Como um dos mais importantes diretores do cinema estadunidense, já estava mais que na hora de Steven Spielberg ganhar um documentário falando sobre sua carreira. A HBO atendeu o desejo e o filme intitulado apenas com seu sobrenome entra na grade de programação do canal aqui no Brasil hoje às 22h, com sua primeira exibição.

É fato também que hoje em dia o diretor já não é mais a mesma força criativa (ou mesmo chamariz de público) que já foi em outros tempos. Talvez as gerações mais novas não entendam plenamente a força e o escopo de seu trabalho. Assistir a este documentário é uma excelente maneira de situar para essas gerações quem é Spielberg e porque ele ainda merece todo nosso respeito e admiração.

O filme de Susan Lacy traça uma boa trajetória profissional do cineasta, indo de seus filmes amadores rodados em 8mm quando era criança e adolescente, passando por sua entrada na indústria ainda jovem, considerado um menino-prodígio, seus primeiros trabalhos na televisão, até passar para a tela grande do cinema.

Delfos, Spielberg, CartazQuase todos os longas (mas não todos) ganham algum tempo de tela, para que o diretor e pessoas próximas a ele (de sua equipe técnica ou atores que trabalharam nos filmes mostrados), além de críticos de cinema, falem sobre sua incrível capacidade de contar uma história através de imagens.

O diretor possui um talento natural, instintivo, para traduzir as palavras do roteiro nas imagens mais criativas e visualmente caprichadas possíveis. Bom, que tecnicamente ele é tremendão, nem precisava dizer.

O mais interessante para mim é que o documentário explora mais do lado pessoal do diretor, o que acabou influindo diversas vezes nas temáticas de seus filmes. O divórcio de seus pais causou um estrago no jovem Steven e por isso muitas de suas histórias são centradas em famílias esfaceladas ou que se encontram nesse processo. E com as crianças mais em foco.

O OUTRO LADO DA MOEDA

Suas raízes judaicas e seus sentimentos ambivalentes quanto a elas também são tratadas, o que o levaria a ganhar seu Oscar de melhor diretor por A Lista de Schindler, de certa forma um acerto de contas com seu passado.

E embora seja legal ver diversas cenas de bastidores dessas produções e o próprio Spielberg contando como criou alguns dos filmes mais famosos do cinema, faltou o outro lado.

Trata-se de um documentário bastante celebratório de sua carreira. Só que o sujeito é humano e também comete seus erros. E ele tem vários. O lado negativo praticamente não é tratado. Ele fala por cinco segundos sobre 1941 – Uma Guerra Muito Louca, um de seus maiores fracassos, mas é só.

Coisas como o fato de que às vezes ele tende a exagerar no sentimentalismo ou a polêmica parte final de A.I.: Inteligência Artificial, que destoa totalmente do resto da condução mais “kubrickiana” do filme (sendo um caso dos maneirismos de Spielberg levando a melhor mesmo quando ele tentou emular um estilo diferente) não são tratadas e seus filmes menos bem-sucedidos são meio que varridos para baixo do tapete.

Bom, nem só de sucessos se constitui sua carreira e os erros são tão importantes quanto os acertos, então fez falta mostrar o lado menos brilhante. Resultaria numa análise mais completa.

Ainda assim, o filme já valeria a pena só pelos impagáveis filmes caseiros antigos que mostram Steven ao lado de alguns de seus amigos. Uns caras aí que se chamam Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian De Palma e George Lucas se divertindo e fazendo palhaçadas no esquema “gente como a gente”.

No mais, Spielberg é um bom documentário sobre um dos mais adorados diretores de cinema que a cultura pop já nos presenteou. Mais homenagem do que crítico, mas ainda assim um bom programa. Se tiver a oportunidade, assista.