Ponte Para Terabítia

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Eu nunca vou entender porque alguns filmes são vendidos como algo que eles não são. Se um cara assiste a um drama pensando que era uma comédia, vai sair dali revoltado e se sentindo enganado. Esse é mais ou menos o caso de Ponte Para Terabítia. Vi seu trailer algumas dezenas de vezes, já que a Imagem Filmes o colocou antes de quase todas as suas cabines dos últimos meses (o que mostra o quanto a distribuidora acredita nele). Particularmente, não sei dizer se o mesmo teve tamanha veiculação no cinema comercial, mas acredito que sim, então imagino que você já o tenha visto.

Pelo trailer, é fácil imaginar do que se trata. Duas crianças encontram um mundo mágico e nele vão viver grandes aventuras. A sensação de que se trata de um Crônicas de Nárnia genérico (embora mesmo assim me parecesse bem simpático) é grande e isso é ainda enfatizado quando aparece que o filme é dos mesmos criadores do filme supracitado. Sinceramente, nenhum dos nomes de que me lembro no filme do guarda roupa estão aqui. Conversando com o assessor de imprensa da imagem, fiquei sabendo que eles se referem à Weta Digital, responsável pelos efeitos especiais. Ora bolas, se quem faz os efeitos é o criador, quer dizer que quase todos os filmes dos anos 80 podem dizer que são dos mesmos criadores de Star Wars, já que a Industrial Light And Magic era quase um monopólio da área na época? Esse é o tipo de chamariz que chega a ser desonesto e que serve apenas para enganar trouxas. E Terra Para Terabítia, sinceramente, não precisava disso. Nem mesmo tem a ver com o livro de C.S. Lewis, pois não é mesmo uma história de fantasia, mas um conto sobre a amizade de duas crianças e como lidar com as perdas. Talvez seja inclusive o primeiro (ou um dos primeiros, pois não me lembro de outro) drama para crianças da história (já que filmes infantis estadunidenses são quase sempre comédias), o que deixa ainda mais triste que os responsáveis tenham optado por divulgá-lo como uma fantasia infantil genérica, onde Crônicas de Nárnia inevitavelmente continuaria reinando supremo.

Os protagonistas são dois nerds. O garoto, Jess (Josh Hutcherson), é constantemente incomodado pelos bullies de sua escola. Sem amigos, ele passa boa parte de seu tempo desenhando. A garota, Leslie (AnnaSophia Robb), é nova na escola e também não tem amigos. Ela já prefere usar sua criatividade através da escrita. Logo, os dois descobrem que são vizinhos e ficam amigos.

Um dia, eles vão passear na floresta que fica perto da casa deles (como assim? Depois estadunidense vem achar que nós é que moramos perto de floresta?) e decidem criar um lugar só para eles, longe dos bullies babacas e das dificuldades da família. Eles chamam esse lugar de Terabítia e lá vão usar a imaginação para se divertir e se expressar através da fantasia. E isso é que separa este dos demais filmes de fantasia. Não só é tudo imaginação deles, como também é uma parte muito pequena da história. Aquelas partes cheias de bichos mágicos e cenários belíssimos que vemos nos trailers estão todas concentradas em duas cenas e em todo o resto, trata-se de um filme bem realista. Em determinado momento, acontece algo completamente inesperado para um filme infantil e, justamente por isso, genial. Me pegou completamente de surpresa e provavelmente isso vai acontecer com você também.

A narrativa me lembrou um pouco as aventuras do tremendão Calvin com seu tigre de pelúcia Haroldo, criação máxima de Bill Waterson. Assim como Calvin, os protagonistas deste são crianças solitárias e criativas que encontram uma válvula de escape através da fantasia. Particularmente, me identifico bastante com isso e acho que boa parte dos delfonautas também. Outra semelhança com as tirinhas do loirinho é o tom dramático, mas positivo, com que a história é contada. Basicamente, acho que isso é o ponto principal do Calvin e apostaria que quem gosta de suas tirinhas tem tudo para gostar muito de Ponte Para Terabítia.

O longa peca em alguns aspectos. A tentativa de justificar o bullying mostrando que os babacas têm pais abusivos é clichê e desnecessário, já que nós sabemos que a raça humana não precisa de motivo para ser má. Nós simplesmente gostamos de ver as pessoas sofrendo. Em outros momentos, sobretudo no primeiro terço de filme, a narrativa é um pouco lenta demais, principalmente se você, como eu, estiver ansioso para um longa de fantasia.

O legal é que agora que você leu essa resenha, já sabe exatamente o que esperar desse filme. Um drama infantil com muito sentimento e que gera muita simpatia com os protagonistas. Principalmente se você também foi (ou é) uma criança nerd, solitária e criativa. Se for seu caso, Ponte Para Terabítia é extremamente recomendável e não levou o Selo Delfiano Supremo por muito pouco. Mas não esqueça de levar um lencinho pra chorar.

Curiosidades:

– O pai de Jess é Robert Patrick. Esse nome provavelmente não significa nada para você, mas com certeza você vai se lembrar dele ao ler a seguinte sigla: T-1000. Pois é, delfonauta. O exterminador que deu tanto trabalho para o governator em um dos melhores filmes da história dá as caras aqui depois de uns quinze anos da última vez que o vi. E o tempo foi cruel para ele.

– Outra que faz parte do elenco é Zooey Deschanel, a Trillian de O Guia do Mochileiro das Galáxias. E assim como ficou bem claro na comédia espacial, atuação realmente não é o forte da guria. Mas, cara, como ela é linda!

– A supracitada Weta Digital também cuidou dos efeitos especiais de O Senhor dos Anéis. Não que isso faça alguma diferença, já que, ao contrário do que aparenta pelo trailer, este filme quase não tem efeitos especiais.

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).