Magia Ao Luar

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Depois de dar uma variada com o premiado Blue Jasmine, o nosso querido Woody Allen parece ter retomado sua prolífica viagem pela Europa, que já teve paradas em Londres, Paris, Roma e Barcelona. Desta vez, voltamos para mais uma passadinha na França, coincidentemente na mesma época que Gil Pender visitava sempre à meia noite.

Em Magia Ao Luar, acompanhamos Stanley Crawford (Colin Firth), um mágico muito famoso que se apresenta sob o pseudônimo do mago chinês Wei Ling-Soo. E além de seu célebre espetáculo, em que ele faz elefantes desaparecerem, corta belas assistentes ao meio e se teletransporta, ele tem outro talento pelo qual é renomado: desmascarar médiuns, videntes e todo tipo de charlatões. Ele é praticamente o Mister M de 1928.

Ao reencontrar um velho amigo, Stanley recebe sua próxima missão: a jovem vidente Sophie Baker (Emma Stone), que veio de uma cidadezinha nos Estados Unidos e conquistou o afeto da matriarca de uma família rica do interior da França ao supostamente colocá-la em contato com seu falecido marido. E conquistou também o filho, que está prestes a pedí-la em casamento. Os poderes da moça impressionam a todos, mas não ao Stanley, que aceita viajar até a mansão da família e encontrar a prova de que a moça é só mais uma golpista à procura de ascenção social.

O fato é que, vidente de verdade ou não, Sophie é uma moça cativante, e suas sessões mediúnicas tornaram a vida de toda a família mais feliz. Sendo assim, a coisa toda se torna uma cruzada pessoal para Stanley, que é um sujeito ranzinza e arrogante que se recusa a ser iludido com esperanças irracionais. Mesmo que isso signifique aceitar que não existe mais nada além do que os nossos cinco sentidos conseguem captar e, portanto, que as nossas vidas não têm nenhum propósito ou significado especial.

Apesar de ser muito inteligente e ter argumentos realmente pungentes, Stanley seria um personagem bastante difícil para se simpatizar. Ao menos para mim, que me chateio fácil com gente cínica que se diverte sendo gratuitamente cruel. No entanto, o roteiro e principalmente a atuação do bonitão Colin Firth imprimem um charme e uma certa vulnerabilidade oculta sob toda essa amargura, que fazem você gostar dele apesar de tudo. Sophie também é intrigante. Graças ao talento cômico de Emma Stone (que fica ainda mais impossivelmente fofa com o figurino de época), as expressões e os gestos que ela faz quando está em contato com o “mundo invisível” são realmente risíveis, mas por outro lado ela parece ter realmente algo de mágico ou sobrenatural.

E por mais que o filme seja inegavelmente uma comédia romântica e, portanto, traga algumas das características irritantes do gênero – como a previsibilidade, por exemplo – ele é conduzido de forma com que o tal “desmascaramento” fique em segundo plano. A prioridade é a própria discussão: será que é tão errado assim manter uma ilusão, se ela te ajuda a aguentar os sofrimentos da vida? Ou isso é só mais um jeito de enganarmos e manipularmos uns aos outros? Recorrer a um poder maior te faz uma pessoa fraca? Ou uma pessoa humilde, capaz de admitir que não tem todas as respostas? Dependendo de qual lado você tomar, a sua opinião sobre o filme pode variar. Mas é uma questão realmente interessante, e os diálogos, como sempre, estão excelentes.

Eu sinto que Magia Ao Luar não será bem recebido, e vai decepcionar muita gente. Primeiro de tudo, porque ele não é muito original, e recicla muitos temas e tropes que a gente já viu bastante na obra do Tio Madeirinha. E talvez ele não explore a discussão supracitada com profundidade o suficiente, ou use diálogos expositórios demais para fazê-lo. Realmente, faltou alguma coisa dificil de definir, e isso o afastou dos nossos preferidos do diretor. Provavelmente ele será esquecido bem mais rápido.

Mas ele se passa num cenário tão lindo, e tem uma trilha sonora tão gostosa, que se você se deixar envolver, dá para perceber o quanto ele tenta resgatar o charme e a elegância da Hollywood clássica. Ele não o faz com a competência de Meia Noite em Paris, mas ainda assim, deixa aquela sensação boa de que é para coisas como essa que serve o cinema.

Então o meu conselho é o seguinte: controle suas expectativas se elas estiverem muito altas. Mas não se preocupe tanto, afinal, como já disse o Corrales, até um Woody Allen fraco é melhor do que muita coisa por aí. E não seja um Stanley da vida real: não vá assistir ao show de mágica só para tentar identificar o truque. Permita-se acreditar, nem que seja pelos 97 minutos do filme. Afinal, esta é a grande mensagem aqui: independente do que acontece quando a gente morre, a nossa vida não é totalmente desprovida de mistério e magia.

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REVER GERAL
Nota
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Delfonauta desde pré-adolescente, se tornou delfiana oficialmente em 2012. Não consegue gostar de nada casualmente e estuda Letras só para adquirir base teórica para fazer melhor o que sempre fez por hobby: analisar obsessivamente e escrever longas dissertações sobre Cultura Pop.