Este review de Saros é uma historinha. E esta historinha começa com Returnal. Depois de muitos anos sendo fã da Housemarque, eles resolveram lançar um jogo que mostrava suas verdadeiras cores. E estas cores eram elitistas e excludentes. Returnal era um jogo com o coração no lugar errado, que se tornava mais fácil quanto melhor você jogava. E quem realmente precisava de ajuda não tinha o que fazer. Era simplesmente excluído, mesmo que gostasse muito da desenvolvedora e do próprio investimento criativo feito no jogo. Daí surgiu a metáfora do Chef José Marques, um cozinheiro super bom, que fazia pratos belos e deliciosos, mas antes de servir, exigia fazer pipi no prato. Este era Returnal, um jogo fantástico, mas por causa do pipi que insistiram em colocar, simplesmente não queria ser jogado.
Returnal queimou tanto o filme da Housemarque comigo que, pela primeira vez desde que os acompanho, eu não estava nem um pouco a fim de jogar seu novo lançamento, Saros. Porém, antes de eu ter acesso ao meu código de review, cheguei a ler alguns reviews e matérias sobre o jogo, que deixavam claro que era possível deixá-lo mais fácil do que o jogo anterior. A curiosidade voltou. Será que o Chef José Marques saiu da Housemarque nos layoffs recentes e agora teríamos um jogo sem pipi? A resposta é mais complicada do que pode parecer para quem lê os artigos dizendo que o jogo é simplesmente mais fácil.
REVIEW RETURNAL
Sim, é possível deixar Saros suficientemente fácil para você conseguir terminá-lo. Mas para fazer isso, você precisa pagar. Não com dinheiro (embora obviamente seja um jogo vendido), mas com seu tempo e sua paciência. E, principalmente, com sofrimento. Você precisa provar para a Housemarque que merece um jogo mais fácil, não pode simplesmente escolher a dificuldade num menu. E essa prova é trabalhosa e chata. Como uma criança que precisa comer a salada antes de poder usufruir da sobremesa, Saros é um trabalho antes de ser um prazer. Ou, para manter a metáfora do Chef José Marques, você precisa limpar o pipi nas bordas antes de chegar no recheio cremoso e gostoso.
Saros não mostra o pipi assim que você o roda. Pelo contrário, meu início com ele foi realmente empolgante. Eu morri algumas vezes na primeira fase, mas como a fase estava sempre diferente, sentia que estava simplesmente jogando uma fase enorme. Até que cheguei no primeiro chefe. Que me matou.
NÃO AGUENTO MAIS
Foi mais ou menos nesse momento que as salas da fase começaram a se repetir. Assim como Returnal, Saros foi projetado manualmente e o sistema procedural simplesmente embaralha a ordem do que você encontra. Assim, depois de algumas tentativas, o jogo passa a repetir as mesmas salas pelas quais você já passou. Depois que eu cheguei ao chefe, eu sempre chegava até ele. Porém, tive muita dificuldade na batalha. Pelo que li, você precisava passar do segundo bioma (e segundo chefe) para liberar o modo fácil. E eu não conseguia vencer nem o primeiro chefe.
Depois de apanhar muito, consegui acabar com a vida dele. Foi aí que percebi que ele teria não apenas uma segunda fase, mas também uma terceira. Se eu já sofri tanto para vencer a primeira, sem chance alguma de vencer três vezes. Eu estava realmente de saco cheio e pronto para parar de jogar. Quando morri a terceira vez para ele, finalmente algo aconteceu.
COMO DESTRAVAR O MODO FÁCIL SE VOCÊ FOR NÃO FOR BOM O SUFICIENTE EM SAROS?
Ao morrer para o chefe na terceira vez, já tinha toda minha skill tree comprada. E daí finalmente o jogo me deu uma colher de chá. Ele viu que eu era ruim o suficiente e nunca conseguiria vencer o segundo chefe na dificuldade “pipi” padrão. O modo fácil ativou. Este modo envolve uma pá de modificadores. Dá para você aumentar seu dano ou recuperar a vida antes do chefe. Cada colher de chá tem um “preço”, que deve ser compensado com um modificador que aumenta a dificuldade. Ou então, você pode desligar este equilíbrio nas opções e ativar apenas coisas que te ajudam. Apesar de o jogo reclamar, foi isso que eu fiz. E nunca mais olhei para trás.
