Beast of Reincarnation não respeita meu tempo. Ele não tem necessidade de carregamentos longos (é muito rápido ir do painel do PS5 para o jogo), mas mesmo assim tem várias cutscenes programadas para uma pausa de tela preta de 30 segundos no meio delas. Em outros momentos, ações banais de videogames são extremamente custosas e cansativas. Por exemplo, puxar uma alavanca. Você se aproxima e aperta o botão de interagir. Sua personagem fica então parada por alguns segundos. Daí ela guarda a espada. Agora ela lentamente arruma sua posição para ficar perfeitamente à frente da dita-cuja. Só depois disso ela realmente começa a animação de puxar a alavanca. E dar banho no seu cachorro, uma coisa que você faz apenas para tirar o sangue dele e para mais nada, envolve uma animação não pulável, e repetida dúzias de vezes (quiçá centenas) ao longo do jogo (Nota: uma atualização acrescentou a possibilidade de pular o banho, mas o ponto se mantém).
Depois de 12 horas de jogo, eu tinha terminado o segundo capítulo, de 13. Nunca foi tão desanimador precisar jogar algo até o fim a trabalho. E eu realmente pensei que gostaria deste jogo. Mas este tipo de obra programada para desperdiçar tempo me desanima consideravelmente. Meu tempo, assim como o seu, é muito valioso para ficar assistindo à mesma cutscene de banho de cachorro mais de 100 vezes.
REVIEW BEAST OF REINCARNATION
Beast of Reincarnation é o primeiro jogo não-Pokémon da Game Freak em muito tempo. E provavelmente o de maior orçamento. Para quem gosta de Pokémon, isso pode ser legal ou decepcionante. Legal porque é possível ver os regentes da série expandindo suas asas para outros gêneros. Decepcionante porque isso significa que eles devem levar mais tempo para fazer outro. Particularmente, o jogo deles que eu mais joguei e gostei no passado foi Tembo The Badass Elephant, então não sou exatamente um fã. Mas Beast of Reincarnation parecia legal.
Comecemos pelo positivo. Apesar de parecer, Beast of Reincarnation não é um soulslike. Ele tem coisas do gênero, como os checkpoints em fogueiras, mas o combate é bastante diferente. Mais rápido, e sem a limitação de stamina. Ele também é, quase o tempo todo, em mundo aberto. Em outras palavras, não espere aqui o excelente level design de um Dark Souls, nem mesmo de Elden Ring. Na verdade, o combate, o design do mundo, o loop de gameplay e, finalmente, a história extremamente intrusiva, me lembraram outro jogo.
NIER AUTOMATA
Nier Automata foi um jogo que dividiu opiniões aqui mesmo no Delfos. Eu detestei. O Daniel adorou. Tudo que eu senti em Nier eu senti aqui também. A única vantagem de Beast of Reincarnation sobre seu coleguinha é que aqui toda a história é contada em cutscenes de verdade, ainda que com animações parcas e direção MUITO RUIM. Praticamente todas as cenas de diálogos você vê os personagens falantes distantes ou de costas, claramente para custar menos na animação. Marvel Tokon fez um trabalho melhor em narrativa usando imagens estáticas. Além disso, a história é muito pouco interessante e ela interrompe o gameplay O TEMPO TODO.
É comum você precisar interromper sua exploração para voltar para o veículo, onde sempre tem uma ou mais cutscenes. Ou pelo menos você precisa conversar com seus amiguinhos, fazer carinho e dar banho no seu cachorro. Porém, o que acontece na história é óbvio e clichê, contando mais uma aventura de fim do mundo em que uma salvadora com poderes precisa salvar geral. Spoiler, acho: o final revela que o vilão lutou o tempo todo pelo seu direito de ser pedófilo, o que é algo tão estranho que eu sinceramente acho que não entendi algo.
A Naughty Dog tem a proposta de contar histórias simples, com personagens complexos, e eu gosto disso. Porém, os personagens são o principal problema em quão chatas são as cutscenes aqui. A protagonista seria mais carismática e interessante se fosse um pedaço de papelão com uma carinha desenhada. Tipo, os outros personagens falam pra ela que um monstro está por perto e ela responde “ok”. Aí uma outra moça diz que gosta de comer com ela. A resposta? “Ok”. “Você precisa descansar, volta para o veículo”. Você adivinha a resposta, não? Ok, então.
