Pixies – Indie Cindy

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O Pixies é uma das minhas favoritas. De fato, figura na minha listinha de Top 5 de bandas do coração que carrego em cópia plastificada no bolso de trás da minha bermuda puída, como uma versão roqueira alternativa de Ross Geller e sua lista de celebridades com quem ele poderia dormir com o aval de sua cara-metade.

Lembro-me como se fosse hoje. O ano era 1997, eu tinha quinze anos, muitas espinhas, poucos amigos e minha coleção de discos começava a aumentar consideravelmente. A primeira música do quarteto estadunidense que ouvi foi Debaser, do clássico disco Doolittle (1989), e foi amor à primeira vista. Tanto que você pode notar pelo próprio tom dessa resenha, muito mais confessional do que o costumeiro. E ainda vou dar um panorama geral sobre a banda. Então, quem só quer saber se o disco novo é bom ou não (e no fim das contas, você até já sabe, afinal, eu sei que a primeira coisa que você faz é olhar o número de Alfredinhos!), basta pular direto para o segundo tópico.

Ao delfonauta que decidir me acompanhar por toda a jornada, em primeiro lugar, meu agradecimento por não me deixar escrevendo sozinho. E agora passemos então a uma rápida introdução sobre uma das bandas mais tremendonas que já surgiram nesse planeta.

ONDA DE MUTILAÇÃO

Este quarteto é uma das bandas mais importantes e influentes do Rock Alternativo e ecos de sua sonoridade podem ser encontrados em inúmeros grupos surgidos nos últimos quase trinta anos. Basta lembrar uma famosa declaração de Kurt Cobain dizendo que, quando compôs Smells Like Teen Spirit, estava apenas tentando emular a sonoridade do grupo do Pixies. Guardadas as devidas proporções e sem querer polemizar, eles seriam para o Rock Indie o que os Ramones foram para o Punk.

Contudo, diferente do pessoal das jaquetas de couro e hey ho let’s go!, os Pixies, apesar de boas críticas em seu período de atividade (1986 a 1993), nunca passou de uma banda universitária com um público muito pequeno. Ela só foi verdadeiramente descoberta depois que já havia terminado, quando um monte de artistas passou a revelar não só sua admiração, mas também a influência exercida por eles em seus próprios trabalhos.

Resolveram então voltar à atividade em 2004, deixando bem claro seu principal objetivo: ganhar toda a grana que não faturaram em sua primeira encarnação. Até por isso, não pareciam interessados em nada mais do que percorrer o circuito de festivais tocando os muitos clássicos de seus cinco discos gravados entre 1987 e 1991.

Contudo, o baterista David Lovering deu algumas declarações dizendo que estava ficando estranho justificar a banda estar tocando já há dez anos desde que voltou, e sem ter material novo para apresentar.

Sendo assim, o anúncio de que eles lançariam seu primeiro álbum de inéditas em 23 anos chegou como uma surpresa, e o impacto teria sido bem maior se as canções que compõem Indie Cindy, o disco em questão, não fossem exatamente as mesmas que saíram antes divididas entre três EPs de tiragem limitada lançados entre setembro de 2013 e março deste ano.

Mesmo que essa estratégia de divulgação mate o ineditismo das canções e transforme Indie Cindy, rigorosamente falando, numa compilação, deixando as tecnicalidades de lado, ainda assim é um disco novo dos Pixies, o primeiro desde o tremendão Trompe le Monde (1991) e isso me deixava muito, mas muito apreensivo. O quarteto é uma das poucas formações que possuem uma discografia não só pequena, mas verdadeiramente irretocável. Eles não têm um disco ruim sequer, no máximo um “menos bom” (Bossanova, 1990). E por mais que sejamos fãs e sempre torçamos para que nossas bandas veteranas favoritas sejam capazes de tirar um coelho da cartola, o lado racional dita que na esmagadora maioria das vezes não é isso que ocorre.

INDIE CINDY

Felizmente, Indie Cindy não macula a obra da banda. Não chega nem perto de seus trabalhos áureos, mas é um disco decente e digno de uma banda que ainda tem boas ideias e também mantem os principais elementos de sua sonoridade, aqueles que os deixaram famosos.

Mas também não é mais um trabalho de jovens de 20 e poucos anos cheios de energia e tesão, mas de tiozões do alto de seus 50 anos, mais sossegados e complacentes. Logo, dê adeus à urgência das canções curtas e aceleradas de dois a três minutos e meio que marcava a maioria de seu repertório e também dos vocais ensandecidos de Frank Black da época em que ele respondia por seu primeiro nome artístico de Black Francis.

O novo álbum possui músicas mais longas e trabalhadas, o que o aproxima muito mais de Bossanova (1990), até então seu único disco que tinha essas características. E justamente aquele que considero o menos tremendão de sua discografia, muito em parte exatamente por conta dessas características. E agora Frank Black também prefere cantar a guinchar como se não houvesse amanhã, o que torna as novas composições muito mais leves.

Ainda estão lá a guitarra criativa e muito influenciada pela Surf Music de Joey Santiago, a bateria sem frescuras de David Lovering e as letras viajandonas misturando surrealismo com toques de ficção científica B de Frank Black. Quem não está presente são os meigos backing vocals e o baixo simples e grudento de Kim Deal, que saiu da banda pouco antes das gravações, deixando o grupo como um trio para a produção do álbum. Visto que os vocais e o baixo de Kim eram das características mais marcantes dos Pixies, sua ausência é muito sentida.

O trio remanescente sabe disso e até arranjou uma backing vocal parecida para a boa Bagboy. A faixa de abertura What Goes Boom, Indie Cindy e Blue Eyed Hexe são as que mais se aproximam dos Pixies clássicos. Na segunda, Frank Black até arrisca uns vocais mais gritados em nome dos velhos tempos.

Faixas como Greens and Blues, Magdalena 318, Silver Snail e Ring the Bell, no entanto, mostram uma sonoridade mais calma, com o pé no freio. Nenhuma chega a ser exatamente uma balada, mas mostram uma quase fofura muito mais difícil de ser encontrada em seu período de glória.

Another Toe in the Ocean e Snakes casam bem a sonoridade vintage da banda com esse lado novo mais desacelerado, mas nunca desprovido de energia e peso. Jaime Bravo fecha o disco com um trecho em espanhol, outra característica da banda que ficou famosa em clássicos como Vamos e Isla de Encanta.

No geral, Indie Cindy é um disco bom, justificando plenamente os quatro Alfredos recebidos e, se fosse de qualquer banda nova, teria predicados para ganhar ainda mais elogios e atenção. No caso dos Pixies, contudo, o padrão de qualidade de seus álbuns anteriores é tão elevado que nesse contexto o novo rebento não chega nem perto dos bons e velhos tempos. Não arranha a impecável discografia da banda, mas poderia passar muito bem sem essa nova adição. É um daqueles raros casos onde não importa a boa intenção (e especialmente o ótimo resultado obtido), às vezes, mesmo com tudo a favor, ainda é melhor mesmo ficar apenas nas boas lembranças do passado.