Inicialmente, o modo fácil permitia apenas alguns modificadores específicos e conforme eu jogava mais, outros iam aparecendo. Sabia que os dois que mais ajudavam eram aumentar o dano e a defesa. A príncipio, eu só podia aumentar o dano, mas isso já me ajudou bastante. Eu estava tão cansado com o jogo, no entanto, que demorei para realmente relaxar e começar a curtir. Mas a verdade é que só depois disso que tudo começou a clicar. Finalmente os inimigos não eram mais esponjas de balas enquanto meu personagem era feito de vidro. O balanço simplesmente parece mais certo com a dificuldade ajustada. No modo fácil, Saros ainda é difícil, especialmente pela carência de checkpoints, mas passa a aceitar ser jogado.
COMO ASSIM SAROS AINDA É DIFÍCIL?
Em uma colher de chá aberta para todo mundo, Saros permite que você reinicie cada jogada do início do último mundo em que você chegou. Isso ajuda bastante, mas ainda é bem longe da acessibilidade básica de ter um checkpoint antes do chefe, como deveria ser. No primeiro mundo, o chefe fica no meio da fase, e sua porta se mantém aberta depois que você a abre da primeira vez. Em outra, no entanto, a porta do chefe fica logo no início, e você precisa fazer dois caminhos separados para abri-la. Mas esta não se mantém aberta depois que você os cumprir. Você precisa fazer a fase inteira sempre que quiser tentar de novo.
Eu odeio roguelikes e roguelites. Se você gosta, no entanto, Saros talvez seja algo realmente especial. Afinal, a maioria dos jogos do gênero é sidescroller. Este é um raro caso de um roguelite com jeitão de AAA. Outro é Returnal, é claro, mas Saros é muito mais amigável do que o mal encarado e pipizento jogo anterior. Mesmo no fácil, no entanto, não espere um jogo como Death Stranding, em que qualquer pessoa termina sem morrer. Teve chefes que me mataram ainda, e voltar para o jogo e fazer a fase inteira de novo era algo que me dava vontade de desistir. Fosse um jogo normal, com checkpoints justos, eu provavelmente não acharia Saros difícil. Porém, precisar jogar quarenta minutos para tentar de novo um chefe que te matou é um gasto de tempo que eu simplesmente não tenho. Então com esta estrutura, simplesmente não dá para morrer.
BULLET HELL
Este é o final da historinha, então vale falar um pouco de Saros como um todo. O visual é legal e trabalhado, mas me incomoda a falta de cores. Os cenários são bem-feitos e detalhados, mas especialmente quando você ativa o eclipse – o que é necessário em todas as fases, parecem ligar aquele filtro México de Breaking Bad e fica tudo extremamente laranja. Você sabe, aquele visual de “alguém fez pipi na câmera”. E, sabendo da participação do Chef José Marques no desenvolvimento, provavelmente isso é mais real do que pensamos. Mesmo antes do eclipse, no entanto, as fases já são bem parecidas entre si, e o jogo simplesmente não tem a variação visual de seu gameplay.
O gameplay, felizmente, é bem legal. O combate é gostoso e impactante, com várias armas que você pode escolher e uma mobilidade bem alta. Os mapas, mesmo montados aleatoriamente, são basicamente lineares, com uma bandeirinha azul mostrando o caminho principal. Quando aparece uma branca, é uma sala opcional com upgrades, que você vai querer visitar. A exceção é no último mundo, que exige que você faça algumas das opcionais para progredir.
O eclipse é um modificador de gameplay e você pode desligar as alterações causadas por ele. Ele faz com que os ataques inimigos diminuam o máximo da sua vida, o que é uma chatice. Outra chatice é que os upgrades sempre vêm com uma punição, e nem sempre valem a pena. Porém, da forma que eu joguei, desliguei essas coisas e a diferença entre o eclipse e o normal era apenas o filtro visual “pipi do José Marques”.
A SURRA DO SAROS
Ao se permitir ser jogado, Saros se tornou o jogo que a gente queria que Returnal fosse. Você deve se lembrar que só consegui de fato jogar Returnal quando ele saiu para PC e pude limpar o pipi do Chef José Marques com cheats. Saros não deve sair para PC, mas felizmente ele vem melhor tunado para você poder se divertir com ele, mesmo que não queira comer pipi. Bom, um pouco de pipi você vai comer, graças aos checkpoints limitados e à demora para destravar os modificadores, mas se você aguentar este início absurdamente hostil, Saros realmente é capaz de divertir.




































