Cosmópolis

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David Cronenberg, cineasta conhecido por vários filmes com alto teor nerd, como A Mosca e Videodrome, há muito se afastou de suas raízes e hoje em dia faz filmes que em quase nada lembram seus trabalhos mais voltados à ficção científica. Obviamente, Cosmópolis está mais para Um Método Perigoso do que para A Mosca, mas a boa notícia é que é o melhor filme do diretor em anos. Isso mesmo tendo o vampiro fluorescente de Crepúsculo no elenco.

Robert Pattinson aqui não mostra suas habilidades de brilhar ao sol, até porque passa quase o filme inteiro dentro de sua limusine. Ele é um trilhardário que resolve cortar o cabelo em um dia que o presidente está na cidade, várias ruas estão fechadas e todas as outras estão congestionadas e, para completar, ele ainda é informado por seus seguranças da possibilidade de atentados à sua vida. Mas quem se importa? Ele precisa cortar o cabelo!

Essa sinopse já fala muito do personagem. Com um quê de Howard Hughes, ele é um cara não apenas teimoso, mas totalmente entorpecido e, ao contrário do Pink Floyd, não parece confortável com isso.

No decorrer de sua viagem, várias pessoas vão entrar e sair em sua limusine. Cada uma delas tem um assunto totalmente independente, o que dá ao filme um sabor de “esquetes não cômicas”. As constantes são apenas as ameaças ao protagonista e a importância que este dá ao seu corte de cabelo. Todas as outras histórias terminam no momento que o sujeito que as trouxe sai da limusine.

Sim, este é um filme de diálogos, que lembra em parte a obra do Richard Linklater. Mas tem um porém. Richard Linklater consegue abordar temas densos e importantes sem parecer pedante. O mesmo não pode ser dito de Cosmópolis.

Os assuntos abordados aqui são dos mais variados. Do papel da sociedade ao capitalismo. Da efemeridade da vida à efemeridade da economia. De anarquia a ratos. Boa parte deles é nada menos que fascinante, mas a forma como as conversas são conduzidas faz com que elas estejam sempre caminhando naquela tênue linha que separa o intelectual positivo do pedante.

Como uma aula de filosofia, que pode ser revigorante e empolgante, mas com uma falha na condução do professor, pode se tornar chata e enfadonha. Este é Cosmópolis, e infelizmente ele chega a cruzar a linha para o lado negativo, em especial após cerca de ¾ do filme. Felizmente, no diálogo final, o filme volta a ser excelente, e termina de forma espetacular.

Ele também falha quando tenta fazer as coisas acontecerem. Em determinado momento ocorre um assassinato que é tão inesperado quanto gratuito e sem sentido. E a total ausência de repercussões o torna ainda mais falho. O próprio momento no barbeiro, para o qual o filme veio construindo em toda sua projeção também falha ao ser interrompido sem nenhum motivo ser apresentado ao espectador.

A direção vale destaque. Eu diria até que neste quesito este é um dos melhores trabalhos de Cronenberg. As atuações também são excelentes, como tem que ser em um filme levado por diálogos. O ponto fraco, claro, é o próprio Robert Pattinson. Pelo menos seu personagem é tão entorpecido quanto o ator, o que torna sua falta de emoções mais explicável, mas ainda assim o filme ganharia muito com um ator de verdade o protagonizando.

No final das contas, Cosmópolis é um filme excelente, que poderia ser fantástico se passasse pelas mãos de um editor mais implacável. Cortando uns 20 minutos de filme, ele poderia ser realmente especial. Ainda assim, se você está a fim de um filme mais cabeça e cheio de diálogos densos, é uma ótima pedida.

CURIOSIDADES:

– Quem diria? Existe um município brasileiro chamado Cosmópolis! Existem delfonautas de lá?