2 Coelhos

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2 Coelhos é um filme que ganhou total aprovação aqui do Oráculo assim que o material de divulgação e a sinopse oficial dele foram liberados. Isso porque ele se propôs a fazer algo diferente do que esperamos do cinema brasileiro, tipo aquelas temáticas batidas que tanto criticamos por aqui. Além disso, ele é voltado para o público jovem, ou seja, parecia tudo o que sempre quisemos do cinema nacional.

Tá duvidando? Saca só a sinopse: Edgar (Fernando Alves Pinto) é um paulistano comum que se cansa de viver com um monte de bandidos assaltando, roubando e matando enquanto vários políticos safados continuam roubando, sendo incompetentes e ainda saindo impunes. Segundo o instituto DataDelfos, cerca de 99,99% dos brasileiros da classe média se sentem assim. Bem, o que Edgar vai fazer para resolver essa situação? Ele vai dar um jeito de colocar os criminosos contra a politicagem. Hell, yeah, bitch!

2 Coelhos é realmente bom, como o delfonauta deve imaginar pela nota ao lado, mas ele é também um pouco diferente do que nós esperávamos. A sinopse cria a expectativa de que Edgar vai colocar um grupo de criminosos contra vários políticos, quando na verdade não é bem assim. O protagonista prepara um plano contra um político específico, e usa bandidos que já tiveram um impacto negativo em sua vida para fazer isso. Não dá para falar mais sobre a trama, porque boa parte da graça do longa está em como os personagens são apresentados e se relacionam uns com os outros.

AÇÃO, DRAMA, ROMANCE, WTF

Outra surpresa é como 2 Coelhos mistura vários gêneros e influências. Este é o primeiro longa-metragem do diretor Afonso Poyart, e ele trouxe muita coisa que gosta para o filme. O cara é fã de Guy Richie, Tarantino, Christopher Nolan, entre outros, então espere por uma narrativa e estéticas bem próximas à desses diretores. O filme intercala cenas de animação com live-action, não muito diferente de Scott Pilgrim Contra o Mundo ou de Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras.

Não para por aí. Edgar narra durante todo o filme o seu plano para derrubar os criminosos e a importância de cada personagem novo que é apresentado. Isso é bastante semelhante ao que o Capitão Nascimento faz em Tropa de Elite 2. Também há uma influência forte de Cidade de Deus, filme pelo qual o diretor tem paixão declarada, nos momentos em que os bandidões aparecem.

Essa mistura toda poderia não dar certo, mas o ritmo dinâmico da narrativa e o roteiro bem amarrado mantêm tudo interessante durante o filme inteiro. Outra coisa muito legal é que é muito fácil se identificar com os personagens principais, pelo jeito que eles se sentem e pelas situações que passam. Gostei também das atuações. De uma maneira geral, os atores se saíram bem, e poucos deles não convencem. O fato de que o filme inteiro se passa em São Paulo também ajuda bastante na identificação, e foi bem bacana ver a cidade estilizada de forma opressora e agressiva, como a maioria de nós sempre a viu. =)

O que eu mais gostei, no entanto, é de como o filme abusa do humor negro e do politicamente incorreto sem cair em piadas de extremo mau gosto ou de violência gratuita demais, com exceção talvez de uma cena. Sério, os caras são muito bons nisso, e eu não vi absolutamente nenhum humor sem graça no longa. Só o fato de não ter uma fuckin’ música funk no filme inteiro já me faz louvá-lo eternamente.

O INTERTÍTULO DOS PROBLEMAS

Infelizmente, o filme tem alguns defeitos. A narrativa começa com uma cena do meio da história, um clichê muito batido e frequente. A impressão que fica é que eles a usaram apenas para chocar o espectador logo no começo, porque é uma cena muito forte e não tão essencial para a história, como em outros longas que utilizam esse recurso. O roteiro também é não linear, o que torna os personagens um pouco imprevisíveis, mas às vezes isso incomoda quando algumas partes da história são explicadas demais quando não é necessário.

Todos esses são problemas menores. O que me fez diminuir a nota foi o final muito repentino. Parece até que foi feito assim para acabar logo com o filme. SPOILER MÉDIO Seria muito mais interessante separar aquele casal do que mantê-los juntos, já que a união deles não faz o menor sentido (bem, pelo menos para mim). FIM DO SPOILER MÉDIO

De qualquer forma, 2 Coelhos é um filme bem divertido, que mesmo que peque em aspectos conta com uma estética muito legal, humor, ação em dose suficiente e uma temática bem diferente. Nunca vi no cinema nacional explosões tão belas como neste filme. Lindo, delfonauta! Precisamos de mais filmes assim, e só pela proposta, 2 Coelhos vale o ingresso.

CURIOSIDADES E INFORMAÇÕES EXTRAÍDAS DA COLETIVA DE IMPRENSA:

Desta vez decidimos publicar as informações da coletiva de imprensa junto com a resenha por motivos que não iremos revelar de forma alguma na verdade, como a programação de janeiro está cheia de coisas legais, resolvemos fazer apenas a resenha para podermos dar mais destaque a outras matérias também importantes. Ah, na galeria você confere as fotos da coletiva, com os principais atores do filme e o produtor, diretor e roteirista Afonso Poyart. E aqui vão as curiosidades:

– O filme, em especial o começo dele, tem várias referências a GTA e a videogames em geral. Uma cena bacanuda lá pelo meio do longa me lembrou bastante as batalhas de Scott Pilgrim Contra o Mundo.

– Foi revelado na coletiva que o orçamento da produção do filme foi de quatro milhões de reais. Holy fuck! O diretor até disse que ficava revoltado por nós termos o potencial e recursos para criar filmes de temáticas diferentes, e que não acredita que apenas as comédias podem fazer sucesso. Esse é o espírito. A gente também está cansado do cinema nacional monotemático.

– Continuando as críticas ao cinema brasileiro, Afonso afirmou que talvez o ideal seja misturar “filme arte” com entretenimento. Já a atriz Alessandra Negrini disse que o filme é bastante autoral, e tem quase cara de uma produção indie. Acredito que 2 Coelhos se enquadre bem na descrição do diretor.

– As músicas foram escolhidas de acordo com o gosto pessoal de Afonso Poyart. São elas: Kings & Queens do 30 Seconds to Mars, Será que é Disso que Eu Necessito dos Titãs, Imbecil do Matanza, I’m Still Here de Tom Waits e Sou Foda dos Avassaladores.

– Sérgio Farjalla cuidou dos efeitos especiais da pós-produção. Ele tem no currículo trabalhos para Os Mercenários, Tropa de Elite e Velozes e Furiosos 5.

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