O Legado Bourne

0

Jason Bourne já recuperou sua identidade, provou sua supremacia e deu seu ultimato. Ou seja, fez tudo que tinha de fazer. No entanto, isso é Hollywood, e enquanto uma série der dinheiro, ela será sugada até… bem, até parar de dar dinheiro! Se for preciso dar uma recauchutada total e trocar o protagonista, sem problema. Eles (os engravatados) o farão sem o menor pudor.

É o que acontece neste O Legado Bourne, um reinício para a série, agora com outro personagem principal. No lugar do Jason Bourne de Matt Damon, entra o Aaron Cross do Gavião Arqueiro. A história é mais ou menos a mesma coisa. Por causa das ações de Bourne nos filmes anteriores, a agência malvada resolve fazer uma queima de arquivo geral e eliminar todos os super-agentes secretos de seus programas especiais.

Nem preciso dizer que Aaron Cross é um deles e escapa da morte. Contudo, diferente do protagonista anterior, ele não tem problemas de memória e nem deseja vingança contra a agência que o sacaneou. Tudo que ele quer é encontrar uma dose vitalícia do remedinho mágico que o transforma num supersoldado e seguir seu caminho.

A trama é muito mais simples que a da trilogia anterior e, no entanto, ela é desnecessariamente confusa e enrolada. Parece que os roteiristas ficaram com vergonha de ter uma história simples e deliberadamente atravancaram o meio de campo para dar uma disfarçada. E isso não é legal. Porque não só atrapalha o andamento do filme (ele demora muito para pegar e o começo é paradão demais), como ainda cria umas coisas sem sentido. Sério, por que Aaron mentiu sobre ter perdido sua caixa de comprimidos? Essa atitude não faz o menor sentido. E este é apenas um exemplo.

Por conta disso, o longa transita perigosamente entre o legalzinho (com ênfase no diminutivo) e um filme nada. Contudo, a ação é o que o salva e o que verdadeiramente faz valer os três Alfredos da nota.

As cenas testosterônicas são muito boas e divertidas, e possuem a mesma estética crua e mais realista dos filmes anteriores. É até uma pena que não tenham deixado o desenvolvimento da história de lado para focar mais na porrada e nas perseguições, pois isso poderia melhorar muito a qualidade aqui.

Para aqueles que reclamavam das câmeras na mão tremidas, principalmente nos dois filmes dirigidos por Paul Greengrass, uma boa notícia. Aqui, o diretor Tony Gilroy (que escreveu todos os filmes da franquia) emprega uma estética muito mais comum, lembrando mais o primeiro longa.

No entanto, ele comete um grande pecado. Quando o bicho finalmente começa a pegar e o filme realmente fica legal, ele simplesmente acaba. O negócio foi tão brusco que cheguei a pensar que o projecionista se esqueceu de passar um dos rolos. Faltou um clímax ali. Tinha que acabar com uma explosão, e não com um traque.

Tudo bem, a cena da perseguição de motos é legal e deve durar uns dez minutos, mas, da forma como acabou, foi tão “mé” que pensei que teria uma outra sequência tremendona depois, para fechar em alta. Fique avisado, não tem. E o que seria o grande inimigo de Aaron é um dos maiores desperdícios do cinema de ação recente. Até por isso, pensei que iam mandar um cara ainda mais tremendão logo depois. Não mandaram.

O Legado Bourne tem muitos problemas. Mas as boas cenas de ação quase compensam esses defeitos, desde que você também não vá esperando nada de outro mundo. Para quem gostou das produções anteriores, se for ao cinema sem grandes expectativas, pode se divertir. Mas para seguir em frente com a franquia, será preciso melhorar bastante.