Love – A História de Lisey é Stephen King em modo romântico

O mestre do terror também ama.

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Delfos, Love, A História de Lisey

Stephen King é conhecido como o mestre do terror, mas neste livro mostra que até ele possui uma verve mais romântica. A editora brasileira resolveu realçar ainda mais este elemento metendo um Love no título que não existe no original, tornando este um surreal caso de adaptação para o português usando uma palavra em inglês! Vai ver eles acharam que Amor – A História de Lisey ficaria muito cafona, ao contrário do sempre chique (atenção para a ironia) Love

Imbecilidades de tradução à parte, é verdade que este é um livro muito mais focado numa história de amor do que a maioria das obras do autor, mas sendo o sujeito em questão ainda Stephen King, claro que vai haver muita coisa macabra aí no meio para dar um tempero extra.

Como o título já diz, esta é a história de Lisey, viúva de um escritor famoso. Mesmo dois anos após a morte do truta, ela ainda não se acostumou a viver sozinha e também não terminou de organizar as coisas do finado marido, sendo que tem muita gente interessada nos possíveis livros inéditos que ele possa ter deixado no meio de sua imensa papelada.

Infelizmente, esses possíveis textos não publicados atraem não só acadêmicos, mas também um maluco perigoso que passa a ameaçar Lisey. Além de ter de lidar com o desequilibrado, ela vai relembrar os bons e maus momentos vividos ao lado do marido, revelando segredos do passado dele, e também descobrir que toda sua criatividade vinha de um lugar bastante específico, um lugar físico, e que pode não ficar exatamente em nosso mundo.

A parte romântica realmente é o destaque deste trabalho e King constrói muito bem a relação do casal, bastante palpável, com anedotas, expressões e apelidos próprios, bastante característicos de uma longa intimidade. E mesmo com Scott Landon, o marido, morto desde o começo, ele é um personagem muito presente e essencial para o andamento da história.

Delfos, Love, A História de Lisey

Já quando entram os elementos de terror propriamente ditos, detectei o que pode até ser considerado uma divisão neste romance. Toda a trama do maluco “stalkeando” Lisey é King típico, com tensão lentamente construída através de longas preparações até que algo horrível finalmente aconteça.

Os elementos do mundo fantástico de onde Scott tira as inspirações para seus livros, contudo, me lembraram muito mais o trabalho do inglês Clive Barker, o principal concorrente de Stephen King no campo da literatura de horror contemporânea. São seus livros, e não os de King, que geralmente apresentam personagens atravessando para outros mundos, cheios de maravilhas e horrores em igual medida.

Claro, King não é nenhum estranho a essa característica específica, e a série A Torre Negra é o maior exemplo disso, mas geralmente, fora da série em questão, não costuma se aventurar muito nesse tipo de trama. Outra coisa que deixa este livro mais próximo da obra de Barker são algumas passagens de violência quase gore, o que nunca foi muito a praia de Estevão Rei.

Mas no romance, até pela temática do escritor famoso e do mundo literário que o cercava, há muitas citações a outros autores e outros livros, então é bem capaz que isso tenha sido premeditado como uma homenagem. Vale lembrar que os dois são amigos e o próprio King considera Barker seu sucessor. Ou claro, pode ser tudo viagem da minha cabeça, embora a primeira teoria seja muito mais interessante.

Seja como for, Love – A História de Lisey é um dos livros recentes mais bacanas de King, com ele abordando e dando sua visão peculiar a uma temática que não costuma abordar com tanta frequência (as histórias de amor), e também exercitando seu bom e velho terror a partir de elementos diferentes. Tudo isso contribui para tornar o romance uma leitura divertida, cheio de momentos inesperados. Mais um bom livro, cortesia do mestre do terror, aqui também um tanto romântico.

CURIOSIDADE:

– O livro foi publicado no Brasil pelas editoras Objetiva em 2008, Ponto de Leitura, em formato de bolso (versão analisada nessa resenha), em 2011 e Suma de Letras em 2012.