Meu acesso a Marvel’s Wolverine foi tardio, apenas depois do lançamento. Assim, tive oportunidade de saber como ele tinha sido recebido pela imprensa e pelo público antes mesmo de começar a jogar. Mais importante, já tinha publicado minha análise de Control Resonant e visto a absurda nota de Metacritic que ele conquistou. Minha conclusão ao ver tudo isso foi simples. Não foi algo como “a imprensa é paga por ter uma opinião diferente da minha”. Não. A conclusão foi “a mídia mainstream prefere um jogo de mundo aberto ruim a um bom jogo de ação linear”. E isso é triste. Especialmente para quem gosta mais dessa segunda opção.
Curiosamente, Marvel’s Wolverine foi lançado com uma ótima repercussão na PSN e se tornou um dos exclusivos mais vendidos da geração. Talvez minha opinião seja mais ligada à do público. Talvez não. Seja como for, o tempo dirá se as desenvolvedoras vão se deixar levar pela opinião geral da imprensa ou pelas vendas. A história nos faz pensar que o dinheiro influencia mais, mas não vamos fingir que os criativos não vão ficar chateados por ter investido tanto suor em um jogo tão duramente criticado.
REVIEW MARVEL’S WOLVERINE
É incrível, mas todas as críticas que a imprensa fez a Marvel’s Wolverine simplesmente me deixavam com mais vontade de jogar. Assim como aconteceu com Ryse e Callisto Protocol antes dele, tinha certeza que esta era uma rara oportunidade de jogar algo muito bem dirigido e com altíssimos valores de produção. Assim como Streets of Rage antes, ele mostrar o caminho me parece mais um resquício dos tempos de arcade do que algo a ser criticado. Afinal, os beat’em ups de outrora só tinham uma direção para seguir. E, mesmo assim, depois de vencer todo mundo, ele sempre mostrava uma seta para a direita. Basicamente, era uma forma de o jogo comunicar “você venceu a pancadaria, continue andando para lutar de novo”. E não vejo problemas com isso.
Igualmente, os já muito criticados gases de pum são citados como uma forma de o jogo simplesmente não deixar você se perder. Porém, é uma mecânica narrativa. É uma forma de o jogo dizer para você que o Wolverine está seguindo o cheiro de alguém, mais do que para realmente te mostrar o caminho. Afinal, o caminho é quase sempre óbvio. A real utilidade dos puns era te mostrar quando estava próximo a colecionáveis. E eram uma mão na roda. Eu estava jogando quando a Insomniac se rendeu à pressão e atualizou para que os puns ficassem quase invisíveis.
PUNS E WAYPOINTS
Tipo, narrativamente, eles ainda têm a mesma função. Quando você sabe que o gás está lá, vai acabar vendo. Mas a ajuda para colecionáveis simplesmente se tornou muito limitada. Porque a não ser que você esteja procurando por ele, simplesmente vai passar batido. Eu fui, de uma versão a outra, de pegar todos os colecionáveis sem ajuda alguma, para começar a perder um monte e precisar buscar guias na internet para isso. Era o que a Insomniac pensou quando desenvolveu o jogo? Em uma época em que até os mundos abertos marcam colecionáveis no mapa, a desenvolvedora planejou que os jogadores tivessem que sair do jogo e repetir as fases olhando um vídeo do Youtube para colecionar breguetes? Sinceramente, acho que não. E ceder a esta pressão estúpida e me obrigar a buscar guias para pegar colecionáveis é o único motivo que me fez não dar Selo Delfiano Supremo para Marvel’s Wolverine.
Os waypoints são algo que tradicionalmente facilita muito um jogo linear. Você consegue ver o caminho certo apertando o botão. Isso não serve para você seguir o caminho, mas para EVITAR o caminho até estar pronto. Nada é pior do que ter um monte de colecionáveis para pegar, escolher um caminho e o retorno fechar porque você avançou a história. Além disso, tem algumas fases em que os heróis têm uma cidade para explorar (especialmente no Japão), e acredito que jogar esses trechos sem waypoints ficaria simplesmente chato para todo mundo.
FALEMOS DE MARVEL’S WOLVERINE
Até agora eu respondi aos reviews que a imprensa publicou até o momento. E acredito que talvez esta seja a parte mais importante de uma resenha tardia para um jogo que você provavelmente já está jogando. Mas quero falar um pouco também sobre ele. O que temos aqui é um beat’em up em 3D com altíssimo orçamento. E sim, você pode – e deve – criticar o fato de a Insomniac ter gastado tanto dinheiro nele (300 milhões de dólares, de acordo com estimativas).
Mas o fato é que, como first party, Marvel’s Wolverine tem valores de produção absurdos. Eu não costumava ver a Insomniac como um estúdio especialmente técnico, mas nesta geração eles vêm se superando. Este é um jogo totalmente sem loadings, com uma qualidade de imagem altíssima, mesmo no PS5 base. Vou dizer, a qualidade de imagem – especialmente de jogos como Control Resonant – no PS5 é algo que me incomoda muito. Sinto que eles usam o upscaling de forma tão agressiva que deixa o jogo mais feio do que se ele simplesmente rodasse a 1080p. Aqui isso simplesmente não é uma questão.
Marvel’s Wolverine tem duas opções no PS5 base, as tradicionais performance e fidelidade. E ambas fazem o que você espera, com a qualidade que espera. E daí, se estiver jogando numa TV com suporte a 120 hz e VRR, pode ativar também estas funções. O modo fidelidade com VRR parece ter tantos detalhes quanto o modo fidelidade tradicional, com uma performance VRR que sem ferramentas você pode jurar que é 60 fps. Lindo mesmo.
CACHORRO SAFADO
O game design linear focado em história, as belíssimas cutscenes e o level design trazem lembranças muito fortes de jogos antigos da Naughty Dog. Você sabe, quando eles ainda faziam jogos. Tem um monte de momentos de leveza, em que você pode conversar com outros personagens ou explorar no seu tempo. Tudo intercalado com fases de ação cheias de adrenalina, com um combate excelente e um roteiro de gameplay absurdo de bom.
O combate é realmente bom. Você tem dois botões de ataque, mas como em um bom fliperama, as animações não são travadas, mas contextuais. Isso faz com que controlar o Carcaju seja sempre brutal e satisfatório. A sensação é, sem brincadeira, a de estar jogando uma cutscene. Marvel’s Wolverine é provavelmente o jogo mais violento da geração. Porém, sua violência é cartunesca, típica de gibi, o que a torna mais divertida do que assustadora, ao contrário de um Resident Evil, por exemplo. O herói arranca braços e cabeças o tempo todo, mas esta violência nunca é o foco da câmera, que costuma ser principalmente no heroísmo ou na simples brutalidade do protagonista.
Quem realmente sofre violência, pelo contrário, parece ser justamente o herói. Durante as lutas, é possível ver seus ossos, por exemplo. Depois de uma porradaria mais longa, o herói se restaura, mas sua roupa continua rasgada (pelo menos até a próxima cutscene). Isso me incomoda apenas no fato de que todas as roupas parecem rasgar sempre do mesmo jeito – especialmente aquele buraco nas costas, que é a primeira coisa que rasga sempre, é bem feio. Sei lá, eu gosto muito do jogo X-Men Origins Wolverine, e acho que lá as roupas rasgam de forma melhor. Pelo menos na minha memória.
ESTOU CHEIRANDO COSMÉTICOS
E sim, tem uma pá de roupas. Tem um monte de versões do uniforme do Wolverine (inclusive duas de desenho animado) e algumas roupas mais civis, que normalmente fazem parte da história. A maioria delas você pode escolher entre ver com e sem capuz. O Wolverine original, por exemplo, é a roupa do gibi que eu mais lembro (com cueca pra fora das calças e tudo), mas o capuz dela é muito feio e não bate com o capuz da minha memória. É uma que eu normalmente escolho usar sem capuz.
O jogo tem um monte de colheres de chá. Dá para se recuperar de vez em quando ao morrer e tem um upgrade que permite se curar no meio da luta. Mais importante, tem duas dificuldades abaixo da padrão, inclusive a mais baixa, que torna impossível morrer. Eu sabia que o jogo era fácil, então tentei jogar a princípio acima da dificuldade padrão. Achei difícil demais (e ainda tem uma acima dela, então não pense que o jogo não pode te dar uma canseira), e logo baixei para a tradicional. Nesta, para minhas habilidades, o jogo está perfeitamente tunado. Eu morro de vez em quando, mas não a toda hora. E jogar é muito mais divertido e empolgante do que frustrante, exatamente como videogames devem ser.
Marvel’s Wolverine é exatamente o que espero dos meus videogames. Um jogo com altos valores de produção, combate sensacional, e que não desperdiça meu tempo. Mais vale oito horas divertidas do que cinquenta de tédio (e este dura bem mais de oito horas). Se você também tem este ideal aparentemente inalcançável do que é um bom jogo, esta é a hora de aproveitar e votar com a sua carteira. Porque depois vem vários anos ininterruptos de limpação de mapa.
































