Trumbo: Lista Negra

0

Dalton Trumbo era um dos roteiristas mais requisitados de Hollywood entre as décadas de 1930 e 1940. O cara ganhava bem por cada roteiro e era reconhecido em seu meio, tipo um precursor do Charlie Kaufman de hoje. No entanto, Trumbo também era membro do Partido Comunista, o que viria a lhe trazer muita dor de cabeça.

Pois Trumbo: Lista Negra centra-se justamente em mostrar como possuir uma ideologia diferente da maioria é capaz de atiçar a imbecilidade humana dos piores jeitos possíveis. O longa começa em 1947, com Dalton já estabelecido como um dos melhores roteiristas da indústria. Eis que começa a Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética e a casa cai para Trumbo e outros colegas do meio também membros do partidão.

O Comitê de Atividades Anti-Americanas os convoca ao congresso para se meter em sua liberdade ideológica e para obrigá-los a dedar outros vermelhinhos com a ameaça de irem para a prisão se não cooperarem com as investigações. E como resultado, eles foram colocados na Lista Negra de Hollywood, proibidos de trabalhar na indústria. Afinal, eram todos comunistas comedores de criancinhas em conluio com os russos e não apenas pessoas que achavam que o sistema sociopolítico em questão teoricamente fazia mais sentido que o capitalismo selvagem estadunidense.

O filme é uma típica cinebiografia de época, com visual extremamente caprichado e glamoroso, remetendo à era de ouro de Hollywood, e também com os clichês que o gênero acarreta, como o roteiro esquemático, mostrando de forma exagerada, a fim de tirar umas emoções baratas do espectador, Trumbo, sua família e amigos hostilizados por todos os lados, mas no final superando as dificuldades e obtendo justiça.

Contudo, para quem gosta de cinema, sobretudo do cinemão estadunidense do período retratado, entre os anos 40 e 60, o longa cresce muito e vai parar acima da média de seus pares. Inúmeras figuras famosas da indústria são retratadas, como chefões de estúdio, jornalistas influentes, atores e diretores.

É um barato ver toda essa galera interagindo numa história sobre liberdade de opinião, porém tendo o cinema como pano de fundo. Afinal, mesmo na lista negra Trumbo nunca deixou de trabalhar, recorrendo a diversos pseudônimos para não ser descoberto. Só para se ter uma ideia, o cara ganhou dois Oscar de roteiro durante seu período de persona non grata e nem pôde recebê-los, pois não podia assumir a autoria por seu trabalho.

Ele só foi começar a ter sua redenção em 1960, quando escreveu um tal de Spartacus, dirigido por um sujeito chamado Stanley Kubrick, você já deve ter ouvido falar dele. Mas chega de falar da história, o que importa é que mesmo sendo um longa esquemático, ele funciona muito bem, e ver Bryan Cranston atuar é sempre um prazer. Aqui, como sempre, ele está muito bem.

Fora que o tema continua atual como nunca, especialmente em nossa terrinha de intolerância quanto à opinião política, onde impera a rivalidade ignorante entre petralhas versus coxinhas, o que o torna um bom programa para nos alertar do que pode acontecer caso as pessoas não parem para pensar um pouco e dialogar antes de latir raivosos preconceitos e frases feitas para qualquer um.

Assim, aliando uma temática importante à própria história de um período importante do cinema estadunidense, Trumbo: Lista Negra se torna um daqueles bons programas que divertem e fazem pensar. Vale uma assistida, especialmente se você for fã de filmes antigos.