Em 31 de maio de 2014, duas meninas de 12 anos de idade, Morgan Geyser e Anissa Weier, atraíram uma colega de classe até uma mata, onde Morgan, incentivada por Anissa, a esfaqueou 19 vezes. A garota sobreviveu ao ataque brutal e as duas pré-adolescentes foram presas.

É aí que a coisa fica estranha. Afinal, elas confessam que não só o crime foi premeditado, como elas o cometeram para agradar ao chamado Slenderman, uma espécie de bicho-papão do século XXI, uma lenda urbana de terror criada e disseminada na internet.

Cuidado com o Slenderman, documentário que estreia hoje na programação da HBO, trata justamente da reconstituição e do desenrolar do caso, bem como de explicar quem é o tal do Slenderman e porque ele exerce tanto fascínio em crianças e pré-adolescentes pelo mundo todo.

Na real, eu nunca tinha ouvido falar desse personagem antes desse documentário e não tinha a menor noção da popularidade dele na web. E também não é para menos. Que me desculpe a molecada mais nova, mas trata-se de um personagem bastante fraco. Um sujeito de terno e sem rosto, que pode aumentar de tamanho e fazer os membros crescerem, bem como gerar tentáculos das costas.

Nada que qualquer filme de terror de baixo orçamento já não tenha feito parecido ou até pior. Mas como ele nasceu e viralizou pela internet, acabou ganhando o status de lenda urbana. Até dá para entender seu apelo para a molecada mais impressionável. Afinal, com Photoshop e alguns programas de manipulação de vídeo, dá para fazer de tudo hoje em dia.

E a rede mundial de computadores ajudou a disseminar a “lenda” para outros cantos do mundo. Mas de se divertir com uma espécie de “neofolclore” de terror a acreditar que essa figura é real, como as duas meninas que tentaram matar a colega, já são outros quinhentos.

O documentário sabe disso e até tenta abordar questões como a supervisão dos pais sobre o que os filhos veem na internet, mas nunca passa do superficial. É um pouco mais bem-sucedido ao analisar a criação de um mito como Slenderman, e sua disseminação e popularidade entre jovens ainda em formação. E como a internet tornou-se campo fértil para este tipo de fenômeno.

Já quanto à narrativa do crime em si, é apenas burocrático, seguindo uma linha cronológica e centrando-se nos depoimentos das duas meninas à polícia e focando na questão jurídica se elas serão julgadas como menores de idade ou como adultas, como determina a lei do estado onde elas residem nos EUA. Talvez fosse melhor esperar o desfecho do caso para que o documentário fosse feito. Da forma que está, fica a sensação de uma narrativa incompleta.

No mais, vem um pouco daquela discussão se as crianças, com tanto estímulo de sentidos hoje em dia, estariam aptas para diferenciar fantasia da realidade. É um pouco daquela velha discussão estilo “videogames violentos contribuem para a criminalidade juvenil?”, porém com uma roupagem levemente diferente.

Seja qual for sua opinião, fato é que Cuidado com o Slenderman, embora até parta de uma premissa interessante, como documentário é bem pouco inspirado, seguindo uma linha bastante manjada, pouco aprofundada e que não desperta grandes discussões. Como toda mania de internet, até entretém, mas está destinado a cair no esquecimento.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Está no DELFOS desde 2005.