Shovel Knight

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E lá vamos nós falar de mais um dos games daquela lista dos melhores jogos do ano passado. Shovel Knight acaba de ser lançado para o PS4, PS Vita e Xbox One, o que naturalmente traz novo interesse a este jogo que é um dos destaques indies dos últimos anos. Logicamente, o DELFOS não iria deixar de contar para você o que esperar.

Este relançamento de Shovel Knight com conteúdo exclusivo em mais plataformas (Kratos nas versões da Sony e os Battletoads no Xbox One) após o sucesso do jogo continua uma tendência relativamente nova e muito boa que é de jogos indies se destacarem cada vez mais e, assim, “obrigarem” as empresas a disponibilizá-los em tudo que é plataforma. Shovel Knight realmente é um jogo para prestar atenção, uma vez que poucos jogos multiplataforma continuam gerando interesse (e conteúdo novo) como ele após vários meses de lançamento.

Sem mais delongas. Tudo o que você gostaria de saber sobre o jogo vem logo abaixo!

STEEL THY SHOVEL!

Vamos à pergunta óbvia: Shovel Knight é tão bom assim? Sim. Tenho jogado muitos games indies ultimamente, vários deles de grande qualidade e cheios de méritos próprios, mas tem algo em Shovel Knight que o faz se destacar em meio a tantos outros. Se fosse para chutar, diria que ele consegue fazer o que todo indie quer, mas dificilmente consegue fazer.

O apelo à nostalgia dos jogadores não é novo. A jogabilidade old-school também não é. Porém, o mundo de Shovel Knight, os personagens, a caracterização do herói e os diálogos, os gráficos e as músicas (gravadas de maneira que poderiam ser usadas em um Nintendinho) fazem dele uma coisa à parte. A sensação ao jogar Shovel Knight é de que se trata de um remake ou relançamento de um jogo que foi realmente lançado nos anos 80, não de um game novo que se inspirou em clássicos como Ducktales, por exemplo.

Shovel Knight tem uma identidade própria, uma marca. A Yatch Club Games conseguiu fazer um jogo que ora é paródia das convenções dos jogos antigos, ora os transgride ao brincar com um game design mais moderno. E aí a coisa fica interessante.

TENTE DE NOVO

Do gênero plataforma/ação, você vai pular muito durante o jogo, além de usar sua pá (!) para atacar inimigos, acertá-los na cabeça para pular mais alto, cavar tesouros (sim, igual Ducktales), entre outras coisas. Quase toda fase que você pode selecionar tem um chefe ao final, que troca diálogos hilários com o nosso protagonista, além de habilidades e poderes novos (chamados de relics), iguais aos jogos do Mega Man, que devem ser encontradas para poderem ser compradas com a moeda local (diferentes dos jogos do Mega Man).

A jogabilidade e o design das fases são, em geral, muito bons, mas o que torna a diversão significantemente maior é que os checkpoints das fases podem ser destruídos para você ganhar mais grana, que é essencial para tudo o que você quiser obter no jogo (desde as relics das fases, a upgrades de vida e magia, como também novas armaduras e habilidades com a pá). Se você destrói o checkpoint e morre, no entanto, terá de começar desde o último que não detonou, que pode muito bem ser o começo da fase.

Claro, você pode simplesmente ignorar isso e cavar menos grana, o que dificulta um pouco para conseguir mais upgrades no começo do jogo. E você vai querer os upgrades, delfonauta, porque Shovel Knight é muito, muito difícil. O desafio é daquele do tipo de querer jogar o controle na parede e achar que os desenvolvedores fizeram um game injusto, largando-o de lado só para meia-hora depois voltar atrás e tentar passar de novo daquela fase impossível.

Shovel Knight é linear, mas diferente de Guacamelee, outro indie legalzudo, ele não vai ficando mais difícil gradualmente. A segunda fase já é um inferno. O personagem em si é bem limitado, meio desengonçado e até fofo (é divertido pra caramba só andar com ele), e até o guarda da primeira cidade tira sarro dele – é a mensagem dos desenvolvedores de que você está em um mundo hostil e bem encrencado se não souber jogar perfeitamente como o cavaleiro azul da pá.

ALL HAIL THE TROUPLE KING!

As músicas do jogo são legais e grudentas, lembrando os melhores momentos de Mega Man. Os gráficos pixelados são bonitos e os diálogos muito engraçados, fazendo do game uma experiência audiovisual extremamente agradável (até o ponto em que você começa a tentar passar para a próxima fase).

Como quase todo jogo de videogame, Shovel Knight tem como história a busca por uma donzela em perigo, com uma ou outra pequena mudança na fórmula que é usada pelos jogos do Mario, por outros indies, como Guacamelee (de novo, é), e mais tantos outros jogos AAA que fizeram a feminista Anita Sarkeesian criar uma série de três vídeos longos para tratar do tema (é interessante e vale o debate, por isso mencionei aqui).

A sacada é que Shovel Knight sabe se apresentar e fazer o personagem principal ser bastante carismático. Além disso, a quase total ausência de cutscenes e o fato do interesse amoroso ter realmente uma personalidade forte tornam este exemplar bem mais interessante do que vários outros que se utilizam da mesma história.

SHOVEL JUSTICE!

Por mais que Shovel Knight seja legal, o trabalho de crítico não me dá outra escolha a não ser continuar insatisfeito (a não ser que o tema da análise seja alguma mulher misturada a pizza). O jogo não tem problemas muito sérios, mas não vejo incentivo para voltar a jogar, mesmo com um New Game Plus e mais de trezentos cheats que alteram o game de diversas formas. E tem um motivo para isso: o fato de o jogo ser linear.

A influência dos jogos originais de Mega Man vai até certo ponto, uma vez que você não pode logo de cara escolher com qual irá lutar. Funciona assim: para cada dois ou três chefes vencidos, você libera as fases de mais dois. Isso não torna o jogo completamente linear, mas também não dá as diversas possibilidades de caminhos que os jogos antigos davam.

Lembro que toda vez que alguns amigos jogavam Mega Man X, nós pensávamos em qual chefe iríamos encarar primeiro e assim qual arma habilitar na sequência, o que mudava bastante a dificuldade do jogo e forçava os jogadores a aplicarem técnicas avançadas logo no começo. Mega Man fazia muito para tornar você um jogador melhor ao mesmo tempo em que deixava você tomar suas decisões. Shovel Knight simplesmente não funciona dessa forma. O mapa e a experiência lembram Super Mario World, mas sem poder fazer caminhos alternativos. Cada fase de Shovel Knight é longa, difícil, podendo durar mais de uma hora, e, se você passou, é bem provável que tenha de usar as mesmas habilidades para repetir o feito novamente.

O replay do game deve melhorar bastante com os DLCs gratuitos que por enquanto não têm data de lançamento, mas, de qualquer forma, a aventura principal perde muito de seu apelo quando completada.

YOU CAUGHT ME

A constatação principal aqui é a seguinte: Shovel Knight entende de verdade o que fazia os games clássicos serem especiais, ao mesmo tempo em que acrescenta coisas novas. É até estranho como a imprensa de fora (e, em menor grau, aqui no Brasil) prestigiou este jogo, como se os games AAA estivessem sempre mais desinteressantes. Não diria que é bem por aí, mas o fato é que Shovel Knight provavelmente vai te divertir e desafiar muito. Várias vezes, são só dessas duas coisas que precisamos para um bom jogo.

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