No geral, eu gosto dos filmes do Darren Aronofsky. O considero um bom cineasta em termos de técnica e narrativa, ainda que nem todas as suas obras me agradem. Contudo, foi duro de engolir seu novo trabalho, Mãe!, que chega aos cinemas esta semana.

É o tipo de longa que quanto menos você souber, mais forte a experiência. Mas para os mais curiosos, eis uma breve sinopse: Jennifer Lawrence e Javier Bardem são um casal que mora num casarão no meio do nada. De repente, eles começam a receber visitantes inesperados. Os caboclos vão ficando e são extremamente inconvenientes, para desespero da J-Law, que só queria ficar numa boa, a sós com o maridão, no conforto do lar.

Delfos, Mãe!

Essa situação totalmente bizarra lembra muito os trabalhos surrealistas de Luis Buñuel, outro cineasta do qual eu gosto muito. Só que grande parte da obra de Buñuel usa as maluquices nonsense como crítica social. Este aqui não tem a mesma classe e basicamente se escora num único gimmick, que na minha modesta opinião não se sustenta num filme de duas horas.

Tanto que ele é claramente dividido em duas partes. A primeira ainda vai. Mas a segunda se torna bastante cansativa e arrastada. Não é muito difícil saber como o negócio vai acabar, mas ele se estende, e se estende… Fazia um bom tempo que eu não olhava o relógio durante uma sessão de cinema, o que nunca é um bom sinal.

Delfos, Mãe!, CartazQuando consultei meu fiel Casio de pulso e constatei que ainda faltavam uns bons 40 minutos pro negócio acabar, bateu um desespero. Não o desespero pretendido pelo diretor, que quis criar uma atmosfera angustiante. Mas sim o desespero da chateação, de ter de aguentar ainda um bom tempo de filme pela frente.

MAMÃE – PONTO DE EXCLAMAÇÃO

A história pode ser encarada, em um nível mais superficial, como um terror psicológico. Mas pode ser aprofundada como uma grande analogia religiosa. E considerando que o longa anterior do cara foi Noé, fico imaginando se ele não estaria se transformando num cineasta cristão.

Há muitos elementos religiosos que são colocados e não explicados, formando um quebra-cabeça para que o espectador junte as peças e monte ele próprio a parábola, de preferência ao remoer tudo isso depois que o filme acaba. Isso não seria um problema. Mas eu, particularmente, não tenho o menor interesse nessa temática. Logo, para mim, a experiência foi bem ruim.

Tecnicamente, também não é nada que ele já não tenha feito antes. A história toda se passa dentro da casa, com a câmera seguindo sempre a Jennifer Lawrence. Tipo como ele fez em O Lutador com o Mickey Rourke.

Delfos, Mãe!
Cadê minha mãe!?

De fato o filme consegue instilar algumas emoções: agonia, raiva, desespero. Só que para mim isso aconteceu não relacionado à história e à metáfora que ele quis utilizar, e sim à chatice da coisa como um todo.

Mãe!, no fim das contas, tem aquele jeitão de trabalho mais artístico que para mim resultou apenas raso e sem atrativos. Contudo, não nego que ele tenha potencial para agradar quem goste de procurar e analisar essas simbologias religiosas da história. Se você se encaixa neste grupo, é bem capaz de gostar muito mais do filme do que eu.