Por que meus pais me deixaram ser criativo? Esta é uma pergunta que faço com alguma frequência, ao mesmo tempo que vejo minha filha seguindo pelo mesmo caminho. Criatividade é complicado. Ou você dá absurdamente certo, e todo mundo fica jogando dinheiro em você o tempo todo. Ou você dá totalmente errado e, se pá, não consegue nem sobreviver direito. Hit Para Dois mostra os dois lados.

CRÍTICA HIT PARA DOIS

Aqui conhecemos Rick Power (Paul Rudd). Depois de um início de carreira musical promissor, ele acabou constituindo família e hoje canta em uma bandinha de casamento tocando sucessos dos outros. Um dia, contratam ele para um casamento chiquetoso. Tão chiquetoso que o Nick Jonas vai lá, sob a algunha de Danny Wilson.

Danny, como o ator que lhe dá vida, fez sucesso no passado como membro de uma boy band, e agora tenta emplacar um hit em carreira solo. Ele conhece Power e os dois se dão muito bem, a ponto de passar a noite compondo, conversando e bebendo. Esta parte é realmente legal. Eu simplesmente adoro filmes sobre música e a camaradagem e o bromance que apenas colegas criativos podem dividir. Eles se separam no fim da noite, e tudo parece realmente bem.

Porém, Danny Wilson tem dificuldade em compor o hit que o colocaria de volta nos holofotes, e acaba resolvendo roubar uma música que Rick mostrou para ele. E sim, isso me parece um tiro no próprio pé. Roubar uma música que você não é capaz de compor pode até te dar algum dinheiro, mas não uma carreira. Teria sido muito mais justo e esperto ter chamado o Rick e pagado uma parte para ele, o que permitiria que a parceria continuasse muito além de uma música. Mas ele não faz isso.

MESES DEPOIS

Eventualmente, a música do Rick é lançada como sendo de autoria exclusiva do Danny. E, obviamente, ela faz sucesso. E o Rick a ouve, a reconhece, e então precisa lidar com o fato de algo que compôs com tanto sentimento ser roubado. Como ele não gravou nem publicou a música antes, simplesmente não pode provar o roubo, e fica a ver navios legais. E aqui entra uma historinha minha.

Eu trabalho com criatividade. Já fui roubado tanto em dinheiro quanto em propriedade intelectual. Os dois doeram. Mas devo dizer que ter sua criatividade roubada dói mais. Sim, existem caminhos legais para você conseguir restituição, mas também existem barreiras. Em especial, os advogados costumam viver numa economia diferente do resto do Brasil, muitas vezes cobrando 300 reais ou mais para uma conversa on-line de 15 minutos e muitos milhares de reais apenas para aceitar te ajudar. Sem falar uma erótica porcentagem dos ganhos, se de fato trabalharem no caso. E mesmo que você passe por tudo isso, qualquer processo no Brasil é extremamente caro, e nunca garante a vitória. Pelo menos não em casos de roubo de propriedade intelectual.

Contei isso porque eu estava ansioso para Um Hit Para Dois. É um tipo de filme, e de história, que me agrada muito. Mas sinceramente não esperava que fosse tão dolorido assistir a ele, e o quanto me veria pessoalmente envolvido com o drama de Rick. E todos já ouvimos muitas histórias parecidas no mundo criativo, que inclusive costumam sempre favorecer a parte mais rica. Os ricos sempre preferem dar um dinheirão para seus advogados do que para quem de fato roubaram. E a parte com menos dinheiro pode até estar com a moral e a potencial vitória, mas seguir em frente com a luta legal é caríssimo e demorado.

POWER BALLAD

Se você já trabalhou com criatividade, é bem provável que já tenha tido algo roubado também. Ou mesmo se não, é bem fácil se identificar com o sofrimento do Rick Power quando alguém em um casamento pede para ele tocar a música que compôs, sem ele poder reclamar a autoria. Um Hit Para Dois é uma comédia, mas uma que pega de jeito, e que pode acabar funcionando como um drama.

REVER GERAL
Nota:
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Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
critica-hit-para-dois-reviewTítulo original: Power Ballad<br> País: Irlanda, EUA<br> Ano: 2026<br> Distribuidora: Diamond Films<br> Duração: 1h38m<br> Direção: John Carney<br> Roteiro: John Carney, Peter McDonald<br> Elenco: Paul Rudd, Nick Jonas, Peter McDonald.