“Política é chato”, dizem aqueles que nem tentar entender o que acontece. Mas mesmo entre os bens intencionados, esta frase é comum. Comum, mas errada. A política brasileira dos últimos anos é tudo menos chata. Na verdade, em muito se assemelha a uma esquete do Monty Python, talvez apenas um pouco mais absurda. E é isso que esperava de No Céu da Pátria Nesse Instante.
Este é um documentário sobre a política brasileira, focado nas eleições de 2022, quando a divisão da população esteve beirando o absurdo. De um lado, aqueles que achavam que o Brasil acabaria se o então presidente Jair Bolsonaro fosse reeleito. De outro, um grupo muito diferente: aqueles que achavam que o Brasil acabaria se o ex-presidente Lula fosse reeleito. É uma época fascinante, uma eleição fascinante, e eu certamente me interessaria por informações históricas e desconhecidas do que estava rolando antes e rolou depois da eleição em questão. No Céu da Pátria Nesse Instante não oferece isso.
CRÍTICA NO CÉU DA PÁTRIA NESSE INSTANTE
No Céu da Pátria Nesse Instante não foca nos protagonistas da eleição em si, e nem em informações privilegiadas. Ao invés disso, ele simplesmente acompanha o dia a dia de pessoas que trabalhavam na campanha do seu presidente de estimação. A imensa maioria dos retratados trabalha para o PT e, salvo engano, há apenas uma família do lado do Bolsonaro. Uma em que todos se vestem apenas de amarelo. Chega a ser engraçado. Minha filha usa menos rosa do que essa galera usa amarelo.
Então já tem um problema de foco aí. Em uma época tão absurda da nossa história, o mais interessante é focar nos grandes players. Em quem está de fato tomando decisões, por mais absurdas que sejam, ou tentando impedir que elas aconteçam. Focar em quem está fazendo folhetos e distribuindo nas ruas parece uma oportunidade perdida diante do tema. E daí tem a parte técnica.
A PARTE TÉCNICA

O documentário praticamente não tem roteiro. Não há conversas com a câmera nem entrevistas. Basicamente, há uma câmera filmando as pessoas enquanto elas trabalham ou conversam. Isso já é chato e sem importância por definição, mas fica ainda pior pela terrível captação de áudio. Boa parte das cenas são feitas em comícios, festas e outras atividades públicas. Assim, é comum ter música rolando ou vozerio à parte. E tudo é captado, aparentemente pela própria câmera. Não tem foco no que você deveria estar ouvindo, a ponto de que eu não ironicamente pensei em dado momento “será que essa diretora já ouviu falar de microfones?”. Eu sei bem dos desafios de captar áudio em lugares públicos, mas há formas de fazer isso, especialmente quando seu documentário é financiado pela Rede Globo.
Restam as legendas. A cabine de No Céu da Pátria Nesse Instante foi on-line, o que é ótimo. E havia a possibilidade de ligar legendas em português. Porém, elas estavam tão absurdamente mal escritas que mais atrapalhavam do que ajudavam. Não sei se são geradas automaticamente, mas se foram escritas por uma pessoa, acredito ser uma pessoa não capacitada para a função. O que é um grande erro em um filme com som tão importante e tão mal captado.
ÉPOCA FASCINANTE, MAS MAL CAPTURADA
E é uma pena, pois ainda estou no mercado para um documentário sobre essa época e essas pessoas. Especialmente sobre os apoiadores do Bolsonaro, que parecem pessoas incapazes de ver os fatos. Em determinado momento, um deles fala para a câmera, em uma das únicas cenas do tipo, que ele vê a realidade de um jeito e a diretora de outro, e por isso eles não conseguiam conversar. Fascinante. É como alguém dizer: “você não está vendo aquele monstro gigante com tromba rosa destruindo prédios?”, enquanto olha para as nuvens.
Vi um documentário um tempo atrás sobre os terraplanistas, cujo nome infelizmente não me lembro. E, ao invés de julgar, o diretor simplesmente deixava a galera falando sobre suas crenças. Não tinha comentários ou opiniões, apenas as pessoas falando sem filtros, e era fascinante quão distantes da realidade eles estavam. Acredito que um documentário sobre bolsonaristas seria tão abridor de olhos quanto isso. O público era e é fascinante. Mas tinha muita coisa rolando nessa eleição, e no Brasil como um todo, de antes e de depois dessa época, que merece ser capturada em documentários e documentos históricos. Não foi dessa vez, No Céu da Pátria Nesse Instante, mas espero que trabalhos com essa linha ainda sejam feitos.






































