Coyote vs. Acme é um filme muito legal. Mas tenho minhas dúvidas se ele é tão interessante quanto a história que o rodeou. Neste texto, vou falar um pouco sobre ambos.

COYOTE VS. ACME: A HISTÓRIA REAL

Coyote vs. Acme, o filme, é baseado numa paródia de mesmo nome escrita por Ian Frazier em 1990. Mas esta não é a parte interessante. A parte interessante é que este longa foi completado em 2023, na intenção de sair no cinema. Porém, a Warner resolveu não lançá-lo e declará-lo como um prejuízo fiscal de 30 milhões. Eu não sou um economista para explicar a lógica perfeitamente. Porém, se você já sentiu que executivos são muito burros ou não entende como o Uwe Boll consegue continuar fazendo filmes, esta é uma forma legal de ganhar dinheiro que a maioria de nós não conhece. Inclusive, o CEO David Zaslav faz isso com frequência (este foi o terceiro), pagando para filmes serem feitos sem intenção de lançá-los, ou tirando séries da própria Warner do serviço que pertence a ela, a HBO Max (como Westworld).

Porém, neste caso específico, ele resolveu fazer isso com um filme cuja premissa era simplesmente muito legal. E muita gente, eu incluso, queria assistir. Isso deixou geral frustrado e bravo. E você sabe que a internet, quando está brava, é bastante comedida e educada. O final feliz veio quando o filme finalmente foi vendido para a Ketchup Entertainment. E através dessa venda, ele chega ao Brasil pela Paris Filmes. Pois é, é um filme da Warner, com personagens da Warner, mas a distribuidora brasileira é a Paris Filmes. Mais estranho ainda vai ser vê-lo depois em um Netflix ou em algum serviço de streaming que não seja a HBO Max. Mas ei, pelo menos agora a gente pode assistir.

CRÍTICA COYOTE VS. ACME

E finalmente chegamos ao prato principal. Em muitos aspectos, Coyote vs. Acme lembra Uma Cilada Para Roger Rabbit. Ele é tecnicamente muito bom e foi uma decisão excelente os personagens serem em 2D e não algum CGI profano. Os desenhos interagem com cenários e personagens humanos o tempo todo. Então na parte técnica eu não posso colocar defeitos.

Felizmente, o filme também agrada bastante. E ele entrega muito bem sua premissa. Depois de anos tentando pegar o Papa-Léguas usando produtos da Acme, e sofrendo com a falta de qualidade deles, nosso amigo Coyote resolve fazer justiça com as próprias mãos. De um advogado. Ele resolve processar a Acme, a maior empresa do mundo, e fazê-la pagar pelos defeitos de seus produtos.

Só que esta não é a ideia original de seu advogado (Will Forte), alguém que gosta de pegar casos pequenos e que não tem experiência em um tribunal. Por outro lado, a Acme tem um advogado daqueles caríssimos e malvados (John Cena), que acha que será um caso fácil de ganhar. Ele só não contava com as peripécias dos desenhos animados.

LOONEY TUNES

O uso dos personagens aqui faz todo o sentido. Coyote vs. Acme não é um paraíso com todos os desenhos animados que existem, como Uma Cilada Para Roger Rabbit. Mas o lado bom é que ele também não é uma propaganda nojenta das IPs da Warner, como o Space Jam mais recente. Muitos dos Looney Tunes aparecem aqui, muitos além dos óbvios Coyote e Papa-Léguas. Mas todos têm um motivo para existir na história. Sim, esse motivo pode ser apenas uma piada ou referência, como o spray anti-predador, mas não rola nada como um desenho de crianças lado a lado com o assassino de crianças Pennywise ou os estupradores de Laranja Mecânica. Ainda bem.

Na verdade, Coyote vs. Acme merece todos meus elogios por conseguir criar um mundo acreditável em que humanos convivem com desenhos no dia a dia. Neste mundo, os desenhos não são atores, como em Roger Rabbit, mas eles assumem funções e trabalhos que os possibilitam viver ao lado dos personagens humanos. E ainda mantém a personalidade que os tornou conhecidos, é claro.

Infelizmente, esta manutenção da personalidade revela minha principal picuinha. Todos sabemos que o Coyote tem como objetivo de vida pegar o Papa-Léguas. Mas eu fiquei decepcionado quando, logo no início, você descobre que ele quer processar a Acme apenas para pegar o pássaro. Pareceu desnecessário, e tira boa parte da graça de ele perceber que a Acme é responsável por suas falhas e querer compensação.

OS ADVOGADOS E AS EMPRESAS MALVADAS

O que me leva a algo já esperado, mas que vem me incomodando cada vez mais. Estamos falando de um filme da toda-poderosa Warner, juntando um monte de propriedades intelectuais valiosas. Fico realmente coçando quando um longa como este, vindo de uma das maiores empresas do mundo, me conta uma história sobre uma revolta do povo contra os poderosos. E sim, isso é um problema meu, e sei que histórias assim são contadas no cinema desde que o cinema começou (para terror da turma do “tire sua política da minha cultura pop”). Mas atualmente ando muito incomodado com demagogos.

Apesar da demagogia, Coyote vs. Acme é um filme bem divertido. Não cabe a mim fazer uma análise dos lucros potenciais ou do sucesso que ele é capaz de alcançar nos cinemas, como o David Zaslav com certeza fez antes de resolver esconder o filme. Mas digo aqui, com todas as letras, que este é um dos filmes mais divertidos do ano, e um dos mais legais a misturar seres humanos com desenhos animados.