LEVEL DESIGN
Pelo menos se o gameplay fosse bom, daria para relevar a história chata e intrusiva? Sinceramente, não sei. Mas não, o gameplay não é bom. Cada fase é dividida em um mapa. Estes mapas vão do tradicional mundo aberto, com um monte de breguetes para coletar, a outros mais lineares, com um monte de breguetes para coletar, mas um caminho claro até o objetivo. Os de mundo aberto estão entre as coisas mais chatas desde Ghost Recon Breakpoint. Seu objetivo fica sempre marcado no mapa, mas tem um monte de coisas para pegar e explorar espalhadas por uma área desnecessariamente aberta.
As missões mais fechadas são bem melhores, mas estão longe de serem realmente boas. Tipo, é possível se divertir um pouco nelas, mas você nunca tem realmente um prazer erótico em explorar o cenário. O design das fases simplesmente não é bacana o suficiente. Muito disso se deve à parte artística. Apesar de ter toques legais, como a protagonista deixando flores por onde anda, o jogo nunca é muito bonito. As fases são sempre nubladas quando abertas ou cavernosas e escuras demais quando fechadas. É incrível que tenham feitos tantos mapas diferentes para a campanha com tão pouca variação entre elas. Halo Infinite tem tanta variação quanto Beast of Reincarnation, ou seja, nenhuma.
COMBATE
Por fim, temos o combate. Você controla a protagonista em tempo real enquanto pode usar um menu de comandos para direcionar os ataques do seu cachorro. Os ataques cachorrais têm limite, e você recupera os quadradinhos que eles gastam defletindo ataques. Também dá para equipar uma enorme quantidade de ataques e itens de customização de gameplay para os dois personagens, além de subir o nível de ambos independentemente.
Absolutamente todos os chefes precisam ser vencidos uma enorme quantidade de vezes, sendo que o último confronto é sempre dividida em duas fases. Você sabe que eu não gosto disso. Lutar contra os inimigos normais é mais legal, e dá até para se empolgar um pouco quando a fase envolve um caminho mais linear intercalado por combates. Mas isso é uma parte pequena de Beast of Reincarnation. A maioria mesmo é mundo aberto intercalado com cutscenes quase sem animações. E interações com alavanca. E banho em cachorro.
MOVIMENTAÇÃO
Talvez este seja o ponto mais único de Beast of Reincarnation e o principal motivo do mundo aberto existir. A protagonista já começa o jogo com muitas habilidades de movimento. No lugar de um pulo duplo tradicional, por exemplo, ela tem um que a levanta extremamente alto através de um galho/cabelo. Além disso, você pode usar seu galho/cabelo para criar uma plataforma à sua frente. Combinar este com o anterior permite que você pule muito longe e muito alto, aumentando consideravelmente a mobilidade. E daí tem o gancho, que funciona, em seus bons momentos, como o gancho do Batman. Então este definitivamente não é um jogo para se ficar parado.
Mas tudo tem um lado negativo. A enorme mobilidade para cima, por exemplo, faz com que não demore quase nada para você começar a encontrar paredes invisíveis. É muito frustrante em um mundo aberto você se esforçar para chegar em uma plataforma e descobrir que não dá para se mover nela. O mais incômodo, no entanto, é quando você vê toda uma fase em determinada direção, mas simplesmente não consegue chegar lá por causa de uma parede invisível. Em alguns casos, mais comuns do que você pensa, tem até inimigos do outro lado da parede. Assim, é óbvio que você pode chegar lá, só não pode do jeito que de fato chegou.
O GANCHO DO AU-AU
O mais irritante, no entanto, é o gancho. Você só pode usá-lo em pontos específicos do cenário, e ok. Porém, estes pontos muitas vezes são mostrados, porém são mostrados em vermelho não interagível ao contrário do azul interagível. Muitas vezes você está próximo e até vendo o gancho, mas o jogo não te deixa ativar. Aconteceu uma vez de eu ter um caminho para explorar, mas simplesmente não ser capaz de transformar o vermelho em azul, mesmo me movimentando ao redor dele e estando bastante próximo.
Eu terminei Beast of Reincarnation sem entender a lógica absurda de como os ganchos funcionam. Então não espere que ele vá funcionar bem, como o do Batman ou de qualquer outro jogo com esta habilidade. O lado bom é que o seu cachorro identifica todos os breguetes que você pode pegar ao se aproximar. É uma mão na roda para um mundo com tanta verticalidade. Mas você precisa pagar essa facilidade com banhos frequentes.
BEAST OF REINCARNATION
Se você sempre sonhou com um jogo em que é possível dar banho num cachorro com um único botão, e daí você ganha o privilégio de assistir a uma cutscene não pulável com o bicho se limpando, Beast of Reincarnation é para você. Se você gosta de jogos de ação e de vencer inimigos em fases interessantes e com um combate elaborado, é melhor procurar em outro lugar.






































