Argo

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Ben Affleck é aquele cara que todo mundo adora esculachar. Como ator, seus dotes interpretativos não são lá uma Brastemp, pra dizer o mínimo. Comparado ao chapa Matt Damon então, fica no chinelo. Mas eis que recentemente ele resolveu se arriscar na direção. E se deu bem. Se o Affleck ator não é grandes coisas, o Affleck diretor é um sujeito a ser respeitado.

E Argo, seu terceiro longa-metragem atrás das câmeras, é a prova de que essa mudança de ares foi a melhor coisa que ele poderia ter feito. Eu havia assistido Atração Perigosa, seu segundo filme. Direção segura, mas o longa em si não achei nada de mais. Argo, contudo, demonstra uma tremenda evolução, sem contar que é um baita filme.

Baseado em fatos reais, a produção mostra mais um exemplo dos EUA se metendo onde não devem. Dessa vez, no Irã. Na virada dos anos 1970 para os 80, após uma série de manobras políticas com o dedo dos ianques (tudo explicado de forma bem didática no começo da projeção), os iranianos se revoltam e invadem a embaixada dos EUA em Teerã fazendo todo mundo de refém. Mas seis funcionários espertinhos conseguem fugir e se abrigam na casa do embaixador canadense.

Se o sexteto for encontrado pelo exército iraniano, provavelmente será executado sem dó nem piedade. Um agente da CIA (Affleck) desenvolve então um plano de resgate tão mirabolante quanto absurdo. Não, ele não envolve big fucking guns e o Chuck Norris, o que, admito, também seria bem legal. Mas aqui o esquema é outro.

Nada dos elementos de um bom Testosterona Total, apenas falsificações, muita lábia, cara de pau e colhões do tamanho da lua. O negócio é assim: o agente vai se passar por um produtor de cinema interessado em filmar no Irã e os seis refugiados se passariam por membros de sua equipe de filmagem. E a partir daí acompanhamos a execução do plano. Eu realmente queria contar um pouco mais da sinopse, pois a história é muito legal. Mas acho que ia tirar um pouco da graça para quem não sabe nada sobre ela.

E, rapaz, o negócio é tenso. Esse é daqueles filmes de ficar afundado na poltrona roendo as unhas. Saí do cinema com os ombros duros feito pedras. A sensação de que a qualquer momento um detalhe minúsculo pode dar errado e colocar tudo a perder permeia todos os seus 120 minutos de projeção.

Também é hilário em vários momentos. Quando o maquiador de efeitos especiais (John Goodman) e o produtor (Alan Arkin), ambos realmente de Hollywood, entram em cena para ajudar a elaborar a farsa, roubam a cena com diálogos tão engraçados quanto ácidos sobre a indústria do cinema estadunidense. Chega a ser uma pena que eles não tenham mais tempo de tela. Mas é preciso andar com a história principal.

Ben Affleck demonstra grande desenvoltura ao manejar múltiplos personagens, avançar várias frentes da trama, deixar tudo bem claro, mesmo para quem não conhece a história real, e sem deixar o ritmo diminuir nem por um segundo, mantendo toda aquela tensão que eu já comentei durante toda sua duração.

Até atuando ele se sai bem, embora seu papel, do cara frio e que não pode deixar transparecer muita emoção, ajude bastante. Mas ao menos agora sabemos que, além do Kevin Smith, o próprio Affleck também é capaz de tirar uma atuação convincente de si mesmo. Bizarro, não?

Só não dei o Selo Delfiano Supremo porque este não é um gênero de filme particularmente marcante para mim. É o tipo de película que, embora tenha inúmeras excelentes qualidades, conforme passei a resenha toda enumerando, dificilmente vou querer assistir de novo. E isso para mim é um fator importante. E sim, eu ando limitando minha distribuição de Selos.

Argo é o tipo de filme cada vez mais raro, de gente grande, para gente grande. Engraçado, nervoso e extremamente divertido. Entretenimento de primeira. O que me faz concluir essa resenha com o pensamento de que, quando um bando de nerds chiou quando o nome dele foi apontado como possível diretor do filme da Liga da Justiça, eles deviam é torcer para que ele aceitasse. Estaria em boas mãos. Duvida? Então assista a este filme e comprove. É um longa de primeira, mais que recomendado a todos que gostam de cinema de qualidade.