Os 33

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Num dos episódios da última temporada da série Entourage (que passei a assistir depois de resenhar o filme), o astro de cinema Vincent Chase, após assistir ao drama dos mineiros chilenos num telejornal, decide escrever um roteiro sobre a história deles para ele próprio estrelar.

Todas as pessoas próximas a ele acham uma péssima ideia, visto que isso tinha mais cara de produção de quinta categoria do que de veículo em potencial para um dos maiores astros do momento. No final das contas, ele escreve o roteiro, mas vende o projeto como um filme para TV a ser estrelado por seu irmão mais velho e menos talentoso, Johnny “Drama” Chase.

Abri com essa pequena anedota apenas para ressaltar que a vida de fato imita a arte e alguém deve ter achado a ideia original de Vincent Chase genial, porque agora realmente transformaram a história dos 33 mineradores que passaram 69 dias presos dentro de uma mina no Chile após um desabamento em um longa-metragem hollywoodiano. A diferença é que ao invés do fictício Vincent Chase, ele é estrelado pelo Antonio Banderas.

Você já deve ter visto uma porrada de filmes estadunidenses sobre desgraças reais, principalmente aquelas que não ocorrem na terra do Tio Sam, então é fácil imaginar como é o negócio. Temos uma trama só com personagens chilenos, interpretados por um espanhol, um brasileiro, uma francesa, um filipino (Lou Diamond Philips), o Oscar do The Office e até um irlandês (Gabriel Byrne). Todos eles falando inglês com aquele inexplicável sotaque carregado, como se isso e espanhol fossem a mesma coisa.

Daí temos cada personagem lutando com seu próprio drama pessoal, o dramalhão exacerbado, as mensagens de esperança e, por fim, o triunfo da vontade de sobrevivência humana. Coisas que cairiam muito bem numa novela ou num livro de autoajuda, mas que num longa-metragem são apenas truques baratos para arrancar algumas emoções passageiras do espectador.

Ainda assim, mesmo com todas as piores características desse tipo de história sendo utilizados sem a menor vergonha, até que o negócio não é tão ruim quanto eu possa ter feito parecer até aqui. Suas duas horas de duração passam rápido e não são chatas, o que é sempre um fator importante, e em comparação, há sempre outros filmes bem piores.

Por fim, comecemos o obrigatório parágrafo sobre o Rodrigo Santoro. Desta vez, não há propaganda enganosa no pôster e ele é o segundo nome nos créditos, atrás apenas do Banderão. Seu personagem é o Ministro de Minas do Chile, o responsável por começar e organizar os esforços de resgate e ele tem um bom tempo de tela, embora seu personagem seja clichê como todos os outros.

Assim, relevando todos os lugares-comuns e as péssimas convenções desse tipo de filme, e se você também não se importar com a extrema previsibilidade da progressão do roteiro, até que dá para assistir sem traumas, embora não creia que alguém que acompanha o DELFOS vai querer fazer todo esse esforço quando certamente há coisas muito melhores e com temas muito mais atraentes em cartaz.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Está no DELFOS desde 2005.