O Conselheiro do Crime

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Vou começar a resenha já avisando que a tradução do título em português foi equivocada. Embora “counselor” realmente possa ser traduzido como “conselheiro”, os estadunidenses também usam a palavra muitas vezes como sinônimo para “advogado”, a profissão do protagonista. E como nós não temos esse costume em português, o mais certo seria chamar esta película de O Advogado do Crime.

E como você já deve imaginar por esse breve aparte cultural, temos aqui a história de um advogado envolvido com o crime. Ah, vá! Pois é, pois é, pois é! O tal advogado, não contente em ter a cara do Magneto e em pegar a Penélope Cruz, ainda queria mais. Queria muito dinheiro, para ser exato.

Por isso, resolve participar de um esquema de tráfico de drogas do México para os EUA. Mas algo sai errado e, como você sabe, o cartel não admite mancadas, não importa de quem seja a culpa. Sendo assim, todos os envolvidos no negócio passam a correr risco de vida, incluindo nosso protagonista.

Este filme tem bastante pedigree. Não bastassem os muitos bons nomes no elenco, como se pode ver na ficha técnica (incluindo Javier Bardem levando em frente sua tradição de interpretar sujeitos de cabelos bizarros), a direção é do Ridley Scott e o roteiro é de autoria de Cormac McCarthy, romancista tremendão autor de obras como Meridiano de Sangue, Onde os Velhos Não Têm Vez (adaptado para o cinema como Onde os Fracos Não Têm Vez) e A Estrada (também adaptado em filme de mesmo nome).

Ou seja, tinha todas as credenciais para ser um baita filme. Não chega a tanto, mas ainda assim é bem legal. Primeiro porque fazia tempo que eu não via um filme hollywoodiano que não entregava toda sua história mastigadinha nos primeiros 15 minutos. Aqui, a trama vai se desenrolando sem pressa, de maneira natural, e sem a menor preocupação em explicar cada pormenor. Ela faz algo cada vez mais raro hoje em dia: não subestima a inteligência do espectador e vai dando os pedaços (aos poucos) para que ele vá montando o quebra-cabeça por conta própria.

Segundo, apesar da premissa que sugere violência, e de fato passar um clima de perigo, de que coisas muito ruins estão sempre prestes a ocorrer por quase toda sua duração, ele é todo escorado nos diálogos. A violência em si aparece, claro, mas bem menos do que se poderia esperar. E quando dá as caras, são sempre em ótimas sequências, que elevam ainda mais esse tom opressor.

São duas boas qualidades, mas como disse, ele não é tudo que poderia ser. Primeiro porque, mesmo contada de um jeito diferente (para os padrões atuais), não deixa de ser uma história típica da trinca de filmes policial/roubo/máfia.

E depois porque ele é um tanto arrastado em algumas passagens, o que acaba deixando-o um tanto tedioso em diversos momentos, comprometendo assim seu ritmo geral. Ou seja, quando é bom, é muito bom. E quando o ritmo cai, fica bem chato.

Não sei, talvez eu seja muito exigente com Ridley Scott, afinal, analisando friamente, o cara não faz nada totalmente tremendão desde 2000, com Gladiador. Talvez, se eu não o tivesse em tão alta conta, teria apreciado bem mais este O Conselheiro do Crime. Mas continuo acreditando que ele tem capacidade para fazer algo superior ao que entregou.

Sendo assim, se você, diferente de mim, não espera muito do cara, e gosta desse tipo de história de gente se envolvendo com quem não deve e tentando não se estrepar por causa disso, este longa é um bom programa.