Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma 3D

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Como resenhar uma obra que está sendo relançada nos cinemas? Lançado há 13 anos, a essa altura qualquer delfonauta que tenha qualquer interesse por Star Wars já assistiu a A Ameaça Fantasma e já tem uma opinião muito bem formada sobre ele. Resta falar apenas sobre a novidade, o 3D, mas isso não renderia mais do que dois parágrafos. Então se junte a mim e vejamos o que sai daqui.

ANAKIN SKYWALKER, MEET OBI-WAN KENOBI

O quarto filme de Star Wars é também o primeiro episódio. O início de uma trilogia que visa mostrar a criação e a eventual deterioração da amizade entre dois dos personagens mais conhecidos da cultura nerd, Obi-Wan Kenobi e Darth Vader, aqui ainda conhecido como Anakin Skywalker.

A Ameaça Fantasma é, possivelmente, o capítulo mais odiado entre os fãs de Star Wars, muito por causa da sufocante expectativa causada pelos 16 anos que o separam de O Retorno de Jedi, mas muito também por causa da presença de um personagem que virou sinônimo de tudo que é ruim na cultura pop: Jar-Jar Binks.

Particularmente, eu sempre gostei de A Ameaça Fantasma, e não o considero nem mesmo o pior dos seis filmes. Aliás, eu nem acho o Jar-Jar Binks assim tão irritante, especialmente se comparado aos Ewoks.

Ainda assim, meter o pau em qualquer um dos seis Star Wars é praticamente chutar cachorro morto. Todo mundo sabe que George Lucas é um diretor cujas habilidades deixam muito a dever, até mesmo por falta de experiência (ele só dirigiu seis filmes em toda sua carreira: quatro Star Wars, Loucuras de Verão e THX 1138). Todo mundo sabe que as atuações são ruins em todos os filmes, e isso vale até mesmo para atores que normalmente são excelentes, como o Liam Neeson ou o Alec Guinness, o que acaba caindo no item anterior, sobre a falta de habilidade do diretor. Para completar, todo mundo sabe que vários personagens estão lá apenas para vender brinquedos.

É realmente fácil falar mal de Star Wars, especialmente quando o analisamos como obra cinematográfica. Todos conhecemos os defeitos acima e apenas aqueles cegados pelo fanboyismo negam isso. Difícil, no entanto, é entender, ou mesmo explicar, por que Star Wars, apesar de tantos defeitos gravíssimos, é tão absurdamente legal. Convenhamos, amigo delfonauta, poucos filmes divertem mais do que Star Wars.

CRIADOR DE CONCEITOS

Eu tenho uma teoria. Star Wars é tão legal porque seu conceito é muito forte. George Lucas, tal qual Stan Lee, é um excelente criador de conceitos, mas não é tão bom em realizá-los, em transformá-los em roteiro. Nas mãos de roteiristas e diretores habilidosos, seus conceitos viram coisas como Indiana Jones, que são boas em absolutamente todos os quesitos.

É uma pena que os conceitos e os personagens de George Lucas com maior potencial sejam também os que ele mais protege, pois já vimos muitas coisas legais envolvendo Jedis. Se a nova trilogia pegasse as ideias de Lucas e as tratasse com o devido respeito, mesmo estes três filmes da nova trilogia poderiam ser tão bons quanto os originais. Quiçá até melhores.

Repare que absolutamente tudo que envolve Star Wars é excelente, até colocarmos George Lucas na equação. Veja as roupas, as cidades e toda a cultura envolvendo cada uma das civilizações dos filmes. É fascinante. Mas tem mais, até os efeitos sonoros se tornaram clássicos e são imitados mundo afora, seja em episódios de Os Simpsons ou simplesmente um nerd brincando com uma camisinha luminosa. E as músicas, meu amigo. Que músicas! Talvez as melhores e mais marcantes composições de um cara que tem no repertório os temas mais marcantes do cinema (John Williams, é claro). Mas daí vem o tio Lucas e não consegue juntar isso em um todo coeso. E mesmo assim o troço fica maior legal, tamanha a força dos seus conceitos.

Seu principal problema como contador de histórias é que ele enche de detalhes e personagens um conto que deveria ser simples, uma historinha básica de bem contra o mal. Ao invés de termos Darth Maul, Conde Dooku e General Grievous, todos mal aproveitados, poderíamos ter um único grande vilão bem desenvolvido para os três filmes. Funcionou na trilogia sagrada com Darth Vader, por que não funcionaria aqui?

Ao invés de toda aquela trama desnecessariamente complicada, o filme ganharia se focasse no treinamento do pequeno Skywalker e Palpatine criasse o império de forma mais direta, mais clássica, sem essa baboseira de jogar nos dois times. Para quê Federação do Comércio e todas aquelas coisas que só servem para complicar uma história que a humanidade já vem contando há séculos, e justamente daí vem sua força?

SABRES DE LUZ EM 3D

E chegamos ao filme da vez: A Ameaça Fantasma em 3D. No início da exibição, eu estava bem focado nos efeitos 3D. E eles estão bacanas, especialmente para um filme convertido. Obviamente, não tem a qualidade 3D de um Avatar, mas também é muito superior ao outro Avatar, o do desenho da Nickelodeon. O 3D foi muito legal especialmente na abertura, com o texto se afastando conforme vai passando, ou então nas cenas de espaço, que passam de forma apropriada as dimensões do… bem… espaço.

