Marvel Comics: A História Secreta

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Hoje todo mundo conhece a Marvel Comics, a maior editora de quadrinhos do mundo e casa de um monte de heróis famosos, como Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, Thor, Capitão América e por aí vai. Até mesmo quem nunca leu um gibi na vida conhece os personagens, devido às adaptações cinematográficas recentes.

O que talvez você não conheça, mesmo se for um fã hardcore de seus personagens, sejam as histórias de bastidores por trás da editora, tudo que a movimenta e faz suas HQs favoritas chegarem às bancas (ou comic shops) todos os meses.

Marvel Comics: A História Secreta conta justamente a história da editora, desde a época em que se chamava Timely. Passa pela criação de seus primeiros super-heróis, o Tocha Humana original e Namor, na virada dos anos 1930 para os 40. Cobre toda a era Stan Lee, a qual solidificou o chamado estilo Marvel, com novos personagens investindo em tramas mais humanas salpicadas de problemas da vida real.

Passa pelo surgimento da nova geração de artistas nos anos 70 e 80 e os superastros de muito estilo e pouco conteúdo da década de 90 que acabariam por fundar a Image Comics. Relata o período difícil que a editora passou no final dessa mesma década, quando chegou muito perto de falir. E termina com a criação do Marvel Studios e o lançamento de seus primeiros filmes.

Ou seja, é bastante detalhado e atualizado como documento histórico. E por mais que a obra do jornalista Sean Howe seja valiosa neste sentido, são as revelações e fofocas de bastidores o grande trunfo do trabalho.

EXCELSIOR

Após ler apenas alguns desses muitos contos, é de se espantar como a Marvel conseguiu publicar tantas HQs históricas e significativas para a nona arte. É de se pensar seriamente como eles conseguiram publicar qualquer coisa que fosse e ponto!

Através da abordagem da pesquisa jornalística e de centenas de entrevistas e depoimentos de diversos profissionais tanto dos departamentos de criação quanto da área administrativa e comercial em suas mais variadas fases, Howe traça um perfil nada lisonjeiro tanto da empresa quanto de diversas figuras importantes de seus escalões.

Se você tem aquela visão romântica dos quadrinhos como a criatividade em estado bruto e pureza artística acima de tudo, este livro definitivamente não é para você. Se mesmo assim se aventurar a lê-lo, prepare-se para ter suas ilusões completamente estilhaçadas de forma que jamais poderão ser reparadas.

Ao longo de suas muitas páginas, desenrolam-se inúmeros e frequentes confrontos de ego, artistas rebeldes, descontrolados e cheios de soberba, incompetência administrativa, caprichos e burrices editoriais, interesses comerciais ditando os rumos das tramas das revistas e mais tantas outras mazelas diversas.

Diferente do universo Marvel dos quadrinhos, cheio de personagens maniqueístas, as figuras de carne e osso por trás deles, embora entusiasmadas e apaixonadas por tais personagens, são extremamente falhas. É justamente este componente humano que o autor explora tão bem. Afinal, são essas figuras, entre seus erros e acertos, que levaram a editora à posição que se encontra hoje.

Com o distanciamento e imparcialidade que este tipo de livro exige, Sean Howe não se furta de mostrar os lados polêmicos mesmo das figuras mais sagradas da história da Marvel. Por exemplo: toca no sempre muito discutido ponto de que talvez Stan Lee tenha assumido muito mais crédito do que merecia pela criação dos personagens principais da editora. E não se furta em mostrá-lo como um deslumbrado, que almejava se tornar uma celebridade e conviver com outras. E por outro lado, foi um dos que mais batalhou para levar seus personagens para o cinema e outras mídias.

Já Jack Kirby, que entrou em verdadeira batalha com Lee alegando que muitos dos personagens e histórias eram de sua autoria, em determinado ponto estava afirmando até que o Homem-Aranha (personagem que ele nunca chegou a desenhar) foi criação sua.

Uma das melhores (e mais chocantes) passagens do livro se dá na controversa década de 90, com o surgimento dos desenhistas superstars que posteriormente formariam a Image Comics. Nunca a palavra “mercenário” teve um sentido tão claro quanto nos “causos” envolvendo essa galerinha. Algumas declarações de Todd McFarlane que Howe pinçou de entrevistas da época chegam a ser de um desrespeito absurdo não só com a própria indústria que fez seu nome e fortuna, mas com seus próprios fãs.

‘NUFF SAID

Todas essas tramas de bastidores, por vezes mais fantásticas e novelescas que um arco de X-Men se entrelaçam com o momento criativo, do surgimento de personagens e sagas marcantes para dar ao leitor o contexto histórico completo.

É o tipo de livro que te pega e te prende por todos os lados imagináveis. Num momento você está preso na leitura porque o autor está te contando como aconteceu o surgimento do Surfista Prateado e no seguinte você está devorando as páginas entretido por alguma picuinha mesquinha envolvendo um roteirista e um desenhista.

Marvel Comics – A História Secreta é um excelente documento histórico sobre uma das empresas mais amadas pelos nerds em todo mundo. Mais que mostrar como seus grandes personagens e sagas foram bolados, demonstra como egos em ebulição, opiniões conflitantes e os ditames do capitalismo selvagem contribuíram, para o bem ou para o mal, com a constante evolução de seus heróis e tramas. Leitura imperdível para qualquer um que já tenha lido alguma HQ com o logo da Marvel Comics na capa.