Doutor Sono

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Continuações tardias de obras adoradas são sempre algo controverso e, muitas vezes, fadado a não só falhar em repetir o sucesso do original, como às vezes até arranhar sua aura. Frank Miller e seu O Cavaleiro das Trevas 2 que o diga.

Stephen King se meteu nessa sinuca de bico quando inventou de, 36 anos depois, lançar a continuação de O Iluminado, um de seus romances mais lembrados e adorados, um verdadeiro clássico da literatura de terror.

Todo mundo sabe que hoje o cara não é mais o dínamo de boas histórias que já foi outrora. Estaria ele então tentando recuperar parte do prestígio (e das vendas) perdido ou ele realmente tinha uma história na cabeça que merecia colocar no papel? Analisando friamente, Doutor Sono, a continuação em questão, é bom e não estraga o legado de O Iluminado. Mas também não é uma obra indispensável que vá fazer o Joey colocar o livro no freezer de medo:

Seja como for, King mostra um Danny Torrance (agora atendendo por Dan) adulto e marcado pelas horríveis experiências de sua infância no Hotel Overlook. Trabalhando em casas de repouso para idosos, usa seu dom da iluminação para ajudar os moribundos a fazerem a passagem para o outro plano da existência em paz e tranquilidade.

Também vai conhecer Abra Stone, uma menina com um grande poder de iluminação, o que acaba por atrair a atenção de um grupo de criaturas que se alimentam desse poder para prolongar suas vidas, e andam pelo país procurando crianças iluminadas para lhes servirem de petiscos. Dan ajudará Abra a escapar e combater esse pessoal nefasto.

No geral, é um típico livro da leva mais recente de Stephen King, no sentido de que a história é ok, mas nada que ele já não tenha explorado antes com mais tesão e pegada. A essa altura, ele já conhece todos os truques e manhas do estilo e acaba passando certa sensação de que está orquestrando tudo no piloto automático.

Diverte, a leitura flui numa boa e prende a atenção. Mas falta um pouco de alma, e também de tentar surpreender o leitor. Não há grandes acontecimentos ou reviravoltas, tornando a trama bem linear e até mesmo sem grandes ou emocionantes conflitos.

REDRUM

Pode parecer até discrepante eu estar falando tudo isso e ter dado generosos quatro Alfredos para o livro, mas há um motivo. E é principalmente por seu começo. De fato, ele abre muito bem, e por algumas páginas cheguei a ter a sensação de que ele realmente conseguiria ser tão bom quanto seu antecessor.

Isso porque ele começa exatamente do ponto onde O Iluminado parou, para contar o que aconteceu a Danny e Wendy após os eventos do Hotel Overlook. E depois foca em Danny, mostrando como ele acabou traumatizado e muito mais parecido com o pai do que imaginava.

Essa decisão de narrar trechos da vida de Dan mostrando como seu poder e a temporada no hotel destruíram sua vida e o jogaram no fundo do poço é realmente poderosa e tinha tudo para se tornar uma história até bem melancólica, novamente tratando de fantasmas internos, assim como O Iluminado na realidade tratava (era sobre o alcoolismo de King).

Mas quando Abra entra na trama, transformando-a numa relação entre pupila e mentor, a coisa fica bem menos interessante, e o livro se torna muito mais mundano, perdendo tudo de especial que havia apontado em seu começo, ficando mais uma leitura descompromissada padrão de Stephen King.

Difícil acreditar que ele preferiu seguir esse caminho que já tomou tantas vezes em tempos recentes a fazer algo ao mesmo tempo diferente e que revisitasse seu começo de carreira muito mais poderoso. Tinha a chance claramente nas mãos e, ou preferiu desperdiçá-la, ou sequer percebeu que a tinha.

Mesmo assim, como disse, o livro ainda diverte, vale a leitura, não é preciso ter lido O Iluminado para entendê-lo e não estraga as boas memórias que eu tenho de seu antecessor. E muito embora tenha sido o romance do autor que eu mais me empolguei para acompanhar recentemente, fica claro que poderia ter apresentado muito mais do que acabou entregando, e os primeiros capítulos são uma prova disso.

Desta forma, quem gostou de O Iluminado e fãs do autor em geral têm boas chances de apreciar Doutor Sono, desde que, claro, guardadas as devidas proporções. Afinal, um dos livros é um clássico. O outro é uma continuação tardia que não chega aos pés do original, mas também não compromete e funciona bem dentro de suas limitações. Já está de bom tamanho.

CURIOSIDADE:

– Para aqueles que estão a fim de ler Doutor Sono, mas ainda não leram O Iluminado, a editora Suma de Letras resolveu o problema lançando também um box contendo os dois livros.