Faz muito tempo que ouço falar de A Revolução dos Bichos, clássico livro infantil de George Orwell. Sempre tive algum interesse em conhecê-lo, mas não o suficiente para ir atrás da obra original. Felizmente, para me ajudar nisso, o eterno Gollum, Andy Serkis, resolveu fazer uma adaptação para cinema.

CRÍTICA A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Eu sabia do teor político do livro, mas na minha cabeça brasileira, esperava uma coisa meio Saltimbancos. Tipo uma mensagem “união faz a força” ou algo assim. Algo que realmente justificasse o titulo brasileiro. Na verdade, A Revolução dos Bichos é um tratado econômico, simplificando para as crianças como algumas das formas econômicas modernas surgiram.

Aqui acompanhamos uma fazenda com animais que se sentem explorados pelos seres humanos. Quando descobrem que estão sendo levados para o abatedouro, iniciam uma revolução. Esta revolução do título brasileiro é apenas o início do filme, e termina com os animais ficando responsáveis pela fazenda. Liberdade, finalmente, certo? Mas não existe liberdade sem trabalho. Ele é, porém, muito mais digno do título gringo, Animal Farm.

Assim, eles começam a fazer a fazenda andar da forma mais justa possível. Todos trabalham. Todos comem. Tudo é de todos e parte da comida produzida é guardada para o inverno. Tudo vai bem, até que alguém resolve ser babaca.

SEMPRE TEM UM BABACA

Como sempre, tem um sujeito que se acha especial. Um sujeito que não gosta de trabalhar e que quer comer à vontade agora, não depois. Este sujeito manipula os mais fracos para transformar o regime em algo capitalista. E, como acontece na vida real, o primeiro a ser babaca é o que vai acumular mais riquezas. E depois tirá-lo do alto de seu trono vai ficar bem difícil. Vide Elon Musk que, por ter herdado o dinheiro da sua família de babacas, hoje tem riqueza suficiente para doar um bilhão de dólares para cada ser humano e ainda se manter mais rico do que todos.

Infelizmente, tem gente que defende o Elon Musk na vida real, e isso é refletido em A Revolução dos Bichos. Já dizem por aí que o sonho do oprimido é se tornar o opressor. Se ele conseguiu, eu também consigo. E a gente prefere acreditar nisso, mesmo sem ter coragem e vontade de fazer o que o colocou naquela posição que invejamos. Especialmente quando essa posição vem depois de gerações de exploração dos mais fracos e manipuláveis.

Talvez por isso na vida real quem tem mais educação tende à esquerda, enquanto os menos escolarizados tendem à direita. Isso gera aquela dicotomia do rico comunista e do pobre capitalista, que é um absurdo, mas não quero dar a impressão que tenho uma solução para isso. As coisas são como são, e estamos muito enfiados nesse buraco para conseguir sair facilmente.

FAZENDA DE ANIMAIS

É um assunto rico, que gera muitos debates. Talvez nenhum dos lados esteja certo, mas ambos reagem ao outro de forma instintiva e agressiva. Fica difícil conversar com alguém que só grita ou que se recusa a ouvir. E daí a gente continua dividido entre os exploradores e os explorados, mesmo todos sabendo que o mundo ideal para todos seria um em que ninguém aceita ser explorado e nem deseja explorar.

Particularmente, acho legal que A Revolução dos Bichos, este desenho que hoje critico, tenha inspirado um texto como este. Mas ele também pode ser assistido apenas como uma historinha comum. Afinal, Hollywood contar histórias esquerdistas é a coisa mais comum que existe, mesmo a maioria lá sendo muito mais rico do que você ou eu. E voltamos ao fato de que as pessoas mais ricas e com maior escolaridade tendem à esquerda. A não ser aqueles que se orgulham de ser exploradores, como Trump, Musk, Bolsonaro e Zuckerberg. Estes sabem que exploram e querem continuar lá. Dispostos a manipular sua enorme massa de minions para defendê-los sem saber o que de fato estão defendendo.

Apesar da inspiração na redação, o desenho A Revolução dos Bichos acaba sendo uma historinha de criança comum e um filme um tanto entediante para adultos. O lado positivo é que ele pode incentivar uma conversa sobre esses assuntos com as crianças da sua vida. E fazê-las ver as coisas como são antes que seja tarde demais.

REVER GERAL
Nota:
Artigo anteriorReview Bubsy 4D: pra onde foi o D extra?
Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
critica-a-revolucao-dos-bichos-reviewTítulo original: Animal Farm<br> País: Reino Unido, Canadá, EUA<br> Ano: 2025<br> Duração: 1h35m<br> Distribuidora: Paris Filmes<br> Direção: Andy Serkis<br> Roteiro: Nicholas Stoller<br> Elenco: Seth Rogen, Gaten Matarazzo, Steve Buscemi<br>