Na minha resenha do livro Jogador No 1 eu digo que ele é estruturado imageticamente, como se já pensado para virar filme. E não é que pouco depois de eu escrever tal resenha, sua adaptação cinematográfica foi anunciada? E ainda por cima com Steven Spielberg, um dos maiores homenageados nas muitas referências pop da trama, como o diretor!

Eis que Jogador No 1, o filme, está para estrear e agora é hora de saber como ficou esta transposição de referências variadas da cultura pop para as telonas. E eu já adianto: ficou muito bom.

Uma das minhas dúvidas, logo que o filme foi anunciado, era a seguinte: eles vão conseguir colocar na tela tantos elementos e personagens de franquias diferentes? Ou seja, tantas propriedades intelectuais numa mesma película, pagando uma fábula só em royalties?

Delfos, Jogador No 1

Ou fariam um caminho mais genérico, colocando coisas que lembram as inúmeras referências, mas não são? Tipo aquelas músicas de comercial que remetem ao estilo de determinado artista, mas claramente foram compostas por um ilustre desconhecido para não ter de pagar os direitos da genuína.

Se fosse este o caso, seria uma baita decepção. Eu não sei como os produtores conseguiram, mas eles rumaram mesmo pela primeira opção. E tem até muito mais coisa aqui do que no livro. Este filme é simplesmente o sonho molhado dos caçadores de easter eggs. Tem tanta coisa espalhada em cada fotograma, que para pescar tudo acho que é preciso ver o filme umas 50 vezes!

São incontáveis referências a games, filmes e música, com inúmeros personagens e elementos famosos aparecendo a todo momento. Muitos com uma tremenda importância para a narrativa e outros tantos como bônus ao melhor estilo “piscou, perdeu”. É muito easter egg. E já que falei nisso, convém dar a sinopse, visto que ela também gira em torno de um easter egg.

SO SALLY CAN WAIT… OPA, OASIS ERRADO!Delfos, Jogador No 1, Cartaz

Para quem já leu o livro ou ao menos minha resenha dele, a sinopse é exatamente a mesma. Mas, para os preguiçosos, vou dar uma requentada nela. No futuro, o mundo está uma porcaria. O único escape da população é o OASIS, um mundo virtual onde tudo é possível.

O criador do OASIS, James Halliday (Mark Rylance), escondeu antes de morrer três chaves dentro do mundo virtual, uma espécie de easter egg anabolizado. Afinal, quem encontrar as três chaves primeiro, vai ganhar nada menos do que a fortuna de Halliday e o controle do OASIS.

Wade Watts (Tye Sheridan) é um moleque pobre que consegue achar a primeira chave, gerando uma corrida contra um empresário inescrupuloso e seus capangas, que deseja obter o controle do OASIS para basicamente enchê-lo de spam e lucrar horrores.

Cabe a Wade e seus colegas, usando seus avatares estilosos, chegarem primeiro ao tesouro de Halliday e assim garantir que o OASIS não vire mais uma ferramenta corporativa de controle das pessoas.

UM “ONDE ESTÁ WALLY?” DA CULTURA POP

O livro está todo na tela, incluindo tudo que tem de bom e de ruim. Comecemos com o ponto negativo, que é bastante simples: a história simplesmente não é lá muito boa e certamente você já a viu antes.

Claro, isso não é culpa do filme, e sim da fonte, que pegava um enredo batido para se escorar no gimmick de encher cada página com referências pop para alegria dos nerds saudosistas. O filme transpõe para a tela esse elemento de forma bastante fiel. Já faz algum tempo que eu li o romance, mas diria que está tudo presente, e até mais.

Se a história não é lá grandes coisas, sendo facilmente adivinhável, a melhor forma de curtir a película é mesmo deixá-la de lado e apreciar cada momento da jornada de Wade e seus amigos pelo OASIS.

Delfos, Jogador No 1

Lembra como foi especial ver Uma Cilada para Roger Rabbit pela primeira vez e levar na cabeça aquela avalanche de personagens famosos de desenho animado? Ou, mais recentemente, Detona Ralph e seus muitos personagens conhecidos de games? Pois é, agora multiplique isso por mil.

Seja como fanservice, seja como elementos-chave para o andamento da história, essa avalanche de referências funciona que é uma beleza. Várias vezes vai te dar vontade de apontar para a tela e falar algo como “olha ali o Freddy Krueger!”.

Inclusive, uma das partes mais divertidas da película se passa dentro de uma conhecida obra da cultura pop e é algo incrivelmente bem feito na recriação dos detalhes, fora o fator zoeira com a obra em questão.

E como é uma história que se passa basicamente dentro de uma gigantesca simulação de computador, eis aí um dos raros casos onde o uso de toneladas de efeitos em CGI funciona! Afinal, a coisa é basicamente um gigantesco videogame, então nada como fazer com que as imagens pareçam mesmo um game de última geração.

O BOM E VELHO SR. SPIELBERG

É inegável que a melhor fase da carreira de Steven Spielberg já ficou para trás. Ultimamente ele tem se focado mais em filmes adultos e mesmo quando tenta recuperar algumas de suas características mais lúdicas de outros tempos, fica aquele gosto de requentado.

Delfos, Jogador No 1

Mas aqui tudo funciona muito bem para ele. De fato, inúmeras vezes parece uma aventura infanto-juvenil da década de 1980, incluindo o vilão (Ben Mendelsohn) exagerado e ao mesmo tempo totalmente inofensivo. Fora o grupo de jovens como protagonistas, algo que tio Spielberg sabe como manejar.

O diretor mostra que ainda sabe como comandar uma aventura usando de elementos consagrados por ele próprio, requentando (agora muito bem) suas características, mas também usando de ferramentas de última geração, como os já analisados efeitos especiais. Este é um de seus melhores filmes em muito tempo.

APERTE START

O filme é basicamente uma daquelas brincadeiras de criança, quando você estava com uns Comandos em Ação e de repente chegava o Batman para lutar com eles, depois o He-Man e seja mais qual bonequinho você e seus amigos tinham à disposição. Uma época mais simples, limitada apenas por sua imaginação, onde coisas como franquias e propriedade intelectual eram conceitos desconhecidos.

Jogador No 1 representa essas brincadeiras de outrora jogadas na tela, com o acréscimo de alguns milhões de dólares. É essencialmente um Sessão da Tarde que assistiu todos os outros Sessões da Tarde já feitos. Emula muitos deles, é bem verdade, mas faz a alegria absoluta de quem adora tudo isso.

REVER GERAL
Nota
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Carlos Cyrino
Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Fez parte do DELFOS de 2005 a 2019.
jogador-no-1-review-filmeTítulo original: Ready Player One<br> País: EUA<br> Ano: 2018<br> Gênero: Ação/Ficção Científica<br> Duração: 140 minutos<br> Distribuidora: Warner<br> Direção: Steven Spielberg<br> Roteiro: Zak Penn e Ernest Cline<br> Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller, Simon Pegg e Mark Rylance.