Este filme tinha tudo para ser uma desgraceira tremenda, uma daquelas produções bem deprês feitas para você derramar lágrimas sem dó. Afinal, é a história de um cara que fica paraplégico e ainda tem de lidar com o alcoolismo. E ainda por cima é baseada em fatos reais.

Mas Gus Van Sant, um dos queridinhos do cinema indie estadunidense, não gosta de seguir os caminhos mais óbvios e confere mais humor e leveza à trama de A Pé Ele Não Vai Longe, o que ajuda a deixá-lo bem simpático, ainda que no fim das contas não seja um grande filme.

John Callahan (Joaquin Phoenix) fica na cadeira de rodas após sofrer um acidente de carro, mas este não é o seu grande problema a ser superado, e sim seu alcoolismo, grande responsável por sua nova situação física.

Delfos, A Pé Ele Não Vai Longe, CartazDaí ele resolve frequentar as reuniões do AA e arranja um padrinho na figura de Donny (Jonah Hill), que realiza sessões de grupo envolvendo seus outros apadrinhados. É através dessas conversas em grupo ou em particular com Donny que John vai entender os motivos de sua dependência e completar os passos do AA. Além de encontrar uma válvula de escape criativa ao se tornar um cartunista.

EU BEBO SIM!

Este aqui é o típico filme independente em sua estética. Montagem não linear com inúmeras idas e vindas temporais, um roteiro que não explica tudo mastigadinho, revelando os fatos aos poucos. E, sobretudo, por sua grande força se concentrar nas atuações, com um elenco bem afiado.

Contudo, apesar de bastante simpático, ele também tem um grande quê de autoajuda. Muito, obviamente, por ser a história de um alcoólatra em recuperação, seguindo o programa dos 12 passos. E por muito do filme se concentrar nas conversas envolvendo o grupo de ajuda.

Isso deixa o filme meio que martelando nessa tecla um pouco mais do que eu gostaria. E principalmente pelas conversas envolvendo Deus e/ou algum outro tipo de poder superior. O que me faz pensar que se eu fosse alcoólatra, nem adiantaria eu tentar o AA, visto que o programa todo se baseia na crença nesse tal poder superior, algo que eu não acredito. Logo, alguém precisa criar uma versão do AA para ateus e agnósticos…

Delfos, A Pé Ele Não Vai Longe

Mas estou me desviando do assunto. Enfim, embora às vezes canse por abusar dos papos envolvendo Deus e o famoso “ajude a si mesmo”, quando foca mais na vida pessoal de John, seja nos tempos de abuso de birita, seja após ele largar a garrafa, a coisa fica mais interessante.

Enfim, definitivamente não é algo para todo mundo, mas se você curte os filmes do Gus Van Sant, a temática da qual falei aqui e outros longas de estética indie no geral, vale a conferida.