Normalmente eu não gosto quando o título de um filme é tão longo que eu não consigo dar meu próprio título para a resenha. Dito isso, acho que desde Matadores de Vampiras Lésbicas nenhum longa me chamou tanto a atenção apenas pelo título quanto Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte. É um título tão absurdo, com tantas palavras-chave de exploração, que eu simplesmente precisava ver. Ao ler a sinopse, pensei que era um slasher meta, estilo Pânico. Não era. Mas vem comigo que eu te conto mais.
CRÍTICA ACAMPAMENTO MIASMA: ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE
Aqui acompanhamos os bastidores do reboot de uma série slasher fictícia chamada Acampamento Miasma. Os primeiros minutos do filme mostram que a série foi um verdadeiro fenômemo comercial, abrangendo mais de uma dúzia de filmes, videogames e bonequinhos. Porém, como aconteceu com a maior parte destes filmes na vida real, a enorme quantidade de continuações fez com que a qualidade caísse e que a marca perdesse relevância.
Entra nossa protagonista Kris (Hannah Einbinder). Ela é uma diretora queer, a quem foi oferecida a oportunidade de reviver a franquia para uma nova geração e de forma mais woke. Em sua pesquisa, ela marca de se encontrar com Billy (Gillian Anderson), a final girl do primeiro filme da série. A diretora credita o filme Acampamento Miasma original ao seu despertar queer, e tem intenção de fazer um novo longa explorando justamente este aspecto.
DIREÇÃO E JANE SCHOENBRUN
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte tem direção de Jane Schoenbrun. Se você a conhece, provavelmente é por causa de seu último filme, Eu Vi o Brilho da TV. Curiosamente, eu assisti a ele há poucos meses, por indicação do meu amigo Guilherme Viana. Eu gostei do filme, mas me parecia algo feito por um autor com algo a dizer, que poderia passar em uma mostra, mas cujos próximos filmes dificilmente teriam um lançamento comercial. Olha só, eu errei.
Acampamento Miasma parece um longa bem pessoal. A ponto de Jane ser bem parecida com a diretora protagonista. Acredito que ela escreveu o filme refletindo em suas próprias experiências e, sim, com algo a dizer. Se Pânico é uma reflexão sobre a cultura pop em geral, Acampamento Miasma foca na parte sexual do gênero slasher, inclusive em partes que vão muito além do óbvio.
Sim, pois falando como um homem cis e hétero, sempre foi bem claro para mim a temática sexualizada dos slasher. Inclusive já fiz piadas com isso aqui. Mas nunca tinha pensado em sua simbologia trans, queer e gay. E achei legal ver o gênero por uma ótica que nunca tinha visto. Eu sei que tem gente que fala umas coisas absurdas, tipo “tire sua política da minha cultura pop”, como se a cultura pop não tivesse sido sempre política. Mas aqui temos um filme que é, por definição, político. Não é uma alegoria como Star Wars e X-Men, mas uma explicação das alegorias de acordo com a forma que a diretora as viu. A coisa é tão clara que o nome do assassino original, Pequena Morte, vem do francês la petit mort, e é uma forma poética de se referir ao orgasmo.
ACESSIBILIDADE E CAPITALISMO
Curiosamente, em um filme com tanto a dizer e uma proposta tão claramente contra o capital, é curioso ver tamanho desrespeito com frutas baixas como acessibilidade e product placement. A quantidade de anúncios de produtos neste filme beira o erótico. Imagine um filme dizendo como o capitalismo é do mal enquanto o herói dá um gole em uma lata de Coca-Cola com o logo virada para a câmera, interrompe seu discurso e fala “nada mata minha sede tão bem quanto um refrigerante”. Esta cena foi tirada da minha cabeça, mas a quantidade e cara de pau dos anúncios aqui é literalmente assim.
Além disso, sabe-se lá por qual motivo, escolheram deixar o tamanho das legendas muito menores do que o tradicional no cinema. Não sei se isso foi uma decisão da distribuidora brasileira ou se foi uma condição vinda de fora. Mas digo com todas as letras que foi a primeira vez que senti necessidade de ter levado meu óculos ao cinema. Normalmente eu consigo ver filmes ou jogar videogames sem óculos, e os uso apenas para ler gibis ou livros, coisas mais próximas de mim. Neste caso, tive realmente dificuldade de acompanhar a tradução e agradeço por felizmente não precisar delas para entender o filme. Porém, sei que muita gente precisa, e é por isso que legendas existem. Optar por deixá-las menores do que o padrão é uma decisão simplesmente estúpida.
BELA DIREÇÃO
Falando agora especificamente da parte da apresentação e construção dessas ideias, eu gostei muito da direção em geral. O Acampamento Miasma clássico aparece em um monte de cenas visualmente muito parecidas com o primeiro Sexta-Feira 13. Só que, apesar do visual de filme antigo, tem um monte de caras conhecidas de papéis pequenos contemporâneos de Hollywood. Fora do filme dentro do filme, no entanto, ele tem um visual mais moderno, e gostei muito da intercalação entre ambos os estilos. Além disso, já falei antes, mas eu simplesmente amo quando Hollywood tira sarro de si mesmo.
A cena do massacre do filme original merece um destaque. Não apenas pelos hilários sangues jorrando e cabeças arrancadas falando – o que, sim, são hilários. Mas especialmente por causa de um plano sequência extremamente elaborado em que o assassino Pequena Morte mata algumas dezenas de pessoas. É uma coisa linda e deve ter dado um trabalho enorme para fazer. Inclusive, diria que se uma cena assim realmente existisse no cinema dos anos 80 teria sido tão importante para Hollywood quanto a cena do chuveiro de Psicose.
Comparei Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte com Pânico, mas este não é um slasher propriamente dito e também não é um filme de terror. Ele apenas usa os temas e o imagético de um slasher para apresentar suas próprias ideias. Então não existe um assassino propriamente dito e o classifcaria como uma comédia. E uma excelente comédia.







