Aí entra novamente o poder do conceito da série! Apesar de estar conscientemente me forçando para analisar o 3D, eu acabava me envolvendo na história, na música e em todo o clima místico que envolve um Star Wars, e que torna essa franquia tão especial. E isso apesar de ser um filme que eu já tenho em DVD e que já assisti mais de dez vezes.

A partir desse envolvimento, acabei realmente só percebendo o 3D quando me lembrava dele. A cena da corrida, por exemplo, foi um desses momentos. Imaginei que o 3D realmente potencializaria a disputa entre os pods, mas admito que me decepcionei, pois ele é praticamente imperceptível. Por incrível que pareça, o 3D em A Ameaça Fantasma está muito mais presente nas cenas com seres humanos do que nas que são puramente computação gráfica.

O FILME

Você pode odiar A Ameaça Fantasma e, estatisticamente, você provavelmente odeia mesmo. Tem o Jar-Jar Binks e tal. Mas você há de concordar: temos aqui também alguns dos melhores momentos de toda a série.

O vilão Darth Maul, por exemplo, consegue ser absurdamente tremendão e ameaçador, mesmo sendo totalmente subaproveitado e quase não falando nada (eu nem mesmo lembrava que ele falava). A luta final, entre ele, Qui-Gon e Obi-Wan, é a melhor cena de ação de toda a série e tem, dentro dela, um momento tão inesquecível que vou até abrir um novo parágrafo para falar disso.

Me refiro àquele momento que as barreiras laser separam os três personagens no meio da luta. Obi-Wan fica inquieto, Qui-Gon se ajoelha para meditar e Darth Maul se limita a olhar ameaçadoramente para seus desafetos. Esses segundos tornam a cena simplesmente inesquecível e fazem muito mais para desenvolver os personagens do que horas e horas de exposição. Nas mãos de um diretor habilidoso, teríamos aí planos longos e um silêncio destruidor, aumentando ainda mais a tensão que veio se acumulando durante todo o filme. Infelizmente, temos George Lucas, que fica intercalando essa cena com as batalhas dos Gungans ou do jovem Anakin no espaço. Entende o que digo quando afirmo que ele é um bom criador de conceitos, mas um péssimo realizador? Mas de novo, ainda assim, do jeito que está, essa cena é inesquecível e um dos melhores momentos de todos os Star Wars.

E é nisso que eu queria chegar. Não vá ver A Ameaça Fantasma nos cinemas para ver efeitos 3D. Por melhores que eles estejam, tem outros longas filmados especialmente com essa tecnologia que trarão imagens com profundidade superior. Encare esse relançamento como uma oportunidade de ver novamente filmes que definiram a cultura pop da forma como eles originalmente foram feitos para serem vistos: na tela grande.

Muitas pessoas nunca tiveram a oportunidade de assistir a um Star Wars no cinema. Eu cheguei a ver toda a nova trilogia na telona, e mesmo assim foi legal ver de novo. Poucas coisas são tão emocionantes na vida de um nerd quanto estar em um cinema e ver a fatídica frase “a long time ago, in a galaxy far, far away…”, seguido do logotipo e do tema sensacional de John Williams. Star Wars é o tipo de filme para o qual o cinema foi criado. E esse, meu amigo, é o principal motivo para você não perder a chance de ver A Ameaça Fantasma neste relançamento.

CURIOSIDADES:

– A versão apresentada é a lançada recentemente em Blu-Ray, com o Yoda digital, ao invés do bonequinho original. Foi uma mudança bem-vinda, em minha opinião, já que nunca entendi como era possível que o boneco do Yoda presente em A Ameaça Fantasma, de 1999, fosse inferior em todos os aspectos ao que vimos em O Império Contra-Ataca, de 1980.

– Lembra quando eu falei que não considero A Ameaça Fantasma o Star Wars mais fraco? Pois aí vai minha lista de preferência, do melhor para o pior: IV, III, V, I, VI, II. Coloque a sua nos comentários! =]

QUER MAIS STAR WARS?

– Não deixe de ler a entrevista exclusiva que fizemos com Anthony Daniels, o C-3PO.

– E temos muito mais: resenha do jogo Jedi Academy.

Star Wars Trilogy: Aprentice of the Force.

Lego Star Wars.

Star Wars: The Force Unleashed.

– Chega de games? Que tal TV? Resenha de Star Wars: The Clone Wars.

– Ou então o que acha da Exposição Star Wars Brasil?

– O que me diz de relembrarmos juntos Darth Vader, o lorde negro dos Sith e um dos principais vilões da história?

– Seu negócio é cinema? Então aqui está nossa resenha de O Império Contra-Ataca.

E aqui a do Episódio III: A Vingança dos Sith.

– Para terminar, a resenha de Star Wars: Clone Wars, o filme.

– Quem leu todas essas matérias fale nos comentários para retirar seu diploma honorário da Academia Jedi Delfiana! =]

REVER GERAL
Nota
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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).