Alguns filmes pretendem ser inteligentes, mas simplesmente carecem do estofo necessário para tal. É o que senti com Eu Não Te Ouço. Ele até é bem sucedido na mensagem que quer passar. O problema é que simplesmente não se aprofunda no problema que deseja analisar. No caso, a divisão política que se instaurou no nosso país nos últimos anos.
CRÍTICA EU NÃO TE OUÇO
Eu Não Te Ouço tem apenas um cenário e um ator, ainda que dois personagens. Conhecemos um motorista de caminhão e um outro sujeito que, hilariamente, resolveu grudar na parte da frente do caminhão e ficar ali durante a viagem toda. Ambos são interpretados pelo Márcio Vito. O diretor Caco Ciocler faz uma ponta de voz como alguém que entrevista os dois personagens, mas que pode ou não existir no mundo do filme.
A pegada é que tanto o motorista quanto o carinha grudado no caminhão têm ideias políticas diferentes. Como você sabe, a turma que apoia a direita usa apenas roupas com as cores da bandeira brasileira, e é assim que você identifica o apoiador do Bolsonaro no filme. Porque tirando isso, eles são, na maior parte do tempo, bastante parecidos. Ambos odeiam o outro lado, embora o motorista, que tende à esquerda, pareça um tanto mais moderado. Enquanto isso, o verde-amarelo fica falando como vai ser um herói e nunca mais vai precisar pegar filas por causa do que está fazendo. Ele também conta mentiras bem claras como se fosse verdade.
NEM TODO MUNDO É BONZINHO
Vale o elogio ao ator Márcio Vito, que eu sinceramente demorei para perceber que fazia os dois personagens. A ideia do filme, que fica bem clara pelo uso do mesmo ator para fazer os dois lados, é que somos todos brasileiros e, portanto, todos iguais. Precisamos aceitar conversar para chegar a um meio termo e levar o Brasil para frente. Normalmente, eu concordaria com esta mensagem. Mas como diz o motorista, como você vai conversar com alguém que simplesmente quer que você não exista?
E este é um ponto que nunca é elaborado. O filme termina com ambas as partes demonstrando que estão há anos se recusando a conversar com a outra. Mas não vai muito além disso. Creio que este não é um momento para fingir imparcialidade. Se um lado – ou mesmo os dois – mentem e tentam crescer incentivando o ódio, é isso que precisa ser mostrado. Não fingir que todo mundo quer o melhor para o país e sugerir que eles se entendam. Porque este simplesmente não é o mundo em que vivemos em 2026. E, ao fingir que é, Eu Não Te Ouço se torna justamente o que não gostaria de ser: um filme vazio.

































