Alguns criam. Outros imitam. A From Software cria. Todo mundo a copia. A Team Ninja criava também. Ninja Gaiden é um jogo único, mesmo quando comparado aos originais de Nintendinho. Porém, desde Nioh, eles só querem saber de copiar a From. Mas Nioh ainda é muito bom. Um dos melhores do gênero, eu diria. Wo Long é bastante parecido com Nioh, a ponto de que poderia ser uma continuação. Mas não é. E o diferencial que apresenta é uma imitação direta do combate de Sekiro. Ah, sim, esta é nossa análise Wo Long Fallen Destiny, mas achei que você já sabia disso.

ANÁLISE WO LONG FALLEN DYNASTY

O delfonauta dedicado deve saber que eu gosto muito da Team Ninja. Amo Ninja Gaiden e amo Nioh, que para mim é o melhor soulsborne já feito. Assim, por mais que pessoalmente eu preferisse que a empresa criasse um game de ação totalmente novo, este barco já zarpou com a saída das pessoas criativas daquela época. A Team Ninja agora é uma cover de From Software. Uma excelente cover, mas ainda cover. Uma seguidora, não uma líder. Ainda assim, a qualidade de Nioh é tão alta que eu esperava que Wo Long Fallen Dynasty também brilhasse. E brilha. E traz também muita frustração. Mas eu chego lá. Comecemos pelo começo.

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O começo!

Se você jogou NiohWo Long é imediatamente familiar. Os gráficos são parecidos, os controles são quase iguais. Tudo que Nioh trouxe que não era extraído diretamente da From (como as fogueiras/altares), está aqui. E também tem muita coisa da From, claro. Em especial uma mecânica chupada diretamente de Sekiro.

Nioh era um soulsborne, mas seu combate era novo, com a interessante administração de stamina, que poderia ser recuperada instantaneamente com um bom timingWo Long traz um uso de stamina também diferenciado, mas não totalmente novo. Na verdade, deve muito a Sekiro.

NIOH COM SEKIRO E QUEIJO DERRETIDO

Todo mundo em Wo Long tem duas barras. A de vida e a de Qi. Porém, a de Qi não é uma stamina tradicional, mas algo semelhante à barra de stun no Sekiro. Basicamente, acertar ataques a empurra para o lado azul. Apanhar, defender e desviar puxam para o vermelho.

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O dragão tá todo no azul e eu apanhando. História da minha vida.

O bacana, e a novidade, é que a barra de Qi é usada para magia, ataques especiais e ataques de espírito (estes ativados com triângulo no PS5). Então a forma apropriada de jogar é ser bem agressivo, atacar furiosamente com o quadrado até a barra ficar azul, e daí usar a carga azul com algo mais especial. O ataque de espírito supracitado é mirado diretamente na barra de Qi do adversário, levando-a para o vermelho e diminuindo seu tamanho, possibilidando que ela se encha mais rápido.

E daí entram as influências de Sekiro. Encher a barra para o lado vermelho imobiliza por alguns segundos. Isso possibilita que você, ou seus inimigos, dêem uma espécie de fatality que, quando não mata, enfraquece consideravelmente o alvo. A melhor forma de levar a barra inimiga para o lado vermelho é defletindo, como no game da From. O timing exige precisão absurda, e a maioria dos monstros não tem a guarda quebrada com um único parry.

MAIS MECÂNICAS ÚNICAS DE WO LONG

É sinceramente um sistema bacana. Não é tão claro quanto Sekiro, onde tinha bolinhas dizendo quantas vezes você precisava quebrar a guarda de um chefe. Aqui você tira um montão de vida, então alguns inimigos morrem com um único ataque desses, enquanto outros apenas são consideravelmente enfraquecidos.

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Boosh, headshot!

A coisa fica ainda mais complicada. Como todo RPG, há um sistema de níveis, em que você troca XP por melhorias estatísticas. Mas há outro tipo de subir os números, chamado moral. E este é limitado a cada fase.

Você começa com moral zero, e conforme luta sem morrer, sua moral vai subindo. Isso melhora seu personagem muito mais perceptivelmente do que os level ups tradicionais. Porém, ao morrer volta para a moral mínima. A sacada é que você consegue subir de moral permanentemente (enquanto não sair da fase, claro) colocando bandeiras. Estes são os checkpoints/fogueiras de Wo Long. Mas tem também bandeiras que servem apenas para subir de moral, que são visualmente mais simples, mas também muito úteis.

ANÁLISE WO LONG E A ENVERGADURA MORAL

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Nesta imagem, eu estou com moral 17, e o chefe com moral 18.

