King Diamond – Abigail

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Fazia um bom tempo que eu não resenhava um disco, devido aos motivos citados nesta resenha. No entanto, lendo aquela discussão nos comentários da resenha de Planeta dos Macacos: A Origem, fiquei motivado a escrever sobre o tema do disco House of God, do King Diamond, que tem um ponto de vista interessante sobre a religião cristã.

Acontece que o Corrales recomendou que eu resenhasse o CD Abigail, o mais importante disco do vocalista dinamarquês, e que serve como uma ótima introdução à banda. Como o chefe mandou tem razão, aqui estou, com um parágrafo de atraso, resenhando o álbum mais importante, famoso e considerado por muitos o melhor trabalho do vocalista King Diamond. Abigail está no mesmo nível de importância para a carreira do seu criador que Master of Puppets, The Number of the Beast e Painkiller estão para suas respectivas bandas (que você sabe muito bem quais são, claro). Ele é o ponto de partida para várias pessoas, embora não seja tão popular como esses outros discos. E é por este motivo que vamos falar de Abigail hoje, e não mais do mediano, embora interessante, House of God.

ABIGAIL, EU VOU CONTAR SUA HISTÓRIA, ABIGAIL

O vocalista King Diamond fez muito sucesso no começo dos anos 80 no Mercyful Fate, mas essa banda acabou por divergências musicais. Em 1986, ele começou sua carreira solo com o disco Fatal Portrait, que contava com alguns músicos remanescentes de sua antiga banda e outros novos: o brilhante guitarrista Andy LaRocque e também o baterista Mickey Dee, que entraria no Motörhead anos mais tarde). Essa formação se manteve para o próximo LP, Abigail.

Lançado em 1987, este é o segundo disco do King Diamond e inaugura uma coisa nova para o heavy metal: o álbum, conceitual, conta em suas nove músicas uma história de terror criada pelo vocalista. Desde então, todos os seus discos (com exceção do The Spider’s Lullabye) seguem a mesma fórmula.

A criatividade musical do disco é tamanha que até hoje não há álbuns que soam como Abigail. O diferencial do metal dos anos 80 é que os músicos não tinham um “manual” de como se fazer heavy metal, então havia muitos elementos diferentes nas composições, sem falar naquela “vontade” de fazer algo novo e especial que os músicos tinham. Abigail exala isso do começo ao fim.

Apesar de ser facilmente classificado como um disco de heavy metal clássico, a atmosfera do álbum é única. O que é mais memorável neste CD, em minha opinião, são as melodias. King Diamond é um mestre em criar melodias de guitarra e vocais muito originais, e é daí que vem sua diferenciação da maioria de bandas do gênero. A introdução de Arrival, por exemplo, tem um riff com a cara do Iron Maiden, que depois dos anos 80 foi feito milhares de vezes, mas as melodias dessa e outras músicas tornam a experiência bem diferente de qualquer outro CD de heavy metal. E não pense que não há riffs aqui que dão conta do recado sozinhos, porque eles são muitos bons, originais, e em grande quantidade.

ABIGAIL, EU SEI QUE VOCÊ CONTROLA O CÉREBRO DELA, ABIGAIL

King Diamond é uma das poucas bandas de metal cujas letras estão no mesmo nível de importância da música. Neste disco, a história de terror é assim: Count de la Fey descobre que sua mulher carregava em seu útero um bebê que não era dele. O conde faz com que Abigail nasça morta e, para evitar que o mal se manifeste no bebê natimorto, a prega com a ajuda de outros seis cavaleiros em um sarcófago.

Quase um século mais tarde, Jonathan herda a mansão do conde e resolve se mudar junto com sua esposa no mesmo mês do nascimento natimorto de Abigail. Mesmo após avisado pelos fantasmas dos sete cavaleiros para não entrar na mansão, o casal teima e vai em frente. Miriam começa a ser possuída pelo espírito de Abigail e, depois disso, a coisa fica bastante feia para o casal.

Agora vamos a alguns breves comentários sobre cada uma das músicas do disco:

Funeral: Essa é apenas uma introdução, muito parecida com a abertura de Fatal Portrait (o primeiro disco do vocalista), mas por algum motivo a acho bem especial. Ela realmente ajuda a criar o clima de terror e magia de Arrival, a primeira música do disco.

