V de Vingança

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Leia também o restante do nosso especial V de Vingança:
Crítica da HQ que inspirou o filme
O azar de Alan Moore no cinema

As adaptações de quadrinhos de Alan Moore nunca foram tratadas com o devido respeito no cinema. Por isso, estava meio receoso quanto a V de Vingança, um dos maiores clássicos do barbudo inglês. Minha esperança residia no envolvimento dos manos Wachowski (de uma tal trilogia Matrix) no projeto, encarregados do roteiro (que já carregam na pasta há muito tempo) e da produção.

Fico feliz em dizer ao amigo delfonauta que V de Vingança não apenas acabou com a maldição de filmes ruins baseados na obra de Moore, como é sério candidato a um dos melhores do ano que está apenas começando cinematograficamente.

Ele respeita a fonte fazendo eventuais alterações necessárias e outras que, mesmo não sendo estritamente obrigatórias para a obra funcionar como filme, são até bem-vindas à trama, para deixá-la mais dinâmica às mudanças da tecnologia e também à nova situação sócio-política (lembre-se que a HQ começou a ser escrita em 1981). Tudo isso torna o filme um entretenimento de primeira, mas com pesadas críticas embutidas.

Para quem não conhece a história, vamos à nossa tradicional sinopse: num futuro distante, o panorama geopolítico mundial mudou bastante. Guerras e uma epidemia virótica quase destruíram a humanidade. Na Inglaterra, o político Adam Sutler (John Hurt, de Hellboy) se aproveita do desespero da população para, com seu programa de governo emergencial, chegar ao poder. Em alguns anos, a ilha britânica vira a maior potência mundial, mas a um alto preço: a perda das liberdades civis. Sutler instaura uma ditadura aonde os cidadãos são constantemente vigiados (ecos do livro 1984, de George Orwell. Compre aqui) e mantidos na ignorância pela manipulação dos meios de comunicação.

É neste cenário negro que o filme começa, com a mascarada figura do homem conhecido apenas como V (Hugo Weaving, do qual falarei mais para frente). Após salvar Evey Hammond (Natalie Portman) de uma grande encrenca, ele a acolhe e lhe revela seus planos drásticos para trazer o cruel governo abaixo e devolver ao povo a capacidade de questionar as ações de quem teoricamente deveria representá-lo, não reprimi-lo.

O plano de V começa em 5 de novembro, o Dia de Guy Fawkes (em 1605, o senhor Fawkes tentou explodir o Parlamento como represália ao governo tirânico de James I, mas foi apanhado e morreu enforcado) e concluirá em exatamente um ano.

Enquanto isso, o outrora invencível governo começa a borrar as calças, pois não consegue capturar o “terrorista” e muito menos descobrir quem ele é. Mas nós, que somos deveras tremendões, sabemos que V não desafia o poder por puro altruísmo. Há também uma fria vingança planejada contra diversos membros do governo que no passado cometeram atos inomináveis contra a parcela “indesejada” (negros, judeus e homossexuais) da população inglesa, entre eles o homem que viria a se tornar V.

A respeito das alterações sobre a HQ, elas são poucas, porém significativas. Estão concentradas no começo e no final do filme, mas não posso falar sobre elas para não estragar nenhuma surpresa. Outras modificações menores visam dar uma modernizada na história, como o fato de Lewis Prothero, o homem conhecido como “A Voz de Londres” não ser mais um locutor de rádio e sim um apresentador de TV, responsável por discursos de propaganda do governo com a função de fazer uma “lavagem cerebral” na população.

Fora isso, Evey ganhou mais desenvolvimento com um passado mais claro e detalhes de sua vida antes de conhecer V sendo mostrados. E os policiais Finch e Dominic também ganharam uma participação maior. Outros aspectos continuam idênticos à graphic novel, sendo algumas cenas e diálogos absolutamente iguais aos quadrinhos.

O filme é longo (132 minutos), mas você nem sente o tempo passar devido à tamanha agilidade da narrativa – neste ponto o Corrales irá descordar de mim, pois ele acha que o filme esfria um pouco quando os policiais estão em cena – algo ainda mais espetacular devido ao fato da película ter poucas seqüências de ação. Isso não é negativo de forma alguma, a grande força da produção é mesmo sua história e o magnetismo do personagem V.

Hugo Weaving, firmando-se de vez como o novo ídolo nerd após ter participado de duas das maiores trilogias do cinema (Matrix e O Senhor dos Anéis), está simplesmente fantástico como V. Não, em momento algum você verá seu rosto na tela, pois V nunca tira sua máscara de Guy Fawkes, mas isso não é nenhum problema para Weaving. Já que ele não pode trabalhar suas expressões faciais, ele compensa com sua linguagem corporal e sua impostação de voz. Decididamente não é um papel para qualquer ator. Para segurar um filme inteiro sem mostrar a cara, só sendo muito bom.

Natalie Portman, também uma musa nerd (a nova trilogia Star Wars, Hora de Voltar e Closer – Perto Demais que o digam) está ótima como a jovem Evey, protegida de V. E olha que ela continua sexy e gostosa até careca!

Outro destaque do filme é a tal da única grande seqüência de ação. Lembra do bullet time em Matrix? Ele era composto por três elementos: a câmera lenta, o giro de câmera (na verdade, um efeito de fotografia still) e a visualização do deslocamento de ar causado pelos disparos. V de Vingança usa esta última característica, mas substitui as balas pelas adagas do herói.

É muito bonito ver o rastro do movimento das adagas de V antes dele fatiar algum infeliz que se meteu em seu caminho. Não é inovador, mas que é legal pra caramba, isso é.

A direção segura, a bela fotografia e o roteiro excelente completam o pacote. E por falar em roteiro, o filme todo pode ser visto como uma pesada crítica aos EUA. A volta do conservadorismo pelo medo, a manipulação da mídia com o pretexto de cuidar da segurança da população e a quebra de direitos civis são apenas algumas das coisas que acontecem no filme que, infelizmente não são pura fantasia, pois aconteceram nos EUA pós-11/9.

V de Vingança é uma daquelas misturas perfeitas de cinema de entretenimento com conteúdo (como Terra dos Mortos, por exemplo). Ele diverte e faz pensar. E até assusta saber que muito do que é mostrado está acontecendo (o caso dos EUA) ou já chegou a acontecer (a Alemanha de Hitler).

Temos aqui uma bela adaptação de HQ e o primeiro grande filme do ano, não apenas para fãs da arte seqüencial, como para o grande público em geral. Então corra para o cinema. Eu correrei, pois este merece ser visto mais de uma vez. Nos vemos lá!

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