Marguerite

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É sempre tragicômico quando alguém tem paixão por alguma coisa, porém não leva o menor jeito para ela. Daí restam duas opções: se conformar e continuar apreciando tal coisa mais à distância ou negar a realidade completamente, o que sempre resulta em coisas deprês e ridículas ao mesmo tempo.

Um bom exemplo do que estou falando são aqueles concursos de calouros de canto, tipo American Idol. Sempre aparecem umas figuras completamente desafinadas, incapazes de cantar uma única nota sequer no tom correto. Claro, muitas delas têm completa consciência de que não cantam nada e só querem aparecer, mesmo que seja pagando mico. Mas algumas realmente não têm a menor ciência de sua falta de talento e realmente acreditam que estão arrasando. Essa é a parte hilariamente triste da coisa.

Marguerite, você já percebeu, tem relação direta com isto. A mulher que dá nome ao filme é uma rica aristocrata na França de 1920. Apaixonada por ópera, ela costuma organizar recitais em sua casa para arrecadar fundos para a caridade. O que seria muito legal, se ela também não se metesse a cantar.

Como você já deve ter adivinhado, ela não canta uma naba, e todo mundo tolera e mente para ela por pena, educação, vergonha, ou para não secar a fonte de piadas contadas pelas suas costas. Contudo, um dia um jornalista meio anarquista, sabe-se lá por quais motivos, publica uma crítica favorável aos dotes de Marguerite, o que ameaça com que sua lendária falta de talento não fique mais apenas restrita ao seu círculo de amigos e conhecidos, para desespero do envergonhado maridão dela.

O longa é bom, embora sofra de uma certa indefinição na condução de sua história. A trama naturalmente rende algo engraçado, mais para a dramédia, mas muitas vezes ele opta por um tom mais sério, o que nem sempre funciona, já que estamos falando de uma mulher de meia idade tão iludida que parece até um exagero. E que toda vez que abre a boca para cantar, soa como um saco de gatos se afogando num rio. Sério, a coisa é tão feia que ela deveria ser proibida de cantar até no chuveiro.

Ainda assim, há partes boas, como quando arrumam um professor de canto para ela, e as mutretas armadas pelo maridão para convenientemente perder suas apresentações e assim se salvar de passar carão. Para os apreciadores de ópera, há diversas peças famosas na trilha sonora, ainda que a maioria delas acabe brutalmente assassinada sem dó nem piedade pela protagonista.

A reconstituição de época é caprichada, deixando o filme muito bonito visualmente. Contudo, a já referida falta de equilíbrio entre drama e comédia e até mesmo uma falta de clareza entre as motivações de determinados personagens (nunca entendemos porque o jornalista publicou aquela matéria e a incentiva a continuar, sendo que parece que ele genuinamente gosta de Marguerite), aliado à duração excessiva, prejudica um pouco a qualidade geral.

Mesmo assim, ele ainda é agradável o suficiente e com um tema bastante pertinente a um mundo cada vez mais cheio de gente querendo ser famosa e completamente iludida e sem noção de sua falta de predicados. Não é o tipo de filme que eu recomendo para ser visto no cinema, mas em casa até que Marguerite desce bem, ainda que nem tanto para os ouvidos.