Arrival: A música que começa o clássico mais famoso de King Diamond é brilhante. A transição dos vocais em falsete extremamente exagerados com os em tom de suspense, meio macabros, é excelente. Os riffs dessa música são fantásticos também, e recomendo prestar atenção na parte do meio. Como o próprio nome diz, nessa faixa, Jonathan e sua esposa, Miriam, chegam à mansão herdada e são avisados pelos cavaleiros para não adentrarem a nova residência, senão, “18 será nove” (isso é uma metáfora das idades de Abigail e Miriam). Se tem uma música que pode fazer você facilmente se tornar um fã do vocalista, é essa aqui.

A Mansion in Darkness: Não sei o motivo, mas acho que A Mansion in Darkness tem a maior cara de trilha sonora de videogame, especialmente durante sua introdução. O destaque aqui são as melodias de guitarra e vocais, além do solo. É talvez a música mais diferenciada do CD e nunca ouvi absolutamente nada próximo ou igual a essa. Outra das minhas favoritas.

The Family Ghost: Ficou mais conhecida por causa do hilário videoclipe, que você pode ver mais abaixo. É uma das músicas menos “místicas” do disco e também a mais divertida. Na história, Jonathan encontra o fantasma do Count de La Fey enquanto Miriam dorme. Péssima ideia, cara.

The 7th Day of July 1777: Para mim, outro grande destaque do disco. Adoro os riffs, o ritmo e as harmonias de guitarra. Pelo que vejo por aí, não é uma das mais lembradas do CD, o que é uma pena. Engraçado como essa música é mais triste, mas não deixa de ser empolgante e cadenciada. Difícil fazer algo assim.

Omens: O mais marcante aqui é a voz fantasmagórica de King Diamond e aqui ele está cheio de “frescuras”, especialmente no refrão.

Possessed: Lembro que demorei bastante para me acostumar com a performance excêntrica de King Diamond nesta aqui. Os falsetes são muito exagerados. Hoje, é uma das minhas favoritas (se é que isso é possível com tantas músicas boas). Na história, a coisa está feia para Jonathan neste momento, com Miriam tendo sido possuída pelo espírito de Abigail (a-há!).

Abigail: A faixa-título é talvez a mais conhecida do álbum, junto com The Family Ghost. Acho muito legal o jeito que King Diamond incorpora o personagem nessa música, como se estivesse conversando com ela (é daí que saíram os intertítulos desta matéria). A interpretação dele é tão boa que passa os sentimentos dos personagens em cada palavra. A música serve também para situar o ouvinte na história que ele está contando. Essas características ficaram ainda mais fortes nos CDs subsequentes a este.

Black Horsemen: Para encerrar o CD, temos uma música que destoa um pouco das outras, não em qualidade, mas em estilo mesmo. Black Horsemen tem sete minutos e sua parte acústica inicial poderia estar em Them ou Conspiracy, que saíram depois de Abigail. Não gosto tanto dessa como das outras, mas ela fecha muito bem o álbum.

Shrine, bônus de todos os relançamentos: além das nove faixas originais, King Diamond e cia compuseram uma música a mais que acabou não indo para o álbum original porque a letra não tinha nada a ver com a história do disco. Pessoalmente, eu a considero menos original do que todas as outras – consigo imaginar outra banda compondo Shrine, coisa que não acontece com as outras músicas do álbum. Mesmo assim, é uma música bem legal, com riffs cavalgados que lembram o Iron Maiden e o solo final é muito bom também.

ABIGAIL, SEUS FALSETES SÃO ALTOS DEMAIS, ABIGAIL

Abigail é bastante acessível em todos os aspectos possíveis, com exceção da voz de King Diamond. Ela é extremamente peculiar e eu levei MUITO tempo para me acostumar com ela (alguns anos, na verdade!). Por muito tempo, ignorei a banda por não gostar do falsete exagerado do vocalista e foi só com este disco que passei a aceitar e entender a voz dele.

É uma experiência diferente ouvir a banda quando se sabe qual personagem King Diamond está interpretando a cada momento e, assim sacar porque sua voz soa mais “exagerada” algumas vezes.

Existem alguns álbuns especiais que criam um sentimento diferente quando você os ouve de início ao fim, prestando atenção nas letras e vivenciando cada nota. É como se o conjunto das músicas formasse algo a mais. Abigail é, definitivamente, um desses álbuns. Um dos maiores clássicos do heavy metal e até hoje único, é um favorito aqui na equipe também, e eu sei que o Corrales e o Guilherme Viana o adoram. Então, fica a dica de três delfianos para o disco. Se curtiu, pode esperar por mais resenhas do vocalista e não se esqueça de opinar nos comentários!