David Bowie – The Next Day

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David Bowie estava sumido da mídia há muito tempo. Desde que sofreu um problema cardíaco em 2004, virou um recluso com raras aparições públicas. O cantor parecia ter se aposentado da música e esquecido de avisar o fato oficialmente. Muitos temiam que a próxima vez que ele voltasse a ser notícia fosse quando morresse.

Felizmente, não foi o que aconteceu, e ele pegou a todos de surpresa no dia de seu aniversário de 66 anos ao anunciar um novo disco, o primeiro em dez anos, desde Reality, em 2003. O resultado: muita expectativa pelo esse novo trabalho de um dos artistas mais inovadores do Rock. E será que, mesmo após décadas de carreira e depois de um hiato tão longo, ainda seria um disco de qualidade?

Com certeza, embora aqui Bowie tome um caminho oposto ao que sempre costumou fazer. Ao invés de antecipar tendências em seu som, como foi a tônica durante boa parte de sua carreira, aqui ele se volta para o passado, algo que fica bem claro desde a capa, que na verdade é a de Heroes (1977) com o novo título “colado” por cima. E no próprio som The Next Day faz um apanhado das principais fases de sua carreira.

Tem de tudo um pouco. O Bowie roqueiro de sua fase Glam e também da sonoridade mais Pós-Punk de Scary Monsters (1980). O Bowie mais experimental da trilogia de Berlim (que compreende os discos Low, Heroes e Lodger, lançados entre 1977 e 79) e até o Bowie mais Techno do disco Earthling (1997) dá as caras por aqui.

E tudo isso se mistura numa coerência impressionante em 14 faixas vigorosas que mostram que o longo tempo afastado serviu para que ele recarregasse as baterias e voltasse cheio de vontade. A seguir, um faixa a faixa das 14 canções que formam a versão oficial do álbum, pois a ocasião merece:

O DISCO FAIXA A FAIXA

The Next Day: A faixa que abre e dá nome ao disco já causa uma excelente primeira impressão. Um Rock agitado, com guitarra forte e refrão grudento.

Dirty Boys: Suingada e pontuada pelo saxofone, tem aquela qualidade meio estranha (no sentido de ser uma música esquisita mesmo) que é tão característica a tantas canções de Bowie.

The Stars (Are Out Tonight): O segundo single do disco e uma de suas grandes canções. Rock acelerado, com uma excelente guitarra solo e extremamente grudenta. Ótima.

Love Is Lost: Uma faixa mais devagar e climática, para dar uma desacelerada depois de The Stars (Are Out Tonight), com a forte presença de um órgão.

Where Are We Now?: O primeiro single do disco. Uma balada nostálgica do tempo em que Bowie morou na Alemanha, cheia de referências a lugares que ele frequentava em Berlim e cantada com uma voz propositalmente fragilizada. Não gostei muito quando ouvi pela primeira vez, mas é o tipo de faixa que cresce horrores a cada nova audição.

Valentine’s Day: Novamente a guitarra como elemento principal e backing vocals estranhos, outro elemento que sempre esteve presente durante boa parte da carreira do artista. Boa faixa.

If You Can See Me: Nervosa e pesada, é essa que tem uma batida que lembra a sonoridade mais eletrônica do disco Earthling.

I’d Rather Be High: Outro grande destaque do disco, e mais uma das minhas favoritas. Dona de uma guitarra hipnótica e extremamente assobiável, muitas bandas venderiam a alma a Bafomé para tê-la em seu repertório.

Boss of Me: Novamente o sax dá as caras, num Pop sofisticado que remete mais à sua fase Dance oitentista, da época dos discos Let’s Dance (1983) e Tonight (1984).

Dancing Out in Space: Acelerada e climática. Fase Scary Monsters total.

How Does the Grass Grow?: Mais um destaque, essa também da fase dançante, com um bom refrão.

(You Will) Set the World on Fire: Outra faixa mais pesada e levada pela guitarra. Tem um clima de Rock Indie, o que não é nada mal.

You Feel So Lonely You Could Die: Apenas a segunda balada do disco, dando as caras já perto do final. Em comparação com Where Are We Now? é apenas ok, com um piano bonito.

Heat: O encerramento se dá com uma música de clima soturno e andamento mais arrastado, bastante estranha em comparação com o resto do tracklist. É mais uma que parece ter saído direto da época da trilogia de Berlim.

CONCLUSÃO

Isso é o que eu chamo de um retorno em grande estilo. Não só é um de seus melhores trabalhos, como também um dos melhores discos de Rock recentes. Ainda bem que o veterano Bowie decidiu voltar à ativa para ensinar as bandinhas mequetrefes da atualidade como é que se faz. Aos 66 anos de idade, David Bowie continua talentoso como nunca. Não é à toa que existe uma palavra que define artistas de seu calibre: gênio.