acho que vá figurar em futuras listas de seus melhores trabalhos. É divertido, entretém, tem um bom feeling de Sessão da Tarde e pode sim agradar a garotada. Mas ainda está longe de ser o Tim Burton dos bons e velhos tempos. Sabendo disso e baixando suas expectativas, você certamente vai se divertir. Mas ainda não foi dessa vez que o diretor deu a necessária guinada em sua carreira.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Está no DELFOS desde 2005.