Sexta-Feira 13

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Nada grita filme de terror como uma quinta-feira 12, certo? Pois a cabine deste filme foi, adivinhou, ontem, mais conhecido como véspera da estreia. Por que tão em cima da hora, todo mundo perguntava? Será por causa do lançamento mundial ou será assim tão absurdamente ruim? A resposta é que, sim, este remake de Sexta-Feira 13 é ruim. Tão ruim, aliás, que ele desce uma oitava e acaba, assim, sendo excelente na oitava mais baixa. E você esperava outra coisa do retorno triunfal do tremendaço Jason Voorhees?

Para se manter trüe ao mövimento (movimento com trema mesmo, porque para fazer um slasher de respeito tem que ser abençoado por Odin), a turminha do Michael Bay decidiu fazer três filmes em um. Um curta extremamente curto, um curta de uns 25/30 minutos e um média que se trata do filme em si. Vamos analisar cada um deles.

SEXTA-FEIRA 13

A mãe de Jason sai pelo acampamento de Crystal Lake matando jovens roqueiros, emaconhados, bonitos e tarados, em vingança pelo que eles fizeram com seu filho. Uma pequena piscadinha aos fãs, pois é uma referência direta ao primeiro filme, de 1980. Aqui, é apenas a introdução.

SEXTA-FEIRA 13 – PARTE II

Vários anos depois, um grupo de jovens roqueiros, emaconhados, bonitos e tarados vão até Crystal Lake em busca de uma plantação secreta de maconha (O.o). Logo, anoitece e eles começam a transar e a usar drogas. Big Mistake! Prepare-se para mulheres peladas e pessoas decepadas. Ou seja, só coisa fina.

Aqui começa o massacre perpetrado por Jason, já adulto. Mostrando que os criadores do filme entendem do riscado, nosso serial killer preferido usa um pano para cobrir aquele rosto que só a mamãe conseguiria amar. E se você também é escolado na série, sabe que essa era exatamente a vestimenta dele na segunda parte, de 1981.

SEXTA-FEIRA 13 – PARTE III

Aqui tudo começa de verdade e a coisa muda totalmente de figura, parece até outro filme. Saca só como fica diferente: dessa vez, acompanhamos um grupo de jovens roqueiros, emaconhados, bonitos e tarados que vão passar alguns dias em uma cabana perto de Crystal Lake, alguns meses depois do massacre anterior. Logo, eles vão começar a transar e a usar drogas, e não vão demorar para perceber que isso foi um grande erro. Prepare-se para mulheres peladas e pessoas decepadas. Ou seja, só coisa fina.

Porém, aqui temos três exceções: um nerd oriental, não por acaso o alívio cômico; um negro bravo, que acha que qualquer comentário é racista, e um outro sacripanta que não está com eles, mas está rondando Crystal Lake em busca de sua irmãzinha desaparecida.

Mais uma vez, mostrando que a turminha manja do movimento tremado, é só nessa terceira parte que o humor entra na jogada. Quem acompanhou a série sabe que os dois primeiros filmes são slashers “sérios” e só desbanca para o terrir mesmo no filme de 1982 – não por acaso também é quando Jason começa a usar a máscara de hockey que o consagrou. E tudo isso está aqui.

A partir daqui é que a curtição realmente começa. E é aquela curtição bem old-school. Personagens tão toscos que não se tornariam tridimensionais nem em uma sala 3D, diálogos bizarros (“esse taco é virado para a esquerda, assim como meu pênis” ou “you have perfect nipple placement” – esse faço questão de não traduzir, pois fica bem mais legal no original) e, é claro, um monte de morte, violência e presuntos que aparecem de lugar nenhum, bem quando o carinha achava que ia escapar.

O troço é tão absurdamente fiel aos antigões que a origem de Jason é quase completamente ignorada – ao contrário do que todos pensavam. Só faltou mesmo terem arranjado o Kevin Bacon para fazer uma ponta (ele foi um dos jovens roqueiros, emaconhados, bonitos e tarados no primeiro filme, antes de ser famoso). E o papel do policial seria perfeito para ele.

Porém, apesar da fidelidade ao movimento, rolaram algumas traições feias. Para começar, o Jason não se teleporta. Sim, eu sei. Isso é muito triste e tira boa parte do valor artístico da produção. Mas fica pior: ele corre! Cara, quando eu vi o Jason correndo, imediatamente tirei uma foto do Michael Bay do bolso (é sempre bom ter uma para emergências) e fiz pipi nela.

Não se teleportar tudo bem, afinal, a história deste reboot deixa claro que nosso amigo (ainda) é uma pessoa, não uma entidade mística pintuda, invencível e imortal, enviada por Satã em pessoa. Claro, esperamos que na sequência ele atinja todo seu potencial, como aconteceu na série antiga, mas estamos preparados a aceitar a falta do teleporte por um – e apenas UM – filme. Agora correr? Faça-me o favor, isso é Sexta-Feira 13, não Pânico. O Jason não pode correr. Ele é tremendão demais para isso.

Também teve uma outra traição do movimento que foi um pouco mais leve. Para se adequar ao mundo politicamente correto de hoje, o personagem negro (chamado Lawrence) não morre como os slashers antigos costumavam matar negros. Ou seja, o líder do grupo fala “vamos nos separar para investigar, todos nós, os sete brancos, ficamos na casa usando drogas e transando e você, Lawrence, sai na floresta escura para procurar pistas”. Daí, depois de gritar “damn”, o carinha sai da casa e morre. Aqui não. Para falar a verdade, é quase isso, mas a idéia de sair da casa é do próprio Lawrence, e ele faz isso para salvar seu amigo, o nerd. Pô, colocar o maninho para morrer como herói traiu o mövimento slasher que o filme vinha seguindo até então.

Brincadeiras à parte, tudo que eu falei nos últimos parágrafos não me incomodou tanto assim. Eu sinceramente me diverti deveras durante toda a projeção e ri muito de tanta coisa ridícula que acontecia a todo momento. Ou seja, gostei pra caramba e correspondeu totalmente às minhas expectativas.

Porém, quando o filme estava encerrando e eu já tinha começado os arranjos para presenteá-lo com cinco Alfredos, os malditos roteiristas me decidem apelar para aquela coisa ridícula de último frame com susto. Pois é, o susto foi tão grande (cuidado, ironia à vista) que um dos cinco Alfredos que ele levaria saiu correndo e nunca mais foi encontrado. É engraçado como essa turminha gosta de estragar o final dos filmes. Se ele terminasse um segundo antes, levaria um ponto inteiro a mais do que levou.

Delfonauta, anote isso no seu caderninho mental: um bom filme de terror não precisa de sustos, pois ele causa medo pela sua história, não por mostrar um gato passando correndo enquanto a trilha sonora aumenta. Sustos são uma demonstração de preguiça do roteirista que, incapaz de arrancar emoções da platéia com seu talento, apela para artifícios de roteiro, exatamente como ameaçar crianças (leia os comentários desse link para entender). E Sexta-Feira 13, que nem terror é (você sabe a diferença de terrir para terror, certo?), precisa disso menos ainda. Deveriam ter se concentrado em mostrar mulheres com pouca roupa, violência gratuita e personagens unidimensionais com os quais ninguém se importa. Afinal, é isso que deixa Sexta-Feira 13 uma série tão legal.

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).