Isso afeta totalmente o level design. As fases de Wo Long não são uma sequência de obstáculos com checkpoints no meio do caminho, como Nioh. As fases são abertas, mais redondas do que compridas, entende? Os inimigos espalhados pela fase têm suas próprias envergaduras morais. É comum você começar uma fase, com moral 0, e encontrar na sua frente um bicho com moral 15. É sua dica para explorar primeiro em outra direção.

Wo Long é tão focado em exploração quanto Nioh, mas é uma exploração diferente. Em Nioh, você deve encontrar/chegar no chefe. Aqui, normalmente é relativamente fácil de encontrá-lo. O grosso do jogo é se preparar, espalhando suas bandeiras pelo campo de batalha. Encontrar todos os pontos de bandeira costuma levar sua moral até o mesmo nível do chefe principal (normalmente 20). Daí você pode sair matando geral para subir ainda mais sua moral, até o que acredito ser o máximo de 25. Porém, ao morrer, você é resetado para seu nível “de bandeira”, que nunca é mais alto que o de um chefe de fase. Subir do 20 ao 25 demora uns 15 minutos, então aí você já pode ver o tempero do chef José Marques chegando.

EU QUERO MINHA MÃE – OU UM IRMÃO MAIS VELHO

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Ataques em stealth descem a moral dos inimigos.

Eu travei muito cedo em Wo Long. Sem exagero, com uns 20 minutos de jogo, você encara o primeiro chefe, ainda no tutorial. Eu fiquei duas horas travado nele. No. Chefe. Do. tutorial. E logo de cara o chefe era naquele esquema de duas fases, e morrer na segunda volta tudo para a primeira. A primeira, já bem difícil, consumia meus recursos fortemente. Às vezes, conseguia passar quase sem usar nenhuma cura, mas isso só deixava mais frustrante quando a segunda fase me matava em one-hit-kill com o bolso cheio de estus. Não foi legal.

Eu estava com cerca de duas horas e meia de jogo, travado no chefe há mais de 120 minutos. Não dava para pegar mais bandeiras, pois a primeira fase é bem linear. O online ainda não tinha sido liberado, pois era o tutorial. Estava a ponto de desistir e xingar muito no Twitter. E foi nesse contexto que venci, quando já estava convencido a parar de jogar. Eu não sabia se ficava feliz ou triste, porque afinal, agora que venci, eu precisava continuar para escrever uma análise Wo Long decente.

ANÁLISE WO LONG E A MINHA ENVERGADURA MORAL

Curiosamente, depois desse início conflituoso, minha experiência com Wo Long foi tranquila. Desde que eu atacasse cada fase com estratégia, percebendo os sinais que o jogo me dava de onde deveria explorar primeiro, a coisa fluía. Wo Long é muito mais estratégico do que Nioh, e deve ser jogado como tal. Todo campo de batalha deve ser analisado pela melhor ordem para vencer os inimigos. Igualmente importante é saber quando é necessário recuar e plantar mais umas bandeiras antes de comprar uma briga. E sabe, isso é bem legal. Apesar de ser um soulsborne com forte influência de Sekiro, este “nível moral” dá a Wo Long um sabor totalmente único.

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Lu Bu, meu maior desafeto.

A progressão foi constante. Até que parou de ser. Eventualmente, encontrei o famoso Lu Bu, sujeito que muitos já conhecem de Dynasty Warriors (Wo Long adapta o mesmo período histórico de Warriors, então tem muitos personagens em comum). Ele vem num cavalo, e eu até conseguia tirá-lo do cavalo. Mas daí a arma dele pegava fogo e ele me matava rapidinho. E, se não matava, voltava para o cavalo. Eu cheguei nele na moral 19 (ele é 20), pois não achei uma das bandeiras. Fui procurar a bandeira então. Ficou mais fácil. Daí fiz um grinding para chegar no nível 25. Ficou muito mais fácil. Mas não fácil o suficiente.

A AMARGA DERROTA DA MINHA ANÁLISE WO LONG

Eu conseguia deixar a vida dele vermelha. Em uma tentativa, cheguei bem perto, sobrando uns 5% de vida dele. Mas o desgraçado venceu. De novo, de novo e de novo. Eu tentei algumas vezes subir minha moral até o 25 e apenas fazendo isso sentia que tinha alguma chance de vencer. Mas voltar para o 20 ao perder, e precisar ficar 15 minutos fazendo grinding antes de tentar de novo me desanimou. José Marques, saca?

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Provavelmente se estivesse com assinatura da Plus, simplesmente chamaria alguém para matar para mim. Mas não estou. E sinceramente, não quero pagar a Sony por um ano só para passar de um chefe. Wo Long me venceu. E um dia precisamos falar do imenso problema de acessibilidade ser necessário pagar uma anuidade para alguém não remunerado (e que também paga sua própria anuidade) matar o chefe para você.

Você até pode pedir ajuda de NPCs sem pagar para a Sony, mas precisa “pagar” a ajuda com itens (também precisa usar estes itens para chamar coleguinhas on-line). Provavelmente se eu tivesse NPCs comigo sem precisar gastar itens e se mantivesse meu nível moral no 25 ao morrer, ainda tentaria mais algumas vezes. Mas do jeito que é, deu para mim.

MAS AINDA TENHO MAIS A DIZER

Minha história foi contada, mas tem mais informações que posso te passar sobre Wo Long. Assim como Nioh, este é um RPG de loot. Ou seja, você é constantemente bombardeado por roupinhas e armas coloridas que popam a todo momento. Porém, ao contrário de Nioh, as estatísticas são fixas.

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Permita-me explicar melhor. Há uma grande quantidade de armas. Espadas, lanças, martelos, etc. Cada um tem um dano diferente. Porém, todas as armas do mesmo tipo têm o mesmo dano. Este dano só é aumentado via upgrades, não através de variações de loot. Assim, eventualmente você vai encontrar as armas que gosta em versão “dourada”. E a partir daí, não precisa mais trocar, é só melhorar a arma sempre que possível.

É uma decisão bem estranha da Team Ninja. Mesmo as armaduras, todas as do mesmo tipo têm a mesma defesa. Assim, depois de cada fase, você vai passar 20 minutos olhando seu inventário e simplesmente vendendo tudo. É um desperdício de tempo. Não acho que nenhum game fica melhor com loot estilo Diablo, mas se as estatísticas vão ser sempre iguais, porque o jogo simplesmente não para de te dar espadas depois que você já tem uma (ou 27).

SIDEMISSIONS

Ao contrário de Nioh, aqui você é diretamente transportado de uma missão de história para a seguinte. Porém, você pode usar o menu da bandeira (o mesmo em que faz level ups ou equipa a magia) para jogar novamente fases anteriores ou fazer sidemissions. As sidemissions são no estilo de Nioh, e normalmente te colocam no cenário da fase anterior com algumas alterações – menos caminhos e outra hora do dia, por exemplo. O sistema é o mesmo, você deve encontrar as bandeiras para poder encarar e vencer o chefe.

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Momento contemplativo.

Em uma sidemission que achei interessante, não havia bandeiras. Mas a envergadura moral do chefe era alta, pois ele estava sendo turbinado por bruxos. A proposta era explorar o cenário e assassinar os bruxos. Cada assassinato diminuía a moral do chefe e, acabando com os bruxos, ele ficaria na mesma moral que você.

A princípio, parece que as sidemissions são mesmo opcionais, pois eu normalmente terminava uma fase com nível superior ao recomendado para a seguinte. Porém, mesmo fazendo todas, eventualmente comecei a ficar underleveled, o que demonstra que Wo Long tem um tipo de progressão que exige repetição para subir de nível por design.

PERFORMANCE

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O visual é cheio de lindas partículas, mas isso cobra seu preço na performance.

Uma coisa que me incomodou bastante na versão de PS5 é a performance. Ele tem opções de resolução ou FPS. A de resolução é simplesmente não jogável no momento. A de FPS é melhor, mas é ainda absurdamente instável, a ponto de que gaguejadas e quedas de frame podem literalmente te matar. Wo Long é assim tão implacável.

Quando a gente gosta de uma coisa, mas o final da experiência é ruim, a coisa acaba ficando azeda por completo. E assim é como estou me sentindo agora com Wo Long. Enquanto jogava e avançava, estava realmente curtindo. Porém, a memória mais forte que tenho neste momento é de ter passado boa parte de uma tarde batendo cabeça contra o Lu Bu, impedido de ver o resto do jogo a não ser que eu pague a Sony para alguém passar para mim.

ANÁLISE WO LONG E O GOSTO AMARGO

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O design dos chefes e inimigos é muito legal.

Eu não gosto de jogar no PC, mas Wo Long é o tipo de jogo que eu realmente recomendo a versão do Windows. Mesmo que optasse jogar sem cheats, no PC posso pedir ajuda sem precisar assinar nada. Porém, com cheats, isso se torna desnecessário, já que eu posso simplesmente ficar invencível, pular os chefes mais chatos e assim curtir o restante do jogo. Felizmente, a assessoria da Koei Tecmo me forneceu acesso à versão de PC. Em breve os mods devem começar a surgir e eu farei uma matéria especialmente sobre isso.

Porque este é o cenário atual. O tempero especial do chef José Marques está cada vez mais frequente no mundo dos games, e minhas habilidades e reflexos não ficam melhores quando fico mais velho. Então vou lá me encolher em posição fetal e talvez pensar que sou jovem demais para morrer, mas velho demais para videogames modernos, cada vez mais difíceis e elitistas.