Whiplash: Em Busca da Perfeição

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Ah, a bateria. Instrumento tão essencial para a maioria dos gêneros musicais, e também aquele que costuma produzir os solos mais maçantes em shows. Pois é justamente ela a maior estrela de Whiplash: Em Busca da Perfeição, longa que chega agora aos nossos cinemas.

Miles Teller (o novo Reed Richards do vindouro reboot do Quarteto Fantástico) é Andrew, aluno prodígio do instrumento no melhor conservatório musical dos EUA. Um dia, ele é descoberto por Fletcher (J.K. Simmons), um dos professores mais respeitados do lugar, que o coloca atrás do kit na banda de Jazz que ele rege.

É aí que começa o calvário de Andrew, pois Fletcher é daqueles professores (aparentemente mais comuns do que se imagina nesse tipo de lugar) cuja metodologia de ensino e incentivo constitui humilhar e desmoralizar os alunos das formas mais desagradáveis, cruéis e criativas possíveis. Delfonauta, prepare-se para conhecer um dos maiores bullies da história do cinema.

Contudo, diferente de um Biff Tannen, Fletcher é um personagem complexo e o longa vai revelar tanto porque ele optou por ser daquele jeito com seus pupilos quanto porque Andrew se sujeita a suas maldades. J.K. Simmons sem dúvida é a estrela do filme, conseguindo tornar um personagem a princípio odioso numa figura até certo ponto relacionável. E, caramba, algumas das barbaridades que ele diz aos alunos são tão cruelmente hilárias que é impossível não rir com muitas delas.

A grande sacada do filme é justamente essa, fugir de um óbvio maniqueísmo, mostrando personagens cheios de nuances. Afinal, se por um lado o escroto Fletcher consegue ser engraçado e até um tanto carismático, Andrew também não é nenhum mártir e em muitos momentos é tão antipático quanto seu professor, se achando a última bolacha do pacote. Isso é explorado muito bem na cena do jantar em família, quando ele exagera na reação após seu ofício ser menosprezado pelos familiares ignorantes.

Ninguém é santo e tudo que importa para os personagens é a busca da perfeição do subtítulo nacional. E as cenas do cara na batera são realmente impressionantes, bem como todas envolvendo a banda de Jazz. Como não poderia deixar de ser em um longa com música como tema principal, a trilha sonora, bem como as músicas que a banda ensaia e apresenta, são bem legais, ainda mais para quem gosta de Jazz mais ao estilo das big bands.

E, claro, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que o terceiro ato envolverá um inevitável solo de bateria, que neste caso combina muito bem com o desenvolvimento do enredo e é outro dos grandes momentos do filme. De fato, esse é um dos filmes sobre música mais legais que assisti em algum tempo.

Só é pena que em determinado momento ele dê uma exagerada além da conta, algo bem desnecessário para um filme com tantas qualidades. Refiro-me à sequência onde Andrew esquece as baquetas (quando assistir, você saberá exatamente do que estou falando). Não fosse essa parte, teria facilmente ganhado cinco Alfredos. Mas ei, mesmo assim ainda é um baita longa.

Excelente programa, mais que recomendado não só a bateristas e aspirantes, mas a todo mundo que gosta de histórias sobre música ou simplesmente de bom cinema. Bela pedida para começar seu 2015 cinematográfico com o pé direito.

CURIOSIDADE:

– Segundo o IMDb, o ator Miles Teller toca bateria desde os 15 anos (ele está com 27) e, em preparação para o filme, passou a praticar quatro horas por dia, três dias por semana. Mesmo assim, devido ao estilo vigoroso e pouco convencional de se tocar Jazz exigido pela película, ele ficou com bolhas nas mãos e chegou a sangrar nas baquetas e na